“Dá conta de comer? Olha lá....” Precisei abrir este texto utilizando novamente a percepção de um morador de São Gabriel da Cachoeira sobre nós, visitantes. E foi com esta frase espontânea que a proprietária do Talismã Bar, Beatriz Carvalho, tentava me advertir sobre a minha real capacidade de comer o principal prato típico da cidade, com nuances de descrença, dada a principal característica da quiampira.
A ingênua aparência deste caldinho de peixe reserva ao cliente muito suor desde a primeira colherada, não é apenas pelo prato ser servido quente, mas quem prova pode despertar uma preocupação incomum se ainda sobrou alguma pimenta na face da Terra para ser usada em outro prato. “O índio gosta, e no dia-a-dia das comunidades você vê crianças de dois anos comendo e tomando o chibé em cima”, conta Beatriz, se referindo à bebida que mistura farinha regional e água. “Depois de sentir essa pimenta toda, beber o chibé refresca e satisfaz a pessoa”.
O pescado utilizado na quiampira em geral é o surubim, peixe de couro, sem escamas, em pequenos pedaços é cozido sobre um refogado onde se junta à generosa porção de pimenta malagueta. Beatriz conta ainda que a receita original leva mais dois ingredientes: um deles é a massa da fruta chamada japurá, que é colhida apenas depois que cai da árvore. “A fruta cai, o índio descasca, coloca de molho na água para fazer uma massa, depois enterra”. Após o tempo certo de fermentação, o ingrediente está pronto para ser utilizado na quiampira e outros pratos.
O outro ingrediente é o tucupi – extrato de mandioca cozido de paladar ácido - aditivado com um tipo de saúva torrada, mas que no momento estava em falta na cidade. “Não costumo colocar porque quem é de fora não gosta muito, reclama, mas se pedir eu ponho”, diz Beatriz, uma senhora simpática muito acessível a uma boa conversa e avessa a fotografias, descendente Kubeo - etnia colombiana do rio Mitu - e a maior referência na cidade para quem quer provar esta receita originariamente indígena que reforça a identidade de São Gabriel da Cachoeira.
Pode sossegar! As pimentas ainda existem e elas visitam outros pratos também. Hoje mesmo comi um pouco. hehehe
Adorei a frase melodramática para expressar sua cáustica experiência.
Bjim
não tem um aspecto muito convidativo, mas isso tb nao quer dizer nada!
Guilherme Mattoso · Niterói, RJ 4/6/2007 12:42
Jura?
Isso é uma visão apetitosa (digo, do caldo) aos nossos olhos.
É saboroso, mas pega fogo!
Preciso informar uma coisa: Hj a quiampira custa R$ 7 reais, e finalmente consegui provar com tucupi e saúvas!
Relato a experiência em breve num post.
as saúvas demoraram esse tempo todo pra engordar? heheh
Ilhandarilha · Vitória, ES 29/5/2009 17:37
Nada... é cada vez mais raro encontrar esse tucupi.
Bjos! rs
Aqui do Cerrado com a boca cheia e apetite aguçado...
Bom deguste. Saúde e Paz. jbconrado.
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