Passo por uma banca de jornais e vejo um milhão de sorrisos descontraídos, de pares de peitos incríveis, de bundas perfeitas empinadas e penso: “se eu fosse homem eu tava brocha!” Tanta mulher gostosa de graça, em todos os ângulos, que sinceramente, sei que soa careta, mas acho que é por isso que os caras de 30 anos andam indo aos consultórios tratar de impotência. Tédio é o nome do negócio. Estímulo externo demais com pouco estofo interno dá nisso: tédio. Tédio brocha.
Eu sou cantora, há mais de vinte anos que subo em palco pra cantar. Vi platéias de todos os tipos, no Rio e fora do Rio e do Brasil. Vi platéia encantada, vi platéia blasé, vi gente adorando e achando um saco. Isso é normal, esse é o jogo.
Hoje fiz um show num local público, de graça. Nunca na vida eu vi um público com olhos tão vazios, com um desinteresse tão grave, com uma ausência tão absoluta. Vocês vão pensar, claro: “ah, o show devia estar horrível!”. Não estava. Essa não é a questão. Meia dúzia de gatos pingados estavam atentos, amando tudo, compraram o CD, pediram autógrafos. Normal. Mas a apatia da maioria me apavorou. A cara de desinteresse de quem passava e nem olhava, nem se coçava, como se nada estivesse acontecendo. Como se três pessoas não estivessem ali tocando lindos instrumentos e cantando lindas músicas. Como se aquilo não fosse nada. Será que a gratuidade do ingresso desvaloriza o show? É um ponto-de-vista, que não me basta.
E o que a mulher pelada tem a ver com os olhos vazios da platéia? Tudo a ver. Tédio é a palavra. A mídia, ops, com o perdão da má palavra, esqueceu de avisar que para desfrutar de um mundo de informações, imagens, sons, cores, cheiros e variedades é necessário usar os sentidos, é necessário ter vida interior, é necessário estar vivo. Hoje eu vi um bando de mortos-vivos. Eles podem não ter gostado do show. Eu não gostei foi da platéia.
tags: Rio de Janeiro RJ cultura-e-sociedade apatia publico plateia show desinteresse cultura artista cantora cantor de graca entrada-franca
extraído de: