A fita métrica acusa 1,38m de altura. As pálpebras cansadas não diminuem a vivacidade dos olhos verdes e miúdos. O cabelo sem fios brancos à mostra e bem penteado é um dos poucos sinais de vaidade feminina. A fala é baixa, em tom de confidência, mas flui num ritmo que quase não dá brechas para a participação do interlocutor. Aos poucos, D. Dica deixa de lado o bordado na toalha de mesa confeccionada em patchouli e vai traçando uma história que já soma 86 anos.
A artesã, modista e estilista Dica Frazão é uma personalidade de Santarém. O casarão antigo onde mora há 62 anos, a 100 metros do Rio Tapajós, é um dos pontos turísticos da cidade no Oeste do Pará. Lá funcionam seu ateliê e museu particular, aberto em 1999. "Quantas pessoas têm o privilégio de ter um museu que leva o seu nome, ainda em vida?", diz, sem disfarçar o orgulho.
Nascida Raimunda Rodrigues, em Capanema (PA), a estilista conta que suas criações já ganharam o mundo - peças suas foram presenteadas à rainha Fabíola, da Bélgica, ao Papa João Paulo II, a Juscelino Kubitschek.
O que faz de seu trabalho algo tão especial é a matéria-prima com que cria suas peças. São entrecascas de uma árvore misteriosa, cujo segredo é mantido a sete tacapes pelos índios Mundurucus, fornecedores do produto; fibras extraídas do capim canarana; palha de buriti; sementes e raízes da Amazônia.
Difícil é distinguir o que é museu, ateliê ou casa no endereço de Dica. Apesar da placa à entrada do número 281 da Rua Floriano Peixoto, a sensação que se tem ao transpor o batente é a de invasão de privacidade. No interior, três portas. À direita, fica o museu. À esquerda, o ateliê. Em frente, a cozinha. "Minha casa toda já é um museu."
A entrada é franca e o horário de funcionamento, flexível. Às 6h30, a artesã abre a porta do casarão e só volta a fechá-la doze horas depois. Antes, por volta das 5h, já está molhando as plantas no quintal e cuidando de seus 150 patos e 20 gansos. "Eles fornecem penas e plumas como os carneiros fornecem lã. Você tira e depois nasce de novo".
Ao contrário da maioria das personalidades atuais, Dica não tem relações públicas. Mas se “vende” como ninguém. No meio da conversa, lista as pessoas que viajaram a Santarém só para conhecê-la, como a estilista Jussara Lee, paulista radicada em Nova York há mais de 20 anos. "Claro que fiquei encantada com o seu trabalho. Dona Dica faz de fibras rústicas e não valorizadas um trabalho tão fino", diz Jussara.
Filha mais velha de um agricultor e uma dona-de-casa, Dica estudou só até a 4ª série e ficou órfã de mãe aos 12 anos de idade. Dois anos depois, seu pai saiu de casa dizendo que voltaria em três dias e sumiu. De herança, deixou uma nota de 20 mil réis e os sete filhos mais novos para Dica criar. "Só não fui menina de rua porque Deus me deu forças".
Como chefe de família, assumiu uma jornada dupla de trabalho. Durante o dia, trabalhava na roça. À noite, costurava. Em 1943, já casada, mudou-se para Santarém. Na cidade, a fama da modista se consolidou. Mas só em 1º de janeiro de 1949, criou sua primeira peça artesanal: um leque de penas de pássaros.
Ao lado do atual marido, Pedro Vítor, seu único ajudante no ateliê, Dica planeja dar um tempo na máquina de costura em 2007. Nada de férias – o que nunca tirou na vida. Quer dedicar-se a sua autobiografia e contar histórias como a do reencontro com Manoel Franklin, seu pai, após 39 anos. Na época, ele estava doente, jogado num garimpo distante.
Dica foi ao seu encontro e então descobriu que ele havia largado os filhos para ficar com uma vizinha de 16 anos. Depois de criar sete irmãos e sete filhos, Dica "adotou" o pai. Com tantas histórias, não dá mesmo para medir a estatura de Dica Frazão com uma simples fita métrica.
Nao alteraria nada, esta perfeita. Me senti visitando Dica Frazao.
Alice Botteon · Salvador, BA 9/12/2006 13:27
Valeu, Alice e Sintética. Obrigada e beijos.
Tetê Oliveira · Nova Iguaçu, RJ 27/4/2007 23:17Temos texto novo na nossa página. Dá uma olhada. Beijo!
Revista Sintética · Osasco, SP 29/4/2007 21:28
Que coisa, meu Deus!
Tetê,
Que bom que conhece mais do que eu a cultura artística da minha Santarém do Coração. Terra de muita cultura, quer em pintura, em criações artezanais, quer em cultura literária.
Em Santarém, nasceram o violonista Sebastião Tapajós e o Maestro Izoca.
Seu tema: Dona Dica - conhecida de meu falecido Pai -, é um bobelô raríssimo que resiste ao tempo. Rejuvenesce-se com o trabalho que tanto ama fazer. Graças, né!
Seus dotes artísticos atravessam tempos (invade Países) e esnoba do abismados olhos de quem os vê.
Parabéns pelo trabalho, Tetê!
A melhor que já li sobre esta fantástica mocoronga.
Bjs. Benny.
Tetê, uma sugestão:
Publique-a novamente esta maginífica reportagem.
Ela merece estar aqui em definitivo.
Bjs.
Obrigada, Benny! Dona Zica foi uma das muitas pessoas especiais que conheci na minha viagem por terras amazônicas. E que história de vida!
Foi ótimo ir até lá e ser sua ouvinte. Uma oportunidade rara de ouvir e aprender sobre coisas simples e tão importantes da vida.
Abraço.
Mas ela está em definitivo, só que na seção Guia. Foi minha primeira colaboração apra o Overmundo, e não sabia ainda ao certo se poderia publicá-la no Overblog. E por isso tive de reduzir o texto original (afinal foram horas ouvindo dona Zica!). Também não sabia como publicar fotos e acabei perdendo a chance de fazê-lo no período de edição.
Aliás, talvez eu tente resgatar alguma foto dela para publicar no Banco de Cultura, com link pra esse texto. Uma idéia! :-)
Valeu!
Que maravilha! Benny me apresentou ao teu trabalho aqui, ele é incrível! Histórias como essas merecem ser conhecidas por todos! Povo brasileiro e seus encantos! Adorei conhecer Dona Dica!
Flores e beijos pra voce, Tetê!
Número 281 da Rua Floriano Peixoto
eis um título para um belo poema de vida.
Tetê, o Benny me alertou, vim ver, vi, e adorei.
Melhor Dica (literalmente) não tinha.
É desse Brasil, sem Z, que eu gosto.
Que o segredo dos índio permaneça em segredo,
e Dona Dica tire suas merecidas férias.
Tomara que algum dos seus filhos herde essa tradição.
Tetê, muito mesmo!
bjs
Adriana, Humberto e Mansur, muito obrigada!
Humberto, D. Dica é um verdadeiro poema, né? Se ela inspirá-lo a uma nova criação, me avise, por favor.
Abraços.
- Tête, já deixei duas falas no texto de face, mas não me canso, e falaria tanto se mais soubesse:
- Este é o inicio do início da construção do Brasil e começa pela fonte da origem da vida - pela mulher, pelo ventre - não podia ser diferente. Ações de homens - (e prostituição infantil, secular, 500 anos), não pode se chamar isto de História.
- E o Brasil começa começando também uma nova Era, da mulher que faz: Dona Dica; da mulher que encanta - Clementina de Jesus, Cora Coralina; da mulher que Ora - Mãe menininha do Cantoir; da mulher que tempera - Dona Zica da Mangueira.
- 500 anos e ainda se contam nos dedos... mas, um abraço, Tetê
Tetê, nem precisou de foto! Vi tudinho da Dica e de seu trabalho pelo seu texto. Bela Dica. heheh.
Ilhandarilha · Vitória, ES 22/8/2007 17:30
mas como têm talentos esse Pará...
bjs, Tetê
Pessego, concordo com vc! É difícil não se apaixonar pela dona Dica e sua história. Ela é uma grande mulher, sem dúvida!
Ilha, essa foi a idéia: descrevê-la ao máximo pra que vcs pudessem vê-la através do meu relato. Mas fico feliz de ter conseguido publicar a foto, mesmo meses depois, porque afinal isso permitiu que vcs descobrissem dona Dica também, né?
O Pará tem muita gente boa e cheia de histórias pra contar, Cris. Aliás, esse nosso Brasil é cheio de personagens riquíssimos. E, vez ou outra, conhecemos alguns através de textos de overmanos e overminas de todo o país. Isso é muito bom!
Beijos a todos.
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