ArteCouro – Bolsas, sapatos, carteiras e filosofias

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Carolina Morena Vilar · João Pessoa, PB
10/8/2007 · 81 · 1
 

Estava indo viajar e a borrachinha de baixo da minha sandália soltou. Eu andava e fazia um poc-poc terrível, mas já estava na rodoviária e não tinha onde resolver meu problema, já que o ônibus saia em pouco menos de meia hora.

Quando já pensava em outra coisa e distribuía meus pocs-pocs pelos corredores da rodoviária atrás de uma revista pra ler durante a viagem, dou de cara com uma barraquinha escrita “ArteCouro”, com um monte de artefatos produzidos artesanalmente pelo Valdecir, um sujeito com cerca de 55 anos, cabelos grisalhos e um bigode bem caricato. Será que ele resolveria meu problema?

Entrei e seu Valdecir disse que resolveria, alí ele só não dava jeito num morto, e foi logo tirando uma bolsa e contando a primeira das muitas histórias que eu ouviria naquela meia-hora: “Essa bolsa de couro toda acabada que você está vendo aqui, por exemplo. Ela é de um amigo meu, que disse que ia jogar no lixo. Ela tem mais de 10 anos, mas eu vou fazer uma surpresa pra ele e entregá-la novinha. Tirar pedaço dessa alça, fazer um bolso aqui pra tapar esse buraco... E assim vai”. Acho que minha sandália estava em boas mãos.

Enquanto ele analisava o estrago feito no meu calçado, contou mil coisas: Desde como fazia suas ferramentas até seus tempos em que freqüentava a Universidade Federal e o departamento de artes, das mil calouradas insanas e seus “devaneios de juventude”.

Foi contando e martelando. Em cerca de 15 minutos eu sabia de quase toda a vida dele, além de ter meu problema resolvido. “Posso fazer umas fotos aqui do lugar, seu Valdecir?” “Claro! Você é jornalista é?”. E perguntou tudo da minha vida. Na hora de sair e pegar meu ônibus, eu já tinha um melhor amigo em meia-hora, coisa incrível.

Na lojinha do seu Valdecir você encontra quase tudo que o couro pode fazer: Bolsas, sandálias, botinas, carteiras, bonés, pastas e até capas de caderno! O material produzido por ele não é exatamente um primor de qualidade e acabamento, mas vale pelas conversas e risadas.

onde fica
Rodoviária central, primeiro andar.
por que ir
Seu Valdecir é figura. Criatura do tipo concorrente a “lenda urbana do ano”, cheio de conversas, histórias e filosofias. Adora ler Augusto dos Anjos e criou até um mecanismo que permite costurar suas peças de couro e ler. Algo como uma mesinha inclinada, onde dá pra colocar um livro sem precisar usar as mãos para segurar.
quando ir
Semanalmente, em horário comercial
quem vai
Viajantes, passantes, curiosos e os amigos cativados por seu Valdecir.
quanto custa
O Danado do seu Valdecir não queria cobrar pelo serviço que fez na minha sandália, disse que foi de coração e gostou de mim. Eu disse que ninguém vai pagar as contas dele com o coração e lhe dei cinco reais.

As bolsas, sapatos e derivados variam entre R$10,00 e R$50,00. O preço é bom.

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canal aberto
 

Que legal ler isso! Parabéns pela abordagem!

canal aberto · São Paulo, SP 10/8/2007 10:52
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