O primeiro e último Vapor...

Luís Osete
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Luís Osete · Juazeiro, BA
17/4/2008 · 104 · 9
 

“O que um vapor está fazendo atracado na orla de Juazeiro-BA?”

Eis uma pergunta recorrente para quem se depara pela primeira vez com aquela “máquina de alta pressão, sem expansão e condensação, inclinada à ação direta com quarenta rotações por minuto”, como Francisco Manoel Álvares de Araújo descreve o vapor Saldanha Marinho: o Vaporzinho.

No dia 3 de fevereiro de 1871, Álvares de Araújo inaugurou a navegação a vapor nas águas do rio da Integração Nacional ao chegar à vila de Guaicuí, onde o rio das Velhas deságua no Velho Chico. De lá, prosseguiu sua histórica “viagem de exploração” à Januária, Carinhanha, Barra do Rio Grande, Xique Xique, Pilão Arcado, Remanso, Juazeiro e Boa Vista.

Em cada localidade, ele anotava aspectos da cultura ribeirinha que hoje oferecem subsídios para um melhor entendimento daquele período histórico. E assim, ficamos sabendo de sua disposição em desobstruir o São Francisco para que, unindo a navegação a vapor com as estradas de ferro, o centro do país finalmente se encontrasse com o litoral.

Toda esta história, fartamente narrada por Álvares de Araújo em seu relatório de viagem, sempre foi aceita pela historiografia como prova inconteste dos primeiros anos da navegação a vapor. A controversa fica por conta do período anterior ao encontro do Vaporzinho com as água do Velho Chico.

Wilson Dias, em seu livro “O Velho Chico: sua vida, suas lendas e sua história”, afirma que “o gaiola Saldanha Marinho foi construído na América do Norte, onde navegou por longos anos no rio Mississipi, depois foi conduzido para o rio Amazonas, e em seguida foi desarmado e transportado em carretas puxadas a boi até os terminais ferroviários: ora em cima de trem de ferro, ora em cima de carros de boi, até chegar a Sabará, presumivelmente em 1852”.

No entanto, o livro mais completo sobre a história da navegação nas águas do rio São Francisco, “Navegação do Rio São Francisco”, de Fernando da Matta Machado, não faz qualquer referência à América do Norte. Mas antes, atribui a construção do vapor ao contrato firmado entre o presidente de Minas, Joaquim Saldanha Marinho, e Henrique Dumont, pai de Alberto Santos Dumont.

Luizinho, o solitário vigia do Saldanha Marinho, prefere a versão de Wilson Dias. “Você acha que se não tivesse sido feito pelos americanos teria durado tanto tempo?”, pergunta ele, incisivo. Em seguida, levanta para apresentar a caldeira, a roda d’água, o camarote, o porão...

Içado a terra em fevereiro de 1971, exatamente no centenário do início da navegação a vapor, o Saldanha Marinho foi desmontado e transferido de uma orla para a outra na manhã do dia 17 de junho do ano passado, sendo o primeiro objeto de memórias do futuro Memorial da Navegação.

Logo nos primeiros dias, as pás das laterais, impulsionadas por uma queda d’água, simularam os movimentos da navegação. Entretanto, há três meses, informou Luizinho, um curto-circuito impediu que o vaporzinho continuasse navegando sem sair do lugar.

Mas, para quem supera a surpresa de encontrar um corpo metálico descansando em terra firme e adentra as dependências do vaporzinho, sempre há a possibilidade de sair do lugar, no tempo e no espaço.

onde fica
Na Orla Nova de Juazeiro-BA.
por que ir
Para conhecer o primeiro vapor a navegar pelas águas do Velho Chico, abrindo caminhos para o desenvolvimento e integração do Vale do São Francisco.
quando ir
O Vaporzinho está sempre aberto à visitação.
quem vai
Devido à mudança de local, o Saldanha Marinho passou a ter mais visibilidade por quem atravessa a ponte Presidente Dutra, o que tem proporcionado uma maior visitação turística.

Com relação à comunidade local, as pessoas que não se cansam de viajar sem sair do lugar adoram caminhar pelo chão metálico do vapor.
quanto custa
Nada.

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anamineira
 

Puxa!
Que preciosidade!
Muito boa sua matéria.
Vo(l)to.
Abraços.

anamineira · Alvinópolis, MG 15/4/2008 20:50
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Andrea Argôlo
 

O seu texto nos transporta para o local ao qual se refere, é fassinante.Fiquei impressinada que uma pessoa tão nova tenha tanta maturidade literária. E orgulhosa em saber que é filho de Cardeal da Silva.
Parabéns.
Abraço.

Andrea Argôlo · Cardeal da Silva, BA 16/4/2008 12:26
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Luís Osete
 

Oi pessoal,
valeu pelos comentários. eles são um incentivo e tanto...
abraços...

Luís Osete · Juazeiro, BA 16/4/2008 17:54
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zuleide carvalho
 

sete!
eu te adoro!
vc esta fazendo textos lindos!
e faça muitos mais textos para vc ganhar mais votos!
beijão!

sua prima maravilhosa:Renata Carvalho Almeida

zuleide carvalho · Entre Rios, BA 16/4/2008 18:54
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Luís Osete
 

Oi Renata,
que bom te ler por aqui... obrigado pelo carinho.
saudades de você e deste povo caloroso de nossa querida família...
beijão!

Luís Osete · Juazeiro, BA 17/4/2008 02:17
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Chico Egídio
 

Olá Luís,
É sempre bom "ouvir" histórias da nossa terra escrita de forma leve e clara.
Valeu o registro e continue a nos brindar com seus comentários e matérias.

Baiano de Juá

Chico Egídio · Petrolina, PE 17/4/2008 09:59
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nanau
 

Será que vai sair um grande escritor de nossa cidade Cardeal da Silva??? tomara
Que Deus lhe ilumine e continue nos orgulhando com textos tao
fascinantes! bjs
Nadja Brito

nanau · Cardeal da Silva, BA 17/4/2008 11:33
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Vanise Albuq
 

Olá Osete,
Gostaria de parabenizá-lo pelo belíssimo trabalho que vem desenvolvendo. Seu envolvimento, sensibilidade e propriedade no que escreve sem dúvida faz um diferencial muito grande em seus textos, demonstrando assim a força incontrolável que a leitura tem de deslocamento de lugares e conscientização para a preservação do patrimônio material e imaterial da humanidade.
Sempre soube que aí dentro escondia-se um grande escritor...
Você vai loooonge!
Um grande, saudoso e orgulhoso abraço.
Vanise Albuquerque

Vanise Albuq · Cardeal da Silva, BA 18/4/2008 14:18
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rozangela ribeiro
 

Oi Osete,
Que saudade do Velho Chico...
E sua também...
Breve retornarei!!!
Abraços,

rozangela ribeiro · Entre Rios, BA 3/5/2010 15:41
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Roda D'água e camarote zoom
Roda D'água e camarote
A Caldeira zoom
A Caldeira
Interior do Saldanha Marinho zoom
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Uma visão panorâmica do vapor zoom
Uma visão panorâmica do vapor
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