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Somos fãs do Projeto Revelando os Brasis. De cara achamos que era um projeto que tinha tudo a ver com a vocação colaborativa do Overmundo, ao permitir que pessoas de cidades com menos de 20 mil habitantes tivessem todo o apoio para fazer curta-metragens. Ano passado, vários textos foram feitos por aqui graças a uma parceria bem legal com o projeto. Este ano, seguimos em contato... leia

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canto_esquerdo Autor Mensagem canto_direito
 
Jacques
Rio de Janeiro, RJ
17/6/2008 20:44

A raiva, a frustração e, sobretudo, a tristeza que tomaram conta de mim quando recebi o e-mail de Thiago já se foram. Mais calmo agora, fico agora me perguntando porque a foto de um carrinho de camelô vendendo frutas numa calçada da Bahía, a história de um casal que vive dentro de um fusca sem rodas, um texto sobre o consumo de carne dos brasileiros, uma crônica de futebol são considerados " produtos" que se enquadram nos fins e propóstios do Overmundo (aliás, que experiência fantástica!!!! Novamente parabens!!!!), enquanto uma crônica bem burilada sobre 3 soldados que entregam 3 jovens a traficantes em um morro do Rio de Janeiro é vista como um estranho no ninho?

O ato dos militares incorpora alguns dos traços mais característicos da violência que está na própria gênese histórica da sociedade brasileira. A exclusão das favelas do mundo da cidadania, incorpora por sua vez a mais pura tradição da discriminação sócio-racial que viabilizou a formação do capital neste país. Creio que meu texto fez referência direta a estes fatos.

Entendia que a assimilação, pelo Overmundo, de contribuições tão diversas quanto as que mencionei acima era a expressão de um opção por um conceito de cultura antropológico e etnográfico amplo e integrador. Enfim. Vocês estão mais preparados que eu para este tipo de reflexão. Mas acho que Thiago se precipitou. Em poucas horas meu texto recebeu, ainda na fila de edição, 5 ou 6 comentários muito positivos. Mas Thiago me mandou seu e-mail não em seu nome, mas em nome da comunidade, antecipando uma reação que ainda não se havia esboçado e dando-me como dica o recurso à lata de lixo e a reclusão ao geto daqueles que discutem segurança pública. Como se a violência que vivemos fosse um tema exclusivo de especialistas.

Tá certo. Aceitei a dica, mas só em parte. Não fui para o fórum Não acho que teriam apreciado meu texto. Provavelmente, o teriam considerado poético demais e me teriam aconselhado o Overmundo.

Acho que Thiago errou. O máximo que deveria ter me sugerido era de transferir meu texto para o Banco de Cultura, como uma pequena e modesta tentativa de prosa-poética que era. Ou os ensaios poéticos veiculados no Overmundo também devem se restringir a um leque de temas limitado e definido previamente?

Prá mim tá tudo certo. No bad feelings. (só um pouquinho...) Mas se alguém se animar a reagir eu agradeço. Nada melhor que uma boa troca de idéias para aproximas os mundos distantes.

 
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Thiago Camelo
Rio de Janeiro, RJ
18/6/2008 09:48

Olá jacques,
Obrigada pela colocação positiva. E concordamos totalmente com o que você diz: nada como uma troca de idéias para afinar as coisas.

Nesses dois anos e meio de site, aprendemos que a construção de um sistema editorial colaborativo é algo complicado e contínuo, dia após dia. Te escrevi com a melhor das intenções - com uma sugestão, uma proposta de conversa. E justamente neste espírito de conversa que, vendo toda a continuação dela, concordo que talvez a indicação ao Banco de Cultura, categoria não-ficção, pudesse ter sido a indicação primeira. Pedimos desculpas, então, por não ter aventado com esta possibilidade em primeiro lugar. A indicação do outro site foi também com a melhor das intenções, por acreditar sim que o texto tinha a ver e poderia iniciar uma discussão rica - mas repare que uso o verbo "acreditar", não é uma afirmação inconteste, é uma reflexão.

Por outro lado, essa questão do foco do site nas questões da produção cultural brasileira é assunto que é alvo de (boas) discussões por aqui, como você poderá ver em outros tópicos deste mesmo fórum. É tema rico, justamente por ser a definição de cultura de fato subjetiva. Mas acreditamos que existe um foco intuitivo dentro desta característica que chamamos de produção cultural, dentro de toda sua diversidade. Diversidade sim, mas dentro do foco proposto, onde não cabem, por exemplo, textos sobre a atuação da seleção brasileira contra o Paraguai (apesar de que futebol pode ser, sim, tema a ser explorado como reflexão cultural), textos sobre a indignação contra os supostos assassinos no caso Isabella ou sobre o que causa o aquecimento global... Um texto sobre os malefícios da carne vermelha estaria nesta lista, mas um texto sobre um documentário que trata desta questão pode estar perfeitamente dentro do contexto.

No fundo, tudo isso me faz pensar ainda mais que a ferramenta do Overmundo deve – e merece – ser multiplicada. São textos absolutamente legítimos e nos fazem pensar como seria importante ter 'overmundos' voltados para outros temas, outros debates... Estamos exatamente neste momento de reflexão (com a criação do Overmídia como software justamente pensado para potencializar isso).

Digo isso para mostrar que este espírito de construção coletiva é sempre complexo. A colaboração da comunidade nesta construção é imprescindível e por isso te agradeço mais uma vez a disposição para debater, com a calma e a tranqüilidade que a questão pede. Um forte abraço!

 
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Jacques
Rio de Janeiro, RJ
18/6/2008 15:48

Tua resposta muito me prestigia, Thiago. Me sinto privilegiado por você ter se dado esse trabalho.

O que me chama a atenção na tua postagem, é que você coloca o foco do site na "Produção Cultural Brasileira". Assim fazendo, você estabelece um eixo que viabiliza uma reflexão mais tranquila.

Entendo que vocês estão priorizando o debate sobre a "produção cultural" e não sobre a "cultura", como é vista no campo da antropologia. Tudo certo, isso não é um problema! É uma opção! O que está pegando é que esta opção não está suficientemente explícita. Se o Overmundo é para debate, divulgação, veiculação e trocas de produtos culturais, tudo certo. Mas é preciso deixar isso muito claro e tocar a buzina quando aparecer uma contribuição centrada na fotografia de um vendedor ambulante de frutas, por exemplo, ou de uma fusca sem rodas com uma vassoura encostada na porta. Para mim é claro que o camelô e o fusca também são cultura, mas não são exatamente o que eu entendo que vocês entendem por Produto Cultural. O conceito de produto pressupõe um mercado, um público, a crítica, os festivais, as escolas de formação, etc... etc..

Por outro lado, mesmo optando por uma definição mais clara e centrada explicitamente na Produção Cultural, permanece o problema de textos que podem versar sobre qualquer tema, mas trazem embutido alguma veleidade artística, poética ou ficcionista, ou seja, podem ser vistas como "produtos culturais". Uma coisa é um texto técnico sobre segurança pública. Outra coisa é um texto livre, que versa sobre um acontecimento violento, mas assume uma forma subjetiva e emocionada e procura uma qualidade literária, comunicativa, poética ou mesmo política que não seja cotidiana e busque despertar sentimentos, sensações, raivas; evocar sentidos, o que for.

Se eu estivesse atuando como gestor do Overmundo, evitaria me colocar na posição de quem deve decidir se um texto é cultura ou não é cultura. Tratando-se de um conceito dinâmico e subjetivo, fica difícil aplicar regras. O que vale agora, pode deixar de valer dentro de uma hora. O que vale para um autor, pode não valer para outro, dependendo de seu perfil e inserção social. Melhor deixar a própria comunidade resolver o problema.

Tudo bem. Mas é importante concluir que o que faz a diferença entre um texto-cultura e um texto-não-cultura, nunca será o tema do texto. Poderá ser seu conteúdo ou sua forma, mas não o tema. Daí, que se uma brasileira escrever um texto super bem trabalhado, sensível, rico e emocionado sobre alguns aspectos da cultura norte-americana, o tema não poderá ser incluído na categoria de "cultura brasileira", mas tratando-se de um texto de uma brasileira, que olha para a cultura norte-americana a partir de um prisma muito brasileiro, o texto certamente vai se encaixar muito bem no Overmundo e poderá ser visto como Produto Cultural Brasileiro.

Creio que estamos de acordo sobre isso. Daí que você me acena com a possibilidade de recolocar meu texto no Mercado. Obrigado. Nada estará nunca resolvido. Vamos conversando que a conversa é boa!

 
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Jacques
Rio de Janeiro, RJ
18/6/2008 16:01

PS.... Só para esclarecer. No que me toca, nada tenho contra colaborações como a do camelô e do fusca. Votei nas duas e comentei as duas. Além do mais, as fotos em si também podem ser vistas como produtos culturais, e poderiam ir para o Banco de Cultura, so que neste caso sem texto ou com um texto muito curtinho que interaja de forma criativa com a foto, agregando sentidos. Dito tudo isso, continuo a achar que na forma em que forma postadas, fora do Banco de Cultura, não se enquadram de forma harmoniosa em um site que deseja ter seu foco na Produção Cultural Brasileira, que pressupõe, como dito, um mercado, um público, a crítica, etc..etc...

 
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Ilhandarilha
Vitória, ES
18/6/2008 20:55

Que bela discussão aqui nesse fórum! O que é e o que não é cultura... Já vi muita discussão dessa por aqui, mas acho que em nenhuma os participantes foram tão fundamentados e educados quando nessa daqui. O certo é que, fundamentados ou não, é difícil estabelecer um consenso sobre o tema. O termo cultura é tão amplo, vasto e abarca tantos significados que quem poderá defini-lo?

Li seu texto, Jacques, e até comentei lá. Ele me tocou muito, mesmo. Achei sua reflexão / grito de muita sensibilidade. E, principalmente, achei que você escreveu bem demais sobre o assunto.

Quando comentei, pensei comigo que estava transgredindo a minha própria regra de não apoiar nenhuma colaboração que desvirtue a proposta original do overmundo que, ao contrário do que você diz no seu comentário anterior, está bem explicitada no terceiro parágrafo do texto sobre o overmundo. Mas transgredi minha regra e comentei lá, apoiando, assim, a publicação da sua colaboração. E fiz isso baseada em outro critério, que é o do que eu gosto e do que eu não gosto. E, por gostar do seu texto, apoiei e nem pensei em dar um toque sobre o local de publicação adequado para ele - que seria, sim, o banco de cultura.

Acho que seu texto é uma reflexão muito consciente, emocionada e poética sobre um tema árido e doloroso como a violência. Ok, aqui não é o lugar para se pensar a violência, né? Mas é o lugar para se publicar textos autorais sobre qualquer assunto - no banco de cultura. E depois, quem disse que a violência brasileira não é uma questão cultural? Ou que não se tornou uma questão cultural pela força da repetição, pelo massacre constante de más notícias na mídia, pelo medo que temos de andar nas ruas, o medo que temos do outro?

E dai que, para mim, o que difere seu texto de outros sobre o mesmo tema nos quais nem comentei, nem votei, é que o seu, do meu ponto de vista, é bom. E ser bom ou não, acho que vc concorda comigo, é um critério tão subjetivo que não merece ser critério, né mesmo? Se fosse, como cada qual acha bom uma coisa diferente, teríamos o overmundo abarrotado de textos indignados sobre todas as questões atuais do momento: da violência que nos assola ao mais novo escândalo do mundo das celebridades.

Mas, sendo coerente com o meu subjetivíssimo critério, acho que seu texto deveria voltar para o overmundo, sim. O banco de cultura seria o local mais apropriado, por ser mais um texto autoral (e, portanto, uma produção cultural sua). E nesse ponto concordo com o Thiago. Mas a discussão deve continuar... quem sabe saímos dela com uma definição mais bem delineada do que é e o que não é cultura?
Abraços!

 
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Jacques
Rio de Janeiro, RJ
20/6/2008 00:13

Eita Ilhandarilha Capixaba... Considerando que vieram da autora de Por você eu faria versos, só posso mesmo me sentir muito feliz com os comentários que você faz sobre meu texto.

Mas vamos ao que vamos. Apesar de delicado o tema, creio, sim, que podemos aprofundar um bocadinho mais a reflexão.
Vou arriscar umas pedradas ao léu, como quem não quer nada.

Já sabemos. Os novos paradigmas científicos excluem a possibilidade da objetividade e da precisão até mesmo na física quântica. Quanto mais na área da cultura. De saída, portanto, é aconselhável considerar despropositada qualquer tentativa de distanciamento entre o objeto observado e o observador. O simples ato da observação - dizem autores que tem os dois pés enterrados nas chamadas ciências exatas e estão hoje na vanguarda da epistemologia - interfere na realidade e a transforma. A única forma de ser científico, portanto, seria assumir a dimensão subjetiva da observação e aceitar a idéia de só conseguimos nos aproximar da realidade quando consideramos nossa emoção e compartilhamos nosso olhar com o olhar dos outros. Vale a pena ler e reler Maturana, entre outros.

Dito isso, percebo no Overmundo dois tipos de textos distintos:

(1) Aqueles que buscam a isenção, a objetividade e o distanciamento do objeto descrito/estudado.

(2) aqueles que assumem sua subjetividade, não desejam provar nada a ninguém, nem pretendem ser os portadores da razão. São textos portadores de conteúdos, sim, mas são aquilo que são e se bastam. Não passam, de alguma forma, da respiração de seus autores.

Na primeira categoria, eu incluiria os textos críticos, técnico/científicos, analíticos, os textos jornalísticos e os textos de opinião. Todos buscam a isenção, a objetividade e o distanciamento do objeto analisado. Todos pretendem, além disso, ser portadores de alguma forma de razão.

Na segunda categoria, eu incluiria todos os demais, ou seja, as diversas formas de ficção e a poesia. (Não entendo muito bem a categoria “não-ficção”, quando aparece no Banco de Cultura. Me parece que não cabe bem ali) .

E então? O Overblog fica então reservado para os primeiros. Os demais vão para o Banco.

Para chegar e ficar no Overblog, o postado deve necessariamente versar sobre a Produção Cultural Brasileira, de acordo com a opção feita pelo Overmundo. Para os demais (que vão para o Banco) considerando, como você bem diz Ilhandarilha, que gostar ou não gostar não pode ser critério, vai o que vier e receber o devido número de votos. Seja bom, ou seja ruim.

Será que isso faz sentido?
Inté!

 
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Jacques
Rio de Janeiro, RJ
20/6/2008 07:26

PS de novo...:

1. Acordei entendendo que os textos de não-ficção que iriam para o Banco seriam, justamente, as crônicas, ensaios, etc....

2. Essa história da impossibilidade da objetividade, a antropologia já sabia e praticava há muito tempo. O novo são os físicos perceberem que o que vale para a observação dos humanos, vale também para a observação das micro-partículas da matéria. O negócio está ficando mesmo interessante.

Nada como um dia depois do outro e uma noite no meio. Bom dia!

 
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Ilhandarilha
Vitória, ES
20/6/2008 09:09

Jacques, textos não ficção também podem ser monografias, teses, resenhas, críticas a obras de fora do país, etc.

abraços

 
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