Pela sua idade seria normal ouvir dos críticos e dos músicos que o cercam a afirmação: ‘ele tem muito que aprender’. Mas poucos ousam soletrar tais vocábulos (eu não ouvi ninguém, por exemplo). Talvez antes de ecoarem tal oração, eles tiveram chance de conhecê-lo e, sobretudo, conhecer suas idéias.
Várias perguntas foram respondidas no nosso encontro, mas uma, inconscientemente, martelou minha mulera: por que Pedro Morais, que vicejou em 2003 no cenário musical mineiro, ainda não estourou? Talvez nem ele mesmo saiba. Eu também não saberia e, conseqüentemente, penso eu, vocês também não iriam saber, não fosse a carona que ganhei logo depois do papo. Carona que mais que uma condução gratuita, foi uma pequena aula musical. O condutor e professor: Robertinho Brant. A resposta: ‘todos cobram sucesso. A família cobra sucesso, os amigos cobram sucesso, mas os músicos que antes de tudo buscam qualidade, preocupam-se primeiro em aperfeiçoar e não seguem o fluxo comercial que seria bem mais rápido e fácil’. Assim ele respondeu, inconscientemente, uma questão que não foi feita. Sem querer Robertinho preencheu uma lacuna que naquele momento, nem eu sabia que existia.
Por que eu cheguei a me perguntar sobre o estouro ou não do Pedro Morais? Primeiro, pela qualidade musical impressa no seu CD de estréia; segundo, porque vira e mexe ele gera notícia panegírica nos cadernos dois da vida (isso quer dizer alguma coisa?); terceiro, porque não conheci nenhum outro garoto que trocou uma bola de futebol aos 11 anos por um bandolim; quarto, porque aos 24 (por imposição das células), Pedro Morais mostra maturidade de 30 e musicalidade de 50 anos; quinto, porque ele formula frases como: ‘o complexo, às vezes, é ignorante’ e ‘o mundo é o resultado dos contrários, da força dos leões e dos otários’; sexto e mais importante, por causa das suas respostas nessa entrevista (risonha) abaixo...
Suas músicas são as respostas para suas perguntas ou as perguntas para suas respostas?
Elas são as perguntas.
Por quê?
Talvez porque não tenham respostas. Na verdade, eu reflito por meio delas na tentativa de respostas.
Em que prateleira está Pedro Morais? Em qual gostaria de estar?
Cara... (risos). Bem, não sei. Não tenho pretensão nenhuma, de prateleira nenhuma.
Você é pop?
Não. Na verdade as pessoas precisam de uma referência...
E as lojas também, afinal, elas precisam saber em que prateleira colocar (risos).
Pois é. Eu acho que se precisa de um rótulo, o da MPB funcionaria comigo. Mas na verdade ele não descreve nada, afinal, música popular brasileira é qualquer coisa. Quem faz MPB tem muito mais características pessoais do que globais. Posso fazer um samba, um rock e ser o mesmo cara em todas as músicas e as pessoas me reconhecerem por esse todo. Quem mexe com o todo e é tudo ao mesmo tempo é MPB hoje. O próprio Caetano (Veloso), um dos criadores desse rótulo é o melhor exemplo disso. O fundamental é ter uma essência, mas se é preciso um rótulo: MPB está bem servido.
Falando nisso, parece-me que hoje é cada vez mais comum a tentativa de fuga dos rótulos. O que isso significa para o músico? Ser diferente?
Não, não significa ser diferente, significa não ser igual.
Como assim?
Ser diferente é qualquer coisa, não ser igual é não ser semelhante a alguma coisa. É poder ser você e ser tudo ao mesmo tempo. Isso é muito importante. Como estamos vivendo numa situação de globalização, em que tudo: internet, tecnologia, não-sei-que, nãnãnã... tudo isso faz com que a cada dia a música afunile mais e leve a discussão musical para uma questão de personalidade. A cada dia é mais importante a forma de interpretar, de compor, de executar. Isso gera um conjunto de fatores que tenha algo a dizer, argumento, que se torna forte. Na verdade eu não acho que tenho isso, mas me esforço para ter uma personalidade reconhecível e não me incomodo que me comparem com ninguém, o que acontece sempre. Eu quero que daqui a 30 anos, alguém escute uma canção inédita minha e diga: ‘esse é o Pedro’. Isso é reconhecimento, e o conjunto de fatores que gera personalidade sendo reconhecido.
Talvez você não tenha percebido, mas nas três primeiras músicas do CD você usa a palavra fé. Qual sua relação com esse vocábulo?
Fé? Fé. Minhas músicas são meio que filosóficas mesmo e a palavra fé é filosófica. É coisa de ser humano. Até os ateus precisam acreditar em algo que não é palpável. Pra mim Deus significa isso: ter acesso a uma coisa que você nunca vai ter. Embora eu seja crente da sua existência, não acho que estamos submetidos completamente a ele. Somos nós que geramos, que fazemos acontecer. O que faço na música é questionar o porquê das pessoas precisarem de uma religião.
Você pensou nisso para compor essas três canções?
Claro. ‘Terra blue’, por exemplo, uma música que fiz sozinho, ela fala da questão dos negros do Vale do Jequitinhonha, onde eu morava. Querendo ou não, sou influenciado. Nós somos frutos do meio, messsssmo.
‘Terra blue’ então fala de fé por que fala dos negros?
É. Na verdade é um trocadilho infame, mas carinhoso. Blue fala de negro, de cor, ao mesmo tempo fala de futuro, de céu azul, sabe? Blue de contraste de cores, de um lugar seco que tem o céu diferenciando. A música fala disso e ao mesmo tempo faz uma relação com a fé. Minas Novas é uma cidade antiga, que fez parte do ciclo do ouro, do diamante. Mais de trezentos anos sem evolução. Uma cidade de dez mil habitantes e oito igrejas católicas. Oito! Do lado tem uma cidade chamada Chapada do Norte que é um ex-quilombo. Os primeiros habitantes desses locais vieram tudo da África. Não tinha jeito de não relacionar a imposição católica religiosa e os nossos descendentes negros. A música fala um pouco disso: de escravidão, de religião que os negros não conhecem e precisam exercer.
Sete das 12 músicas do álbum são feitas em parceria com Magno Mello e Kadu Vianna. Como funciona isso? Era algo disciplinado?
Eu sempre fui muito solitário musicalmente. Na verdade, eu que sempre me senti muito sozinho; eu e meu violão; eu e minha madrugada, e curto isso de uma maneira muito intensa. Nunca consegui colocar uma música numa letra que eu não participei na construção, assim como não consigo colocar letra numa música que já me fosse entregue pronta. Eu preciso sentir as pessoas, saber se estamos falando as mesmas línguas e tal. Isso pra mim é fundamental, não sei, talvez seja romantismo demais no processo criativo. Eu tinha isso com o Magno e com o Kadu. Aprendi também com esse romantismo que nem todas as idéias são boas, ou melhor, quase todas as idéias são ruins e por isso não dá pra se apegar. Quando percebemos que tínhamos afinidades, a gente se comprometeu a nos encontrar, sem obrigação de sair música. Aí definimos que teríamos encontros todas às segundas-feiras. Isso rendeu muitas idéias legais.
E quando acabou?
Pois é. Acabei parando por muito tempo de compor porque criei um certo vício.
Uma dependência química? Quase física?
(risos) Isso mesmo. Uma dependência química/física do negócio.
Em ‘De cada lado’ e ‘Gente do ocidente’ você, de uma forma óbvia, mas genial, mostra uma realidade clara, mas nem sempre perceptível do nosso cotidiano. Você pensou em algo do tipo na hora de compor?
Isso é uma coisa meio louca. Acho que a idéia não partiu de mim sozinho, mas cheguei a pensar nisso, não de forma tão clara. Nós fomos criando e quando chegamos a conclusão, por exemplo, que tudo mesmo é o contrário, existe o doce e o amargo, o sim e o não...
O feio e o bonito...
Exatamente. Essa idéia criou uma coisa fértil e gerou um texto e um argumento dentro da música. Então buscamos dizer aquilo sem ser óbvio e é isso que você acabou de dizer. A gente falou de uma coisa óbvia de uma maneira não óbvia. E o legal é isso: você falar da coisa mais boba do mundo e não falar gratuitamente. Tudo depende do conjunto. Às vezes você cria algo óbvio que beira ao ridículo no refrão, mas que por conta do contexto não fica tão óbvio assim. De repente a melodia é muito complexa e a letra é simples. Eu reflito muito sobre o processo de composição dos outros para aprender com isso. Por exemplo, o Tom Jobim é um cara foda, que tem melodias fantásticas, mas tem letras simples. A bossa nova é muito simples. ‘Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça’ (batuca na mesa)... as letras chegam a ser ridículas. Eu reconheço a simplicidade das coisas e vejo que o simples é lindo e também não é fácil de chegar. Nós temos muitas idéias e acabamos fazendo uma coisa muito complexa e falamos: Nó!! Fantástico!! Arregacei!! A melodia ótima, mas é preciso de um dicionário para entender a letra e interpretá-la. O complexo, às vezes, é ignorante.
‘No ciclo’ e na última estrofe de ‘Gente do ocidente’ você brinca em inverter orações e palavras. Existe uma explicação ou resume-se em buscar rimas?
No ciclo foi o seguinte: eu estava na montanha, na Serra do Cipó com o violão, quando dei conta já estava compondo algo que dizia do ciclo das coisas, que tudo tem um ciclo, tem uma necessidade. Isso é até engraçado porque não consigo fazer uma música de um tema específico, sabe? Por exemplo, vamos fazer uma música sobre esse copo azul (aponta para um copo na mesa)... não rola, cara! Eu viajo demais e abstração é um lugar pra mim, sempre! Então, nesse dia eu comecei a pensar nisso, ter um tema, mas comecei a viajar total. Na metade da letra eu tive que voltar para Belo Horizonte. Numa dessas segundas-feiras, cheguei e mostrei para todos. A turma gostou e a gente começou a tentar terminar. Nó! Deu muito trabalho. Até que o Magno pensou em fazer uma mistureba e repetir as mesmas palavras em locais diferentes. Trocamos tudo de ordem e o mais louco é que tudo faz sentido mesmo assim. Alteramos a ordem do trator e isso não alterou o viaduto (risos).
‘Pedro vai...’ é um resumo da sua autobiografia futura?
Não. Nem futuro, nem passado. Foi doideira do Magno. Nós íamos nos encontrar na segunda, como sempre, e no sábado ele me ligou e disse: ‘Pedrão, to com uma idéia aqui. Quero fazer uma música que o título é: Pedro vai...’. Eu comecei a rir. Ele começou a explicar e eu fiquei rachando de rir. Nada a ver, música que fala sobre mim, ocê tá doido? Aí ele disse: ‘ocê acha que tive essa idéia por sua causa? Cê acha que é docê que estou falando?’ Aí ele disse que queria falar de um cara que saiu da sua cidadezinha e que se eu me identificava com aquilo o problema era meu (risos). O Magno escreveu a primeira parte e descreveu a vida de qualquer um que sai da cidade pequena... pode ser um João, uma Maria e tal. Ficou poético e muito legal.
Você acha que não é difícil para as pessoas não associar?
Nó! É fácil demais associar. Eu me chamo Pedro, a música chama Pedro vai... (risos) e eu assino ainda a canção. É foda porque o povo deve achar que eu me acho (risos). O povo deve pensar: ‘o cara se acha demais. Fez uma música falando sobre ele e tal’. No fundo, no fundo, o Magno teve uma idéia de meio que me homenagear... (risos) ele racharia de rir se ouvisse isso... mas como eu participei da composição eu me sinto menos homenageado e isso é bom porque não alimenta o ego.
‘Cada vez mais perto’ é um outro capítulo dessa biografia?
Aí seria demais (risos). Não, a música descreve um pensamento de alguém para o futuro. Estamos cada vez mais perto. Só que cada vez mais perto e parando aí, dá possibilidade para zilhões de coisas. Podemos estar cada vez mais perto da loucura, do abismo, da riqueza, da felicidade, da espiritualidade e nãnãnã.
Discutir letras musicais sempre me remete para uma pergunta: você acha que as pessoas que escutam Pedro Morais nesse momento recebem esses recados?
Não, cara. Infelizmente.
Por quê?
Porque não é todo mundo que consegue abstrair tudo que queremos dizer. Tem também o lance de sermos muito românticos, de querer descrever dentro de uma letra curta muita coisa que no mesmo tempo que não cabe, está, de certa forma, dentro. É uma coisa meio doida. Mesmo assim, algumas poucas pessoas conseguem.
Entrevista publicada no blog Mascando Clichê. Conheçam: http://mascandocliche.zip.net
Leandro, pergunte ao moço se ele libera alguma faixa dele aqui para o banco de cultura do site. Afinal, não custa nada e divulga o cancioneiro dele.
Abraço,
Senti falta disso também. Pensei em linkar o site dele, mas ainda está no processo de construção. Vou perguntar sim para o Pedro. Se ele permitir, vou colocar algumas faixas...
Obrigado pela dica, Edson. Abraço
A pedidos... pra quem interessar em conhecer o som do Pedro, clique aqui: http://www.overmundo.com.br/banco/e-o-que-for-ja-e
Abraços, Léo.
É isso aí! Já tem minha música "E o que for já é" e, em breve, meu produtor estará disponibilizando todas as músicas do meu CD.
Obrigado por todos os comentários!
Vamos lá...
Pedro Morais
fiquei curioso pra ouvir "pedro vai..."
Guilherme Mattoso · Niterói, RJ 4/10/2006 12:45
Pois é... vou pedir para o produtor do Pedro adiantar essas músicas aqui...
Abraço Matosso
Gente, todas as músicas do CD podem ser ouvidas no site http://www.caradecaneca.com.br/. O CD está a venda no Submarino.
Vale à pena!
Pessoal, e a agenda de Shows do rapaz? Alguém pode fornecer? Faz um tempo que não tenho notícias dele aqui! Pedro Morais é a maior revelação da música mineira! E olha que na música mineira temos nomes como Fernando Brant, Toninho Horta, Clara Nunes, Milton Nascimento, Wilson Sideral, Samuel Rosa, Beto Guedes entre outros grandes nomes!
Gleidson Araújo · Belo Horizonte, MG 5/4/2007 14:50Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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