Memorial Manuel Congo

Egeu Laus
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Egeu Laus · Rio de Janeiro, RJ
19/8/2007 · 116 · 7
 

Mais ou menos a 100 metros do centro histórico de Vassouras, num local denominado Largo da Pedreira, se localiza o Memorial Manuel Congo (inaugurado em 1996), no local onde o escravo foi enforcado em 6 de setembro de 1839 em decorrência da revolta que liderou em novembro de 1838, junto com outros 80 escravos fugidos da Fazenda Freguesia. O grupo passou pela Fazenda da Maravilha onde se rebelaram mais escravos fugindo para um local na Serra de Santa Catarina denominado depois pela história por Quilombo de Santa Catarina ou Quilombo de Manuel Congo (localizados no hoje município de Paty do Alferes).

O memorial é extremamente singelo mas fica ao lado de duas pequenas quedas d’água que descem do morro e que tem uma força simbólica até maior que a própria edificação do memorial.

Como as informações veiculadas pela imprensa e internet sobre o episódio são bastante conflitantes nada melhor do que começar transcrevendo aqui trecho da carta escrita dois dias depois do evento com a versão do acontecido pelo Juiz de Paz da Freguesia de N. S. da Conceição do Paty do Alferes, tenente-coronel José Pinheiro de Souza Werneck, endereçada ao Coronel Chefe da legião da Guarda Nacional, em Valença, Francisco de Lacerda Werneck, constante do Arquivo Nacional, e publicada na Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, em artigo do historiador José Antonio Soares de Souza, na sua edição de abril/junho de 1972:

“(…) na noite do dia 6 do corrente, lhe fugiram oitenta e tantos escravos, e que, na seguinte noite tornaram à Fazenda da Maravilha, e tornaram a conduzir uma porção de escravos, fazendo hoje um número de cento e tantos escravos fugidos, sendo a maior parte deles armados. Os primeiros que fugiram arrombaram diversas casas, de onde roubaram mantimentos e vários outros objetos, e na seguinte (noite) foram então à Fazenda do Capitão-Mor, na Maravilha, onde quizeram matar o capataz, que escapou no telhado da casa, e tendo espancado outro preto, trataram de arrombar as casas, de onde tiraram feijão, milho, farinha e açúcar, e bem assim capados (suínos) que se achavam na seva e continuaram nas suas excursões; e supondo segundo os pormenores que tenho, que o seu fim é ir reunir força, e depois lançar mão de outros meios que a Vossa Senhoria e a mim são ocultos, e como seja de urgente precisão cortar em princípio seus danados fins, rogo a Vossa Senhoria que mande pôr a minha disposição a força da Guarda Nacional que Vossa Senhoria puder arranjar, a qual se deverá achar no dia 10 do corrente. As 4 horas da tarde, no lugar do Pati à minha disposição, os quais deverão vir armados e os que não trouxerem munição lhes será por mim fornecida. Cumpre-me por essa ocasião lembrar a Vossa Senhoria que julgava muito prudente que Vossa Senhoria não fizesse marchar o destacamento da Guarda Nacional, sem que isto tome melhor atitude, porque pode ser que o mal aumente (…)”

A versão oficial conta que os escravos foram eliminados antes de chegar ao Quilombo e dos sobreviventes 16 deles foram processados posteriormente com o enforcamento do seu suposto líder Manuel Congo, em 1839.

As atas de todo o processo, bem como centenas de outros documentos foram preservados e segundo consta estão hoje no Centro de Documentação Histórica da Fundação Educacional Severino Sombra.

Para saber mais sobre o acontecido o livro Insurreição Negra e Justiça, editado pela Expressão e Cultura em 1987, em convênio com a Ordem dos Advogados do Brasil – RJ, escrito por João Luiz Pinaud e outros, parece ser uma boa fonte.

Mais sobre Manuel Congo aqui.

onde fica
Largo da Pedreira
Centro – Vassouras, RJ
Acesso pela Rua Chanceler Dr. Fernandes
quanto custa
Visitação livre e gratuita

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Spírito Santo
 

Egeu,
Boa e discutível referência (achei curioso uma dica de guia conter tanto instigação ao debate)
Coo você sabe, conheço bastante o memorial pois ele foi criado - de certo modo inspirado - pela tentativa de se montar em Vassouras o Auto do Manoel Kongo que você, mui gentilmente coloca num link ao final deste seu post ( e que pretendo colocar em votação aqui, em breve).
Permita-me comentar apenas o seguinte:
- Os conflitos e divergências contidos na bibliografia sobre o Quilombo de Vassouras não são, como você parece sugerir, conflitos de opinião. São equívocos grosseiros (como o caso do link da Wikipédia que você insiste em repetir, dando injusta credibilidade a uma versão sem embasamento histórico algum) ou distorções deliberadas, fruto dos interesses políticos da época. Basta se saber que José Pinheiro de Souza Werneck, e Francisco de Lacerda Werneck eram primos e íntimos correlegionários. Não precisavam de cartas pomposas para se entender e planejar ações. As cartas trocadas entre eles - cuja data real nem mesmo pode ser comprovada - são obviamente documentos políticos, produzidos com fins estudados. Há que se considerar também que muitos documentos dos autos do processo de Manoel Congo foram forjados. As cartas não servem portanto para embasar quase nada, senão a a natureza das artimanhas políticas e os interesses das autoridades da região.
Fica portanto a minha dúvida se este tipo de informação, da forma como está colocada aqui, reforçando certas versões sem assumi-las, ou sugerindo apenas de relance outras versões (e deste modo as desqualificando), como se um fato reconhecidamente histórico fosse uma lenda passível de versões, não conteria uma certa tendência a confundir mais do que esclarecer.
Não chega a ser uma crítica, claro, é apenas uma impressão ainda. Afinal já estamos no 4 post sobre Vassouras (e eu ainda prometi mais um - assumidamente de ficção, a bem da verdade)
Comentemos, mais uma vez, pois.

Abs,

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 16/8/2007 22:17
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Egeu Laus
 

Bom, a minha intenção é ir apresentando fatos e/ou versões para ir suscitando os debates e que se possa chegar as verdades. Principalmente para instigar o povo de Vassouras. Espero que eles possam trazer luzes, já que eu – por mim mesmo (como se dizia antigamente) não tenho essa condição. Se eu conseguir ser um porta-voz de todas as opiniões já me sentirei gratificado.
Abraço!

Egeu Laus · Rio de Janeiro, RJ 16/8/2007 22:34
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Egeu Laus
 

Quanto ao conteúdo do Wikipedia, você lembrou bem: grande parte das informações na internet são recheadas de erros, quando não besteiras mesmo. De todo modo são os dados que temos na rede. Seria importante que, principalmente no caso da Wikipedia houvesse voluntários dispostos a aperfeiçoá-la.
Abraços!

Egeu Laus · Rio de Janeiro, RJ 16/8/2007 22:42
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Egeu Laus
 

Quanto a carta me pareceu justamente isso: ela serve para desvendar os interesses e artimanhas.
Abraço!

Egeu Laus · Rio de Janeiro, RJ 16/8/2007 22:44
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Spírito Santo
 

Egeu,
A questão que me ocorreu é que, mesmo estando patente a sua boa intenção, acho que a sua opinião claramente expressa nos posts, seria uma contribuição muito mais efetiva ao debate. Não sei se a multiplicação de matérias, aparentemente, neutras sobre um mesmo assunto, remetendo a versões e opiniões controvertidas, sem uma 'opinião do autor' balisando ou justificando o debate, é uma boa tática informativa. Me pareceu, francamente, que não. Se um link é, sabidamente equivocado, por que indicá-lo sem uma opinião a respeito? Se as todas as partes não foram consultadas (os mestres dos grupos populares de Vassouras, no post do cortejo), porque lançar opiniões unilaterais no ar?
Quanto a Wikipédia, falo de cadeira porque na verdade andei colaborando muito por lá. Se você observar com atenção, entre outros, este link sobre Jongo, você vai poder me identificar, facilmente, como o autor. Publiquei alguns outros verbetes por lá, mas, a quantidade de equívocos na Wikipédia sobre assuntos relacionados à cultura negra do Brasil e da África é tão grande que desanima qualquer colaborador (acho que é um problema ligado ao excesso de colaboradores portugueses na versão lusófona). Tive que me envolver em debates indescritíveis com os administradores de lá (a maioria, me pareceram, jovens acadêmicos de Coimbra) que me tomavam horas de argumentação. Parecia defesa de tese de mestrado, uma a cada verbete.
Outra coisa, pouco camarada, convenhamos (rs rs rs ) que não é a causa destas minhas colocações não, é o seguinte: Já são cinco (!) posts sobre Vassouras em menos de duas semanas (4 seus e 1 meu), se não me engano. O texto do Auto do Manoel Congo que me sugeriram - até msmo você - e prometi publicar ( publiquei apenas a resenha), vai ter que ficar em quarentena, até o leitor descansar desta Overdose de Vassouras (Overmundo pequeno)
Façamos um balanço, pois. Ombusdmaniemo-nos, é o que sugiro, enfim.

Abs

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 17/8/2007 07:15
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Luiz Antonio Cavalheiro
 

Oi, Egeu!

Já estive em Vassouras algumas vezes e não conheci o Memorial. Vou voltar e vou garantir minha ida até lá.

Grande abraço e obrigado pela dica.

Luiz Antonio Cavalheiro · Cordeiro, RJ 19/8/2007 13:58
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CCorrales
 

Muito legal a indicação, Egeu.
Obrigada pelo convite.
Abraços

CCorrales · São Paulo, SP 1/9/2007 21:47
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