A noite avança lenta à minha volta, trazendo sua nunca-escuridão de cidade apressada. Da pequeníssima varanda avisto janelas enfileiradas nos edifícios, como quadros emoldurados numa galeria. Com o passar das horas, salas, quartos e pessoas vão-se esmaecendo do amarelo-vivo e branco à treva,até restarem somente os contorno negros de megálitos contra a aurora austral de luzes e fuligem. Observo, nas ruas abaixo, faróis erráticos e mulheres que desafiam a madrugada debruçando-se nas janelas dos carros. Orbitam postes de luz. Espero o minuto seguinte recordando alguma música distante no tempo, que, de súbito, se mistura às sirenes com distorção surpreendente, partindo no encalço de emergências. Alteram-se todos os sons em contínuo esganiçar de violinos, derretendo-se adiante como relógios em um quadro de Salvador Dali. Apago o cigarro. Mais tarde, quase à hora habitual de despertador, irrompe na parede negra e lisa uma moldura com mulher em cores e sombras de Rembrandt. Há uma porta ali, onde logo desaparece dos olhos para ressurgir, fresca e ainda molhada, envolta em toalha de banho. Cabelos enrolados no alto da cabeça, nuca oferecida com gotas de perfume. Cai a toalha enquanto revira as gavetas, com aparente descuido, para escolher uma calcinha estampada - quase infantil - ou a uma renda preta que julgo reconhecer de outra semana. Imagino alcançar seu perfume na nuca e nos seios... seu gosto entre as pernas. Apaga-se a luz sem um olhar, desfazendo-se a cena em negrura da noite. Tento, em vão, sentir pelo tato das mãos e da língua suas curvas, seus pêlos, seus dedos úmidos entre lençóis. Adormecemos cansados. O dia reaparece barulhento, devolvendo à cidade todos os seus carros, ônibus e fumaça negra. Da varanda, ainda sonolento, vejo os edifícios com incontáveis janelas. Procuro o quarto, a cama, a dama da madrugada em suas cores e sombras de Rembrandt. Esforço inútil. Vejo somente cenas cotidianas nas janelas e nas ruas abaixo. Ali, meninas descalças orbitam os postes, abordando carros parados nos semáforos com mãos estendidas. Cães vagueiam nas calçadas, soltos e sós, como se habitassem um mundo desbotado e repleto de sol copiado das aquarelas de Debret.