Em época de chuva, só chega lá de barco. Melhor ainda! Troca-se o caminho das pedras pelo deslizar das águas do Velho Chico. No porto de Pão de Açúcar estão lá: Taití, Penedo e tantos outros nomes estacionados. Parece uma salinha de espera com janelas por toda parte. O motor é antigo e a zoada, só no começo incomoda. No resto do tempo, nem faz diferença. A velocidade é de 6km/h. Também não importa. Devagar, bem de mansinho, a paisagem vai se transformando em sua frente. Cada metro navegado, um quadro, uma fotografia, uma cena de cinema se apresenta no passeio. Estamos indo para a Ilha do Ferro, povoado de Pão de Açúcar, alto sertão alagoano. Terra quente. Dependendo do espírito empírico, vale um mergulho. Mas a água não deve ser limpa. Como muitos lugares deste Brasil, saneamento ainda falta no lugarejo. Vamos em frente... Na beira do rio, o cotidiano ribeirinho te leva para as páginas do passado. Como é grande a quantidade de mulheres a bater roupa nas rochas. A criançada não sabe o que é tráfico, nem tiroteio. Sabe mesmo onde são os melhores pontos, as partes mais fundas para se jogar na água. A moldura disso tudo são exuberantes exemplares da caatinga. Dá para ver a mata fechada. Tanto mandacaru! Você pode viajar na proa. Eu, na verdade, só saí dela quando fui expulsa pelo calor. Da proa, a visão é perfeita! De um lado, Sergipe. Do outro, Alagoas. E a gente rasgando o meio, rumo a um fantástico povoado. Se fechar os olhos, a travessia ganha música. São os pássaros. Não é raro assistir a garças brincando entre canoas movidas a vela! Uma hora e meia de devaneios sob o rio São Francisco, avista-se a Ilha do Ferro. Na verdade, não é uma ilha propriamente dita. Dizem que ganhou este nome por causa de um grande banco de areia que mais parecia um ferro de passar roupas. O barco atraca e a primeira visão é de uma casa com varanda, cheia de mulheres. Todas estão sentadas. Nas mãos, linha e agulha. Elas bordam o ponto "Boa Noite" na associação criada há cerca de 10 anos. Toalhas de mesa, lençóis, blusas. As peças são minuciosamente traçadas e feitas sob encomenda. Saem de lá e seguem para o sudeste do País e Europa, na maioria das vezes. É uma tradição de décadas. Há mais de cinqüenta anos, o bordado ocupava as mulheres enquanto os homens se encarregavam dos tamancos de madeira. A Ilha era um pólo importante de fabricação. Talvez por isso, no sangue daquele povo, o talento pulsa com força até hoje. a madeira continuou inspirando. É só perguntar onde mora "seu" Fernando, 77 anos. Artesão fantástico, ele é analfabeto, e é autor de um livro muito curioso. Comecei a ler e não queria mais parar. Seu Fernando cresceu na Ilha e organizou na memória uma impressionante coleção de contos que diz serem verídicos. Histórias de caças hilariantes, testemunhos sobre Lampião, conversas salvas de pescarias inigualáveis. Coisas que não existem mais. Ele "para não morrer e enterrar os causos", ditou tudo para jovens que contratou. Está tudo escrito e é, na minha humilde opinião, uma relíquia. O livro é inédito! E seu Fernando não é só escritor. É também escultor. Essa é a outra parte boa da aventura. Suas esculturas são de bichos alucinantes. Só ele sabe de onde vieram. Seu Fernando pega um tronco retorcido, um galho de madeira, e observa. Ele aposta que o formato é de um pássaro, de um dinossauro, de uma besta, de uma Eula, um Trezeguê, um Come Gente. Êpa! Que loucura é essa? Pois é, ele inventa o bicho e batiza! E o resultado é inacreditável! Só vendo. Já foram expostas em Paris e nos melhores museus de Arte Popular do Brasil. Ele cria também mobília. São bancos e mesas feitas com casca de craibeira, troncos de imburana ou mulungu. Meus caracteres estão acabando, então, finalizando. Vá até a Ilha do Ferro e descubra um lugar onde a arte ferve.
Olha, talvez essa seja a dica mais legal de ler que já encontrei aqui no Overmundo. Fiquei morrendo de vontade de repetir o passeio do jeito que está descrito e chegar na Ilha do Ferro.
ronaldo lemos · Rio de Janeiro, RJ 12/8/2006 00:38
Foi difícil achar você aqui, viu, Carlinha? pensei que a contribuição estava no overblog. Realmente uma dica fantástica, que a maneira como você escreve (você sabe que sou fã das suas escrivinhações) torna ainda mais irresistível.
Não conheço a Ilha do Ferro, mas lê-la aqui é quase me transportar visualmente para lá! Parabéns!
Merecia mesmo estar no Overblog... uma hora dessas vou me aventurar por lá! Muito bom!
Marcelo Rangel · Aracaju, SE 14/8/2006 09:09Que delícia isso, minha gente! Prazer receber um feed back, né? Agradeço os comentários! Tati, você é suspeita por que também adoro seus escritos! e Ronaldo e Marcelo, valeu a força! Dá vontade de escrever mais... fiquei entusiasmada! Que bom...
Carla Chinaski · Maceió, AL 14/8/2006 20:09
Que delícia de texto...fiquei até triste quando acabou! E que lugar é esse? Muito boa dica!!! Agora...ô pecado não colocar nenhuma fotinha...pode ser pequenininha...
:o)
É verdade, Rolando... este é o texto mais legal que eu já lí no Guia Overmundo. Tão legal, que deveria mesmo estar no Overblog, com direito a fotos e lugar de destaque lá nas arribeiras da página principal!
Continue seu bom trabalho, Carla. Seu texto é delicioso. E mesmo eu, que sou meio avesso a sol e sal e nordeste, fiquei tentando a conhecer o lugar.
Rolando? eita... Era Ronaldo... Invertí as letras. :)
(escreveu não leu, o nome do Ronaldo errou)
Esse Duende... :)
e o livro do "seu" Fernando? será que ele se anima de publicar aqui no Overmundo?
Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 18/8/2006 13:57
Olá, Hermano!
Olha, "seu" Fernando guarda que nem ouro o livro dele. Ele contou que um dia o emprestou a um pesquisador, ou algo do tipo, e o tal ficou com os escritos por cerca de seis meses. A partir daí ele tem o maior critério em vê-lo ir. Para ter idéia. Nessa viagem que fiz e virou dica aqui no overmundo, eu copiei alguns contos do livro, que na verdade é um caderno de 12 matérias. Ele ficou meio cabreiro... mas não reclamou. Ele é uma figura! Tem o maior orgulho do livro. Se quiserem, posso trazer algumas histórias dele e colocar aqui! Valeu.
Carla, por favor traga as histórias dele!! (isto é, se não for deixar ele ainda mais cabreiro)
ronaldo lemos · Rio de Janeiro, RJ 18/8/2006 17:43
Trouxe as histórias! Quero lembrar que Fernando Rodrigues é um homem do mato, cresceu vendo as tradicionais e extintas vaquejadas nas quais os vaqueiros se rasgavam embrenhando-se na caatinga fechada. Ele é analfabeto e os escritos ele ditou para jovens da Ilha do Ferro escrever em seu precioso caderno. Parece folclore... eu acho que é! Vejam vocês:
“Em 1954, eu trabalhava mais o veio Davino. Eles tinham espingarda e no morro do Japão* tinha muito mocó. Um dia, de tardezinha, eu saí me arrastando, deitado pelo chão. Eu dei um tiro num, que ele virou a perna. Quando cheguei lá, tinha uma jibóia com ele engolindo. Aí eu disse: ei, psiu, sorte, quem matou fui eu. Botei no bornar e trouxe para casa, a veia Adélia fez uma panelada. Nois comemos e pronto” – do livro inédito.
“Na era de 63 existia cinco pescador com a rede de arraste. Pescava todo dia e toda hora, de noite e de dia. Quando foi uma ocasião, nós fomos numa pescada na proa da Quixaba. Pesquemo até doze horas, enchemos as cestas e fomo quebrar a cabeça de sono. Na boca do Riacho Grande, deitemos na proa. Era tempo da pilombeta. Nós num podemos drumi com os surubins e o camurupi dando estoro... só noite de São João na manjuba da pilombeta.
Veja bem, meus amigos! Isto aí era no tempo que o rio era de Nosso Senhor. Vou contar uma história que se deu de outubro para novembro no reporto do rio. Subia um cardume de peixe, dum lado e do outro, que pra se comer e vender não precisava pescar, era preto, preto, preto o rio...” – do livro inédito.
“Em 1937, nós corremos do Japão, com medo dos soldados e dos bandidos, e o coronel era Lampião. Vou contar o que havia nesta região. Tinha muito gado e muito mais tinha criação. Muito pato, marreco, asa-branca e mergulhão. Tinha muita peba, tatu, tuié e camaleão. Caboré, mãe-da-lua e curujão. A sede desses bichinhos era a lagoa da Conceição” – do livro inédito.
“Eu quero fazer é o esqueleto do fogo-corredor, daquela época que não tinha energia no Sertão. De vez em quando o camarada via eles brincando, dois, três, que a faísca cobria o mundo” – do filme Desvirando Bicho, de Celso Brandão.
“Deus é bom, a mãe dele é uma graça. Água na flor e flor no cacho. Luís Inácio, lá em seu palácio, querendo que o São Francisco corra para cima, mas ele só corre para baixo” - de uma de suas esculturas.
* Japão era o nome de uma fazenda da região.
Massa a viagem e as histórias, boa dica Carla.
A craibeira, árvore que seu Fernando utiliza pra fazer os móveis, é a ávore simbolo do estado de Alagoas, e ocorre nessa região do sertão.
Abraços
Carla, por que vc não posta as histórias também no Overblog, inclusive contextualizando tudo? Acho que vai ter muuuuuuita gente interessada em ler!
ronaldo lemos · Rio de Janeiro, RJ 18/8/2006 22:07
bom deixar claro que essa Carla que escreveu a dica é também (aliás é a mesma) Carla Serqueira, que escreveu a dica "Que gosto Alagoas tem?" s e alguns textos do banco de cultura, que não coloco o link porque ainda estão na fila de edição. Só não entendi o porquê de fazer outro perfil, Carla. O que aconteceu???
Tati Magalhães · Maceió, AL 17/9/2006 17:17
Oi Carla Chinaski!!!! sabe onde está a Carla Cerqueira? beijos para ambas.Mande mais histórias de do Sr. Fernando. Seu texto é uma delícia!
Evelina
Oi Carla, somos daqui de Maceió e conhecemos muito seu Fernando! Uma figura! Tenho uma galeria de Arte aqui na cidade e comercializamos e representamos as obras do Seu Fernando no Estado. Nós mandamos uma cadeira feita pelo artista para uma exposição importante no Museu da Casa Brasileira - A história do Sentar.
Maria Amelia · Maceió, AL 24/1/2007 13:59
Gosto tanto de viajar mas ainda nao conheci a Ilha do Ferro.
Boa dica. Espero colaborar com a divulgação assim que visitar o lugar.
Abraços,
Gabriel Jr.
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