O JORNALISMO LITERÁRIO:
ESPAÇO DE CRÍTICA E DIVULGAÇÃO
Aníbal Beça ©
Historicamente, o jornalismo literário tem contribuído para abrigar a produção de escritores e, consequentemente, a divulgação de suas obras. Exemplos singulares, desde o início do século XX, primeiramente na Europa, os suplementos se popularizaram como elemento de discussão crítica e geradores de polêmicas. Quer no campo artístico: música, dança, teatro, cinema e artes plásticas e no literário: poesia, conto, novela, ensaio e romance.
A divinização da figura do crítico chegou a um ponto de importância, sendo capaz, inclusive, de selar o sucesso ou o fracasso de um livro ou de um espetáculo. Mas foi nos Estados Unidos, que uma nova rota se delineou, dentro das próprias redações, os jornalistas se atiraram à aventura literária.
Hoje, assistimos, por todo o mundo, lançamentos de livros de jornalistas, em sua maioria, de reportagens, (Olga, Bossa-Nova etc.) mas com um tratamento de linguagem mais elaborada. É fato, também, que o estilo direto do jornalismo, em muito influenciou a prosa de ficção e de ensaios.
Aqui em Manaus, destacaria, economicamente, três fases importantes do jornalismo e dos suplementos literários. Na década de 30 o tablóide do jornalista Clóvis Barbosa “A Selva”, abrigando as notícias do modernismo de 22 e as primeiras produções dessa escola entre nós, através de Pereira da Silva e Violeta Branca, dentre outros. A página “Madrugada”da década de 50/60 e início de 70, publicada em “O Jornal”e posteriormente em “A Crítica”, destacando-se a figura de Aluisio Sampaio como diretor.
Na década de 70, no Jornal do Comércio, a UBE (União Brasileira de Escritores), à frente João Bosco Evangelista e eu, com a página “Literatura UBE”. Depois, muitas outras tentativas, mas sem durar um veranico sequer.
Ao contrário dos “jornalões”do circuito Rio-Sampa, hoje não temos mais suplementos literários como o MAIS, IDÉIAS, ou PROSA & VERSO. Os suplementos cobrem mais o lazer, as ditas variedades e o colunismo social. Apesar de algumas tentativas de alguns jornais em publicar crônicas e ou resenhas de livros.
Fazendo um exercício com o meu leitor, embarco no terreno da suposição para me transportar e me transformar na figura de um pauteiro, de um repórter a me auto-entrevistar.
“O que é ser escritor no Amazonas? Como publicam os seus livros? De que vivem? Quem os lê? Seus livros são vendidos em outros estados? Eles (os escritores) recebem auxílio do estado, do município, de algum mecenas? Como se relacionam com a mídia? Precisam pedir para publicar os seus escritos? Os jornais lhes pagam ou isto é tido como um grande favor? São naturalmente estudados ou é preciso "convencer" a universidade a pôr algum de seus livros nos cobiçados vestibulares? Enfim, coisas de interesse para a categoria de escritores.
Vale a pena ser membro de academia?"
AB -Acho que vale, sim. As academias, da brasileira às estaduais e municipais, têm o seu prestígio mítico: quem está longe delas e não as conhece bem lhe dá um valor "sobrenatural", como se estando nela o escritor estivesse por cima do bem e do mal, estando por isso mesmo "consagrado" como o melhor.
Mas não é bem assim: o valor literário não conta, e sim o relacionamento que ele tiver com os acadêmicos. Quem está perto sabe da relatividade das academias e sabe que, isoladamente, os acadêmicos às vezes não valem grande coisa, mas agremiados, são muito fortes, tanto cultural como politicamente. Há uma espécie de auto-ajuda acadêmica.
Depois dessa catarse, declaro que este artigo foi motivado pela notícia que correu na cidade da extinção do estudo da literatura aqui produzida na UFAM. Parece que retrocederam. Meno male.
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