Só depois de muito tempo pensando a respeito dos telhados das casas em estilo enxaimel, descobri o porquê de seus telhados pontiagudos. A agudez dos telhados tem uma explicação bem simples: um telhado normal não suportaria o peso da neve e acabaria destruindo a casa que está por baixo do telhado. Assim, a neve escoa ou fica mais fácil de ser puxada para baixo. Peraí! Mas não neva no Vale do Itajaí. Pois bem, vejamos do que se trata esse estilo arquitetônico.
Enxaimel é um método de construção muito antigo — sabe-se que os etruscos já se utilizavam da técnica 1000 anos antes de Cristo — que chegou a Santa Catarina com os imigrantes alemães no século XIX. Consiste em construir as bases da casa com grandes toras de madeira que são todas encaixadas. Depois, preenche-se os espaços vazios com tijolos à vista ou estuque, uma mistura de barro, areia e folhas de palmito, que dão consistência necessária à mistura.
É bem verdade que nem todas as construções em estilo enxaimel presentes no Vale do Itajaí remontam ao século XIX. Tendo o turismo como um grande auxiliar nas receitas públicas, a partir dos anos de 1970, por exemplo, Blumenau passou a apoiar a construção de prédios em enxaimel: quem construísse um desses no centro da cidade não pagaria IPTU. O mesmo acontece com outros municípios do Vale que observaram que a arquitetura chamava a atenção dos turistas e resolveram apostar no valor turístico de tais construções.
O valor da presença das construções em enxaimel no Vale do Itajaí é enorme. Essas construções têm uma grande importância histórica, pois mostra como os imigrantes europeus conseguiam se adaptar às dificuldades impostas pelas regiões inóspitas que habitavam – adaptação, aliás, é uma palavra que os imigrantes deviam conhecer muito bem. Há ainda a importância arquitetônica: apesar de ser marca registrada dos prédios públicos da região, o enxaimel já é superado através de suas releituras e das referências que adquiriu.
E ainda é um estilo que consegue chamar a atenção das pessoas, justamente por sua beleza exótica — que faz muita gente jurar que está passeando por alguma rua da Alemanha.
Que casas lindas! A paisagem em volta parece legal tb.
Ilhandarilha · Vitória, ES 19/7/2007 21:17Sim, Ilha, um doce bucolismo paira em torno dessas construções mui antigas e mui belas. Obrigado pela passagem por aqui. Grande abraço!
Labes, Marcelo · Blumenau, SC 20/7/2007 01:48Que interessante tudo isso, Labes. Genial construirem assim para atrair mais turistas. Se todas as estratégias para buscar turismo fossem bonitas assim, as cidades seriam mais vaidosas (no bom sentido).
Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 21/7/2007 12:04
Estive na sua cidade por 2 ocasiões e gostei bastante, Labes!
Engraçado que sempre considerei o "Castelinho" como construção "enxaimel" e ouvi dizer também que ele representa a arquitetura "enxaimel". Agora depois de ler o seu texto, estive pesquisando e encontrando sites que dizem que ele é "enxaimel" e outros dizendo que ele é baseado no "enxaimel".
Nele faltam os "tijolinhos" 'a mostra, né? Daí, já imagino que fuja um pouco ao estilo em sua origem. O quê você acha?!
Ah! De toda forma, as construções por aí são bem bonitas.
Na verdade, Apple, o enxaimel pode ter reboco, que é o que esconde os tijolinho - ou mesmo pode ser sem tijolinhos e ser de estuque mesmo (barro e fibras vegetais). O que aconteceu a partir dos anos de 1970 foi que o prédio que fosse construído no estilo enxaimel (o que não quer necessariamente dizer em enxaimel de verdade) receberia desconto no IPTU.
Costumou-se chamar enxaimel toda a construção com as armações de madeira expostas (que são abundantes por aqui), mas é verdade que uma boa parte dessas madeiras foi colocada após a construção do prédio, como enfeite.
E é o que digo aqui: "apesar de ser marca registrada dos prédios públicos da região, o enxaimel já é superado através de suas releituras e das referências que adquiriu." Se conseguir, mando uma foto de uma agência do Banco Itaú que, a meu ver, já é paródia do enxaimel: com o tempo, os arquitetos foram cansando da parede-branca-e-armação-de-madeira e foram reinventando o estilo. Mas, sim, pode se considerar tudo isso enxaimel.
Labes:
Se me permite um palpite, talvez se possa chamar de enxaimel estilizado.
Aqui no Vale dos Sinos (N. Hamburgo, S. Leopoldo, Campo Bom, Três Coroas, etc.), na Grande Porto Alegre, assim como em Gramado e outras cidades do interior, de colonização alemã, ainda se encontra muitos exemplos da arquitetura enxaimel.
Um abraço.
Sim, Levi... o enxaimel como referência, não como "necessidade arquitetônica", por assim dizer.
:)
Abraço.
Gente, aqui em Agudo tem um prédio abandonado, antigo salão no interior, que é enxaimel com madeira e pedras, sim pedras de areis esculpidas em forma retangular. Pena que ninguém se interessa em preservar. Um detalhe deste tipo de casa: como o telhado é desenhado pra suportar a neve, não tem calha em parte alguma!
Paulo Berger · Agudo, RS 11/7/2011 21:20
Labes, parabéns pelo texto, muito interessante sempre estudar as construções históricas, nesse caso em especial o enxaimel. Só gostaria de fazer algumas observações para que não hajam equívocos em alguns termos que li no texto: primeiramente, o enxaimel não é um estilo, ou seja, não é um movimento de arte, muito menos um modo de decoração, mas uma técnica construtiva, assim como existe por exemplo um edifício construído em concreto armado pré-moldado, são técnicas construtivas. Outra coisa, o que se tem feito nas cidades para fomentar o turismo nas últimas décadas não é legitimado como enxaimel, isso é um falso enxaimel, eu chamo inclusive de enxaimoso, pois ele esconde totalmente o que é de verdadeiro no enxaimel, a técnica construtiva, sem falar de que os enxaimosos feitos para fins turísticos de nada tem a ver com o enxaimel da região, visto que a maioria foi concebido em zonas rurais e quase sempre com tijolos maciços aparentes, ou estuque em alguns casos, como você citou. Mas de maneira alguma se pode chamá-los de enxaimel, inclusive essas construções tem sido amplamente alvos de crítica de órgãos de patrimônio histórico e vão contra a preservação de patrimônio histórico material defendida por instituições e profissionais internacionais, como se pode ler em muitas cartas oficiais de patrimônio escritas durante o século XX. Porém acho que o princípio de fomentar o assunto do enxaimel é muito interessante, sempre bem-vindo, só deixando é claro essas observações, mas muitos parabéns pela dedicação ao tema. Abraços!
Aproveito para deixar aqui um pequeno texto crítico sobre os enxaimosos:
http://arquisofia.blogspot.com/2009/12/enxaimoso-o-enxaimel-mentiroso.html
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