Prerrequiem Se eu aparecer morto amanhã, por favor, não chorem. Terei morrido feliz. Não, isso não é um bilhete de suicida. Pelo contrário, é um recado de vida. Estou vivo. Faço o que gosto. Faço o que quero. Estou feliz. Por isso, se eu aparecer morto amanhã, por favor, não chorem. Na adolescência, acreditava que morreria aos 19 anos e fiz o máximo que pude antes disso. Passei. Depois, comecei a acreditar que não chegaria aos 32 e fiz o máximo que pude. Passei. Agora, tanto faz. Cumpri meu papel de indíviduo humano dando seqüência à preservação da espécie. Dei exemplos de atitudes libertárias para quem quiser seguir e, também, ser feliz, desvinculado de preceitos, dogmas e estabelecimentos. Contribuí para a revolução da informação, marco histórico do final do século 20. Escrevi livros, pelo prazer, que podem ser publicados por quem quiser. Satisfiz meu ego assumindo posições de destaque e sendo reconhecido em todos os lugares por onde passei. Agora, aos trinta e oito anos, sou avisado de que não posso comer sal, sob risco de morte. E de que não posso comer açúcar, sob risco de morte. Em suma, devo abdicar de um de meus prazeres preferidos. Não estou a fim. Sempre brinquei com o assunto, dizendo que prefiro viver 98 anos comendo bacon a viver 99 comendo salada. Só que a ameaça chegou aos 38. Tudo bem, tanto faz. Vou continuar comendo bacon e evitando salada, pobres seres verdes. Se alguém quiser que eu continue vivo, que traga remédios. Pra mim, tanto faz. Vou continuar comendo pizza e torta de morango. Por isso, se eu aparecer morto amanhã, por favor, não chorem. Apenas providenciem a reciclagem do que for possível e queimem o que sobrar.