Me deixei cair. O rosto perdeu-se do pescoço como uma peça de montar. Parecia que o escuro era tão próprio seu quanto as asas do céu, os pés do chão; tão próprio como da sala ouvir um cigarro riscar outra escuridão. Uma escuridão maculada de luzes furtivas (como no amanhecer ou no entardecer). Nem há ângelus. Nem há a estrela da manhã irrompendo em minhas madrugadas, à beira de uma janela vermelha durante anos e anos, todos os dias, no meu antigo endereço. Nem há seu cheiro de mar. Seu telefone vem e volta com os dias, as portas que rangem, a madeira de taco retesando as fibras no hálito impuro da madrugada. O Náutico de luzes apagadas e pedras quase seculares. "Pouco resta", acendo um charuto. Charuto como o quê? Como as memórias; é. Mas se vier a ler isto não tente compreender, meu amor, você sempre soube que meu raciocínio é um fauno impossível, pulando de um lado pro outro com mil brincadeiras de epifania, etc., deslumbramentos (luzes coloridas, velas, detalhes e recortes de imagens banais que fazem minhas pupilas se abrirem com prazer). Ando lendo Galeano e lembro-me de ti. Teria eu sido a "mulher que diz tchau" se por acaso, com efeito, ela fosse mas cínica -e você fosse menos cruel. Pouco resta. A minha boca recheada de trago... Uma transgressão boba mesmo -que tu sabes que eu não fumo quase. Você sabe muito, mas não sabe o que se passa. Tudo o que você sabe de mim já é passado e agora meu perfil é um carimbo esfumaçado em uma folha de papel amarelada de filme noir. "Pouco resta!", escrevo numa folha de papel, tentando iniciar um poema; enquanto isso, a sombra das tuas ironias invade a minha insônia, como o som de um telefone desligado.