O que você imaginaria ao encontrar, numa visita a um museu, uma lagartixa tentando se camuflar entre folhas de umbuzeiro, mandacaru, xique-xique e palma? Provavelmente, chegaria à conclusão de que errou o endereço e acabou entrando num zoológico cuja vegetação simboliza o semi-árido brasileiro. Entretanto, por incrível que pareça, a lagartixa, juntamente com a caatinga, pertencem ao acervo do Museu do Sertão.
Muito além da definição Aureliana de um “estabelecimento criado para conservar, estudar e valorizar, pelos mais diversos modos, e, sobretudo expor para deleite e educação do público, coleções de interesse artístico, histórico e técnico”, o Museu do Sertão chegará aos 35 anos com uma vitalidade infindável, sendo palco inclusive para a conservação do aspecto natural sertanejo.
Com um expressivo acervo de 3.400 peças, o museu, que ocupa uma área de 1.045 metros quadrados, se constitui como um marco para a região do São Francisco. Algo que seu Alzir Maia, historiador do museu há 18 anos, não cansa de repetir: “As pessoas vêm aqui e saem emocionadas ao conhecerem a casa sertaneja e isto emociona a gente também”.
O jardim sertanejo, onde as lagartixas se camuflam nas plantas catingueiras, é apenas a passagem entre as exposições permanentes - setorizadas conforme as temáticas: Sala das Carrancas, Rio São Francisco, Cangaço e Ícones nordestinos - e a Casa Sertaneja.
Na casa tem de tudo: na cozinha, um cuscuzeiro em barro cozido de 1936 conta os primeiros passos deste costume delicioso; próxima a um oratório do século XVIII, já no quarto, uma cama de couro dorme à luz do candeeiro; enquanto na sala o rei do Baião canta um xote ao pé do ouvido de Frei Damião e Padre Cícero.
Até objetos pré-históricos constituem o acervo do museu, a exemplo dos peixes fossilizados encontrados em 1897 na Serra do Araripe, em Pernambuco, cujas pesquisas indicam que tem mais de 60 milhões de anos. Quem sabe não é da época em que, segundo a “lenda” sertaneja, o sertão foi mar? Entre estes e outros objetos, eis que me deparo com uma relíquia do tempo do cangaço: uma carta de Lampião da década de 30 endereçada ao coronel da cidade de Salgueiro - PE, Veremundo Soares. Como a partir da fotografia é muito difícil ler a carta, segue na íntegra a reprodução da mesma:
Sr. Veremundo Soares
Suas saudações,
O fim desta é somente para saber qual seu plano, que após em minha passagem o senhor mandou uma força a ir atrás d’eu mesmo. Pilheriou bastante de mim!
Em outras hora nós já fomos inimigos, porém para o presente eu pensava que nós era amigo, para o senhor eu era, mas para si me parece que o senhor era meu inimigo; portanto eu lhe faço esta para saber qual é o seu destino. Avisei ao padre Cícero que nesta diligência, quem alterou-se contra mim foi o Município de Salgueiro. Tenha muita cautela. Eu não volto para o mesmo que eu era bem outrora. Eu quero virar santo e fazer a felicidade de você mesmo.
Sem mais assunto,
Capitão Virgulino Ferreira.
Muito bom!!!
Leia e reflita nesse texto
http://www.overmundo.com.br/banco/nenhuma-guerra-e-santa-1
Luis,
não sabia da existência do museu. Foi legal saber. Deveriam as instância de estado divulgar melhor,
um abraço, andre.
Dá vontade de visitar o Museu do Sertão. Lembrou-me o filme Baile Perfumado, que eu adorei, e que me mostrou um sertão diferente do padrão pictórico difundido aqui. O vôo rasante sobre o São Francisco - com o som de Chico Science - é uma imagem que me deixa saudosa do filme, além, é claro, dos próprios cangaceiros, das matas da caatinga e do filme dentro do filme mostrando o bando de Lampião se preparando para dançar, num baile muito particular.
Sandra Chaves · Rio de Janeiro, RJ 1/3/2008 10:30Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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