São 7 horas e é a segunda vez que ela abre os olhos e pensa em acordar. E pela segunda vez aqueles barulhos. Não sabia se dormia de novo ou se ficava ali quietinha tentando ouvir todos os detalhes sonoros. Se enfiava o travesseiro na cara ou entre as pernas. Pensou em cantarolar uma música para se perder dentro de si. Ou quem sabe imaginar, imaginar, imaginar, até que a coisa ganhasse vida e virasse sonho. Teve a impressão de que os barulhos estavam se aproximando, mas ela já não dava atenção para um pensamento por mais de 5 segundos. Em 5 segundos cabe muito medo, muita ansiedade, muita angústia. Em 5 segundos ela poderia morrer asfixiada com um pedaço daquelas unhas sujas e vermelhas ou cair em sono profundo sem nem se dar conta nem lembrar de barulho algum. Em 5 segundos pessoas morrem, prédios desabam, corações se partem, óvulos fecundam, bombas explodem, ondas quebram, tudo acontece. E ela ali, apática por milhões de 5 segundos... só teve força pra pegar o cigarro, o cinzeiro e o isqueiro em cima do criado-mudo e tentar acender uma luz no fim do mundo.