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20 anos sem Raulzito

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Égab · Florianópolis, SC
20/7/2009 · 2 · 0
 



Passados 20 anos desde o desaparecimento do cantor e compositor baiano Raul Santos Seixas (1945-1989), finalmente o roqueiro mais irreverente do país ganhará (provavelmente) seu primeiro longa-metragem. Trata-se de um filme-documentário que será dirigido por Walter Carvalho, mesclando imagens de arquivos de emissoras de tevê e outras encenadas indicando o início da carreira do músico. Apesar da inegável importância de Seixas no cenário musical brasileiro, até hoje não se realizou uma cinebiografia à altura de seu talento e muito menos uma biografia que contemplasse aspectos de sua existência que fossem além de chavões ou de cultos mitomaníacos.


Raul Seixas iniciou sua carreira artística em Salvador, influenciado pelo rock e pelo baião de Luiz Gonzaga, ainda no final da década de 1950. Gozando de uma vida material relativamente confortável, - já que seu pai era chefe de telecomunicações da Viação Férrea Federal da Bahia e sua mãe uma típica dona de casa - Seixas desde cedo tomou gosto pela literatura, inventando histórias fantásticas para o seu único irmão, Plínio Seixas. O menino que queria ser tão importante quanto Jorge Amado encontrou o seu caminho na linguagem musical, entendendo que suas produções textuais conseguiriam atingir um público bem maior através da música do que propriamente pela literatura. Contextualmente, se tomarmos a condução existencial de Raul Seixas com o movimento histórico que compreendeu a instauração da Ditadura Militar (1964-1985) até o processo de redemocratização no Brasil, chegaremos a algumas reflexões importantes. Seixas viveu o auge de sua plenitude criativa nos momentos mais tensos da repressão militar e nos espetáculos ao vivo nunca deixou de ironizar os generais-presidentes e os censores que iam aos seus shows. Entretanto, com a ‘Abertura Política’ promovida ainda pelo general Geisel (1974-1979) e mais amplamente descortinada com o general Figueiredo (1979-1985), Raul Seixas começou a compor de maneira mais espaçada e suas aparições públicas tornaram-se mais raras. Para Seixas, o rock nacional teria perdido a sua irreverência em meados dos anos 1980. As canções passavam a atender cada vez mais o mercado, transformando-se em meros produtos pasteurizados. O estético teria vencido o protesto. Não sem razão, neste momento histórico, o compositor Lobão teria afirmado que “o rock errou”.


O último trabalho musical de Raul Seixas ao lado do parceiro Marcelo Nova, sintetiza um total desencanto pela vida, por isso, o mais biográfico de todos. Representou a crônica de uma morte anunciada. Bastante debilitado e aplicando-se insulina regularmente, a emissão vocal titubeante de Seixas em nada lembrava o músico debochado e inventivo da década de 1970. Dentre os temas deste último disco estão os xiitas ecologicamente corretos, uma crítica ao cantor inglês Sting, que esteve no Brasil posando de defensor da causa verde, reflexo do fenômeno arrivista que se agudizaria na década de 1990. Ainda sobram ironias para os livros mais vendidos do momento – os denominados best-sellers - com temáticas simplórias e repletas de receituários de auto-ajuda. As demais canções revelam momentos singulares da vida do músico, enfim, um inventário de sua produção artística, entremeado com situações vivenciadas nos seus relacionamentos conjugais e/ou afetivos. No dia 21 de agosto de 1989 o poeta anarquista embarcou num disco-voador e nos deixou um legado que tem acompanhado diversas gerações.


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