Recolho os dentes, tiro a cara da poça de sangue, emendo os ossos, abro os braços e subo, de costas, flutuando, até o nono andar. Fico ali um tempo, sentado no beiral e volto para dentro. Junto os cacos e refaço o copo, encho a garrafa. Volto para o banheiro e páro diante do espelho por quase uma hora, olhos inchados. Visto a camisa, vou para o computador, deleto a carta de despedida e mando restaurar o sistema. Uma semana. Tomo os comprimidos e penso na crônica do dia seguinte. Escrevo, escrevo, corrijo quatro ou cinco palavras, imprimo, rabisco todo um parágrafo com a Futura vermelha, reescrevo, reimprimo, rerrabisco, até o amanhecer. Despacho a crônica para o jornal, desço para tomar café na padaria e desvio do corpo coberto com plástico preto e do sangue marrom ressecado que se desenha em direção à sarjeta. Tomo um café expresso e como um pão de queijo. R$ 2,20. A moça não tem troco para R$ 10. Depois eu pago. Ela acredita. Hehehe...