Ainda bem que me enganei. Conto a história do princípio. O escritor é metade sueco, metade português. Enfim, europeu. Desde que saiu da Suécia, em 2001, dá aulas na África: Cabo Verde, Moçambique, e hoje mora em Angola. Fiquei logo meio desconfiado... Sei que é uma generalização estúpida, um preconceito. Mas vários desses europeus apaixonados pelos trópicos, ou pelo Terceiro Mundo - que surgem por aqui para nos ajudar -, geralmente me parecem ingênuos na sua procura de expiar culpas ou incentivar "autenticidades". Quase nunca escondem por completo o sentimento de superioridade, de saber o que é bom para nós. Querem que sejamos "diferentes",
exóticos - e tudo acaba com um gosto meio cafona de realismo mágico ou "macumba politizada para turista".
Então, quando abri o livro, o
Perdido de Volta de Miguel Gullander, eu estava cheio de receio. Logo na primeira página há referências à possessão e, na segunda, a uma "negra linda". Mas o clima já era todo alucinado, uma alucinação com ares de pop art, de história em quadrinhos ou de bad trip estilo
William Burroughs. Então continuei a leitura, um tanto curioso. No capítulo 2, a temperatura abaixa para 27 graus negativos, nas ruas de Estocolmo. A África vira um espetáculo numa sala de teatro alternativo. E no próximo capítulo, quando chegamos na
ilha do Fogo (ilha magnífica, onde já pisei, e encontrei aquele povo que planta uvas na
cratera do vulcão - juro que não foi alucinação...), já estamos a bordo de uma Toyota, igual a todas essas vans que cuidam do transporte coletivo delirante e informal da maioria das cidades periféricas do mundo. "Estou em casa", respirei aliviado. Ou estou também perdido de volta, como sempre me sinto em qualquer lugar, não importa se é um baile funk ou uma conferência sobre neurociências em Natal... Esse mestiço luso-sueco se revela a cada página um escritor mais interessante.
Perdido de Volta é o nome da van da ilha do Fogo. Lá, como em todos países africanos de língua portuguesa, as vans têm nomes próprios. Miguel Gullander cita alguns: "Pomba Branca", "Dois Canhões, um Tiro", "Lisboa no Coração" etc. O motorista explica por que batizou sua van de Perdido de Volta. A explicação é tão boa, e serve para esclarecer tanta coisa de nossa globalização escalafobética, que me sinto na obrigação de copiar tudo aqui:
"Estas Hiaces [
uma marca de van Toyota, extremamente comum em toda a África] são o transporte público daqui. Elas aparentemente não têm horário, nem rota específica. Aparentemente. Lá porque nós, gentinha, não sabemos o que vai acontecer, e guiamos descontraidamente, ao acaso, por onde vai apetecendo, isso não quer dizer que o caminho não esteja já traçado. Eh! [...] Por mais falta de cumprimento de horário, de rota - por mais desconhecido que seja o caminho - por mais desnorteado que pareça ser o destino, por mais perdido que se esteja, esta carrinha acaba sempre por ir aonde a necessidade exige - acaba sempre por passar onde é preciso. Recolhe quem deve recolher, e até dá, por vezes, uma boléia - e, mesmo que ande perdida na noite, na chuva, nos caminhos sem vivalma, - perdida, ela acaba sempre por regressar de volta onde pertence, a casa."
Descrição perfeita de nossa condição pós-pós-moderna, não é mesmo? No sistema de som da Perdido de Volta do livro estava tocando
kuduro, a música pop-favelada-eletrônica de Angola que conquistou rapidamente Moçambique, Cabo Verde, os bairros pobres de Lisboa e Paris, e agora vira moda em pistas de dança "antenadas" de Berlim ou Londres. No resto do livro somos embalados por gangsta-rap e punk-hardcore-straight-edge, e nos deparamos com uma pichação na parede da biblioteca de Oeiras, Portugal: "Queremos um tsunami!" Quem pichou, já deve saber: tudo ao redor é tsunami. E o livro apenas descreve nossa descida coletiva para cada vez mais fundo no
maelstrõm (fenômeno "natural" da mitologia viking/nórdica, da qual Miguel Gullander é profundo conhecedor).
Mudou o mundo? Ou mudaram apenas os jovens europeus apaixonados pelo Terceiro Mundo? Tudo mudou, principalmente nossa percepção diante do mundo: impossível manter a imagem daqueles trópicos tradicionalmente selvagens, intocados pela modernidade, de certa forma puros (mesmo na sua devassidão, mesmo na sua injustiça social). Tá tudo dominado e conectado. E o livro do Miguel Gullander vem nos anunciar: o mundo ficou bem estranho. Muito mais estranho do que os absurdos habituais das narrativas do realismo mágico.
---
Este meu texto, até agora, é meio ficção, é meio invenção. O leitor desconfiado que conduzia a narrativa não sou eu. É apenas um recurso retórico, para prender - com a polêmica nossa de cada dia adorada pelos cadernos culturais dos jornais - a atenção dos outros leitores, que terão contato com minhas palavras através do Overmundo. Se você está lendo até aqui, a minha estratégia deu certo, ou pelo menos não deu totalmente errado. Na verdade não comecei a ler o livro com desconfiança. Afinal, foi presente do
José Eduardo Agualusa e do pessoal da editora
Língua Geral. Admiro a literatura de Agualusa há muito tempo. Até escrevi o
prefácio de seu primeiro livro editado no Brasil. Não gosto apenas dos seus livros, mas também da sua maneira de pensar o mundo, ou o mundo da língua portuguesa em particular. Se ele gosta de alguma coisa, vou gostar da mesma forma. Então, se o livro foi lançado pela sua editora, tenho certeza que vou aproveitar bem a leitura.
E ainda por cima a editora é a Língua Geral. Minha afinidade com sua linha editorial é enorme. Fiquei pensando, ao ler o Miguel Gullander: o Overmundo poderia igualmente se chamar Língua Geral - temos objetivos muito semelhantes, focos complementares. A editora Língua Geral, que lançou seus primeiros livros no final de 2006, também quer descentralizar a produção/difusão/circulação da informação cultural no Brasil. Não lança apenas a literatura dos países africanos de língua portuguesa entre nós. Lança autores que escrevem em língua portuguesa em qualquer canto do mundo, inclusive em recantos brasileiros fora-do-eixo. A proposta não é regionalista, mas sim cosmopolita, mesmo falando uma só língua, e mesmo descobrindo apenas uma parte do mundo. Um mundo que está certamente perdido, mas aqui está de volta, em eterno luso-retorno, o tempo todo.
E quando leio Perdido de Volta me sinto vizinho do Miguel Gullander, nós dois perdidinhos e em casa, casas do mesmo tipo (já muito diferentes daquela casa portuguesa com certeza, do famoso fado...), não importa se situadas em costas opostas do Atlântico. Bem, reconheço: nossa casa é uma van Toyota, surfando no caos do oceano, para dentro e fora do maelstrõm.
Então todo este texto foi uma cantada, um bilhete dentro de uma cibergarrafa: Eh! Miguel (e todos os outros autores da Língua Geral), que tal mandar notícias aí de Benguela - ou de qualquer outra van de residência - para cá, para este vasto e igualmente delirante (como queria o
poema de Murilo Mendes que nos batizou) Overmundo?
tags: Angola literatura
extraído de: http://www.overmundo.com.br/overblog/perdido-de-van-com-miguel-gullander