Visitar a casa de Neusso Ribeiro é fazer uma viagem para um plano paralelo da existência. A Casa de Pedra, como ficou conhecida por aqui, está em permanente processo de construção pelo artista auto-didata, que utiliza o material que a natureza oferece e alguns restos da indústria humana. Neusso gosta de dizer que a sua arte é vida após morte. E é: a madeira que ele utiliza na casa e nas obras que produz são o que restou da exuberante mata atlântica do estado, dizimada por queimadas. O que Neusso faz é transformar esses troncos e pedaços de pau queimados, sofridos, em esculturas, móveis e matéria prima para as casas que constrói.
A casa de Neusso vive de portas abertas para quem quiser apreciar sua criatividade. Mesmo quando o dono não está, podemos entrar, ver, tocar e admirar a sua inventividade que se manifesta em todos os detalhes. O piso é formado por mosaicos de cerâmicas quebradas, pára-brisas de carros batidos e as pedras que ele encontra no caminho. Tudo é feito por sua própria mão e criatividade. Não há cópia. Na porta de entrada algumas informações sobre o artista e uma pequena urna para colaborações: quem quiser pode deixar ali alguma quantia em dinheiro para o artista. Neusso parece não ter medo de ladrões.
Hoje o artista não mora mais na Casa de Pedra. Construiu a poucos metros outra casa, seguindo os mesmos padrões da primeira, para ter um pouco mais de privacidade. Mas continua mantendo ali seu atelier e oficina, que se expandiu para o outro lado da rua. É preciso muito espaço para a criatividade de Neusso.
De espírito zen e totalmente desprendido dos apelos do consumo, Neusso não faz questão de ter em casa televisão, computador, e outros ícones da modernidade. A luz elétrica só chega para ligar o som, porque a música é gênero de primeira necessidade. Sua arte e sua casa atraíram para a rua outros artistas e artesãos: hoje a rua abriga quase um complexo de pessoas que procuram viver a vida com o essencial, ganhando o sustento de sua arte. É o caso de Didá, que construiu bem ao lado da casa de Neusso seu espaço Ecoternura, onde mora, trabalha e comercializa suas peças. E de Denize, artesã de conchas, palhas e caixinhas decoradas. Aos poucos outros artistas vão chegando. E o alto da ladeira Nossa Senhora de Lourdes vai se transformando num grande atelier ao ar livre.
Veja mais imagens da Casa de Pedra.
Como parece o Gaudí!
Thiago Camelo · Rio de Janeiro, RJ 13/7/2009 12:55
claro que não é a mesma coisa, mas lembrei de uma experiência que houve no CEFET de Fortaleza: uma lojinha de picolé sem ninguém tomando conta - todo mundo podia pegar o que queria e havia uma caixinha para deixar o dinheiro - isso gerou uma debate ético incrível e muito útil no colégio - o interessante foi que outro dia descobri que uma experiência semelhante está acontecendo na Indonésia: a dos "cafés da honestidade" - bom saber que as pessoas podem ser honestas e colaborativas mesmo quando não são vigiadas...
Na linha do que vc falou, Hermano, veja só esta colaboração do Viktor Chagas. Um monte de doce e ninguém toma conta.
Thiago Camelo · Rio de Janeiro, RJ 14/7/2009 09:36
Interessante que um guia possa ser base de discussões como essa. Isso, de alguma maneira, me lembra que quando disponibilizamos textos, fotos, música, etc no overmundo ou em outro site com licença CC estamos dando um voto de confiança em quem vê, ouve ou lê nossa colaboração. Esperamos que nosso trabalho seja utilizado para o bem, e com o devido crédito de autoria. É mais ou menos o que o Neusso faz com suas obras e sua casa. Numa entrevista antiga ele declarou que não se preocupa com a possibilidade de que alguém roube uma obra sua, pois a sua obra só tem valor para quem dá a ela o devido valor, incluindo ai a autoria. Bacana, não?
Sobre as experiências que Hermano e Thiago lembram, é muito bom saber que a gente ainda pode confiar nas pessoas. Isso faz a gente respirar mais tranquilamente, né?
Que bárbaro. Pra isso este é o artista pleno, aquele que faz da arte parte do seu dia a dia e quer que ela faça parte da rotina das outras pessoas também. A casa parece muito bonita. E, tal como os comentaristas acima, sou encantada com essas experiências abertas, em que a confiança é a base. Há várias aqui no Rio que admiro. Abraços
Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 15/7/2009 10:03Ô Cláudia, o alto da ladeira Nossa Senhora de Lourdes vai se transformando num grande centro de artesanato, arte, cultura e gentileza. Bela matéria e sorte a nossa poder ir lá em minutos.
Ana Murta · Vitória, ES 15/7/2009 12:55
Magnífico saber que nestes dias confusos da modernidade(?), ainda encontramos pessoas desprendidas das garras do consumismo e que nos brindam coma essência de sua Arte.
Abraços e Paz na Terra. jbconrado.
E eu ainda não fui lá, acredita? Preciso viver isso.
Bjos!
"Magnífico saber que nestes dias confusos da modernidade(?), ainda encontramos pessoas desprendidas das garras do consumismo e que nos brindam coma essência de sua Arte."
Perfeito Ayruman.
Cláudia, mais um belo trabalho...
Lindas fotos!
O ES é pequenino mas mágico!
Abraços,
Ana e Lauro.
O Neusso e o seu neo-uso para as coisas é destes artistas que fazem a gente acreditar que Deus existe (mesmo que ele não exista). É meio assim como o Gabriel Joaquim dos Santos que fez a incrível Casa Flor de São Pedro da Aldeia, RJ ou mesmo o Arthur Bispo do Rosário (se bem que o Bispo tinha o barato da loucura para lhe inspirar e o Neusso - assim tão são - não (pelo menos como nos parece). Santa sanidade de pura doidice é o que estes caras têm.
É dando que se dá.
E só pode dar quem tenha o que doar.
E se dá sem saber a quem e o faz por amor e doação a tantos quantos da arte e da vida queiram fazer parte...
Isso nos emociona.
Isso nos inspira, repõe a humanidade no mundo,
porque é a inteligência que cria...
e o mundo natural assim do bem se amplia.
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