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29 de Outubro, o Dia da Independência.

Cury
Quanto vale sua escrita, Arturo Bandini?
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Cury · Salvador, BA
17/11/2008 · 111 · 2
 

O segmento artista independente começou a atingir o universo popular, de forma independente, a partir dos anos 90, com a música. Você compõe, você grava, você produz a foto, você leva pro jornal... As gravadoras investiam cada vez menos. Mudando de segmento artístico, com o advento da informática somado à internet, um outro artista independente passou a atingir o universo popular, também agindo de forma independente: o escritor. Você escreve, você toma aula de I Design, você edita, manda pra gráfica, imprime e vende seu livro.

Fui chamado para uma reunião com alguns representantes dos segmentos da indústria do livro: editores, escritores, distribuidores e livreiros. Este encontro seria mediado por Márcio Meirelles, secretário da cultura do Estado da Bahia. O debate seria para justamente iniciar um diálogo entre as partes, para buscar as interseções e as idéias que poderiam ajudar a impulsionar o interesse pelo livro, especialmente o livro baiano e do autor baiano.

O secretário começou falando de uma viagem que acabara de fazer pra Argentina, para um encontro sobre literatura, em que ele disse ter ficado envergonhado com os números do Brasil e, sobretudo, da Bahia. Falou do baixo número de vendas, de publicações, de editoras e de bibliotecas, principalmente quando comparados a outros estados do Brasil como Pernambuco e Rio Grande do Sul. Em seguida, iniciou o debate.

Uns começaram falando que os problemas se iniciam com a não-existência de uma gráfica em Salvador que possa imprimir um livro, com qualidade e prazo, pois, por conta da falta de demanda de livros, todos os trabalhos das gráficas, no decorrer dos anos, foram voltados para o segmento da publicidade. As gráficas daqui fazem de tudo: cartões de visita, banners, folhetos, panfletos, cartazes, painéis, outdoors, folders e o que ocorrer, só não sabem fazer livros, pelo menos, não com a combinação prazo/qualidade. Se você quiser fazer um livro na Bahia, ele até vai ficar bom, mas se você tiver com pressa, vai ter de fazer fora daqui. Pra ter o livro em tempo hábil, essa coisa incrível, é preciso pagar mais, entrando assim no ciclo, ciclo esse que não sei onde começa, se é na educação ineficiente do nosso país, na falta de bibliotecas, na falta de editoras porque não tem leitor, ou na falta de leitor porque não tem editora, mas que faz o preço final do livro ser alto no Brasil, o que é ruim para todos que estavam ali, escritores, editores, distribuidores, livreiros, e para mais um que não estava lá, o leitor.
O que mais deixa a coisa sem nexo é que alguns dos impostos para a confecção de livros foram exonerados no Brasil e, ainda assim, o preço deles é elevado. O escritor reclama do preço que o editor cobra, que reclama do preço que o distribuidor cobra, que reclama do preço que a livraria cobra, que reclama do preço que o shopping center cobra...

O valor do livro é realmente relativo. É o preço da idéia e do conteúdo versus o preço do objeto em si, do custo do papel, da máquina e da tinta; tudo isso versus o preço do trabalho dos editores e distribuidores; e tudo isso versus o público.

Mudei de apartamento e no arrumar das caixas, avaliei que alguns livros que eu tinha poderiam ser vendidos. Nunca negociei com um sebo, a não ser como consumidor. Enchi uma caixa com uns 50 livros, de todos os gostos, formatos, tipos de papel e fui. Tinha de Código da Vinci a uma gramática de Pedro Luft. Calculei que iria levar uns 400 reais na jogada. Todos em ótimo estado de conservação.
Fui em um sebo na Av. Sete de Setembro. Um dos maiores sebos da Bahia. A quantidade de livros é absurda. A de ácaros também. Dei um espirro e procurei algum funcionário para iniciar a negociação. Ele começou bem. Fez um discurso ensaiado sobre o sebo, como eram as negociações e perguntou se alguma vez eu já tinha vendido livros. Fiquei naquele momento de “digo sim ou não? Digo sim ou não?”, mas achei que ele ia perceber se eu dissesse que sim. Ele realmente começou a negociação com propriedade de quem conhecia o assunto, me colocando como um simples amador.
– Não, é minha primeira vez – disse eu, enfraquecido.
– Então, quanto você acha que valem todos esses livros?
– Rapaz... – fiquei olhando pra caixa, vendo aqueles livros, muitos que nem li e arrisquei: – Trezentos e cinqüenta.
Ele deu uma risadinha escrota e me perguntou quanto eu achava que valia o Código da Vinci.
– Uns 25 – disse eu.
– Pois eu vendo ele por 15 reais; me acompanhe.
O acompanhei até um armário onde tinha, eu contei, dezoito Código da Vinci.
“Dezoito: 1 + 8 = 9, um número cabalístico”, diria Dan Brown.
Saí de lá com trezentos reais a menos do que pedi.

Enquanto isso, na Sala de Cultura, os editores reclamavam, os livreiros reclamavam, os distribuidores reclamavam, os escritores reclamavam, eu reclamava...
Apesar de ter uma lista com a ordem de quem teria a palavra – era só pedir a vez –, muitos pegavam o microfone em sua frente e saiam cortando os assuntos e as pessoas, na ansiedade de contar o seu caso, a sua vivência e a sua perspicácia perante a vida. Deveriam fazer isso nos livros ou esperar pacientemente a sua vez de falar. No seu livro, tudo bem, a vez é sempre sua. Em um certo momento, essas interrupções geraram irritação e indiretas. Não conseguíamos nos comunicar usando a palavra falada.

Apesar do entrave comunicativo, algumas boas idéias foram colocadas e foram entusiasticamente consideradas pelo secretário. Uma delas é a de negociar com os Correios para o barateamento no envio de livros. Livro pesa e isso torna caro o seu transporte e diminui a sua circulação. Uma vez, um cara de Florianópolis queria comprar meu livro, mas quando soube o preço do frete, disse que iria esperar eu aparecer em Santa Catarina.

Para difundir o trabalho do autor baiano, surgiu também a idéia de o Estado comprar X exemplares e distribuir pelas bibliotecas e escolas públicas da Bahia, “como parece que é feito no Rio Grande do Sul”, disse alguém, em algum microfone da mesa redonda.

Outra importante questão colocada, foi em relação ao descaso com que as grandes livrarias tratam os livros dos autores locais. Em suas magnânimas prateleiras, estes livros – acredito que isso seja em qualquer lugar do país – estão sempre no fundo, escondidos, literalmente no underground.

No fim da reunião, o secretário disse ao seu assessor:
– Anote aí: Hoje, 29 de outubro...
Alguém então comentou:
– Ih, hoje é o dia nacional do livro.
– Sério?! –perguntaram e exclamaram todos ali, ao mesmo tempo.


_________________


Segue uma conversa que tive com dois novos autores baianos. Um chama-se Ismar Nascimento, que no gênero haikai é leitor de Carlos Verçosa, que é pai de uma ex-colega de escola sua, Millôr Fernandes, Paulo Leminski e os japoneses Bashô e Issa. Escreveu, editou, imprimiu e lançou o seu livro de haikais chamado Poesia Minuto.

O outro é Victor Mascarenhas, influenciado pelos escritores Nelson Rodrigues, Pedro Juan Gutierrez, Rubem Fonseca, o cineasta Woody Allen, o desenhista Angeli, a banda Rolling Stone, o herói gaulês Asterix, o herói americano Batman, entre outros, que, apesar de ter sido agraciado com o Prêmio Braskem – não tendo assim o custo da confecção –, faz a divulgação e distribuição do seu Cafeína de forma independente.

– Ismar, quais as vantagens de ser um escritor independente?

Liberdade de escrever o que eu quiser. Escrevi, há 4 anos, um livro de poemas surreais, absurdos, que dificilmente (eu acho) seriam publicados por alguma editora ou ganharia algum concurso para publicação. Essa é a vantagem de sermos independentes: tocar nossos projetos adiante.

Pelo fato de o independente estar no corpo a corpo com todos os setores do mercado, conte algum caso entre você e um leitor, entre você e um livreiro ou você e um jornalista.

Bom, houve um leitor, acho que o nome dele é Dejair, que ao ler um dos meus haikais “sou um ser/ bastante indeciso/eu acho”, teve uma crise de risos, pulou, rolou uma identificação bacana. Quanto aos livreiros, quero ressaltar a indiferença com que muitas vezes nós, novos autores, somos recebidos nas livrarias. Os caras não entendem, ou são limitados o bastante pra não entender, o simbolismo político (apartidário) de se publicar um livro no Brasil, um país de analfabetos totais e funcionais.

O que você espera com o seu livro?

A princípio, só quero escrever, sem esperar nada, algo bem despretensioso. Porém, o haikai é uma boa oportunidade de mostrar a poesia como algo simples, que pode ser lido rápido, sem recorrer a um dicionário. Afinal, o que vale é a sensação, a mensagem, e não a retórica tão característica dos escritores/poetas brasileiros, com seus “outrossins” e mesóclises. O gratificante pra mim é ver que alguns leitores se arriscaram a criar haikais também, ou seja, eles perceberam a poesia como algo acessível, e não um privilégio de poucos intelectuais. Afinal, poesia tá no dia a dia.

Fale sobre o que quiser em relação a esse trabalho de escrever e vender o livro.

Bom, pude escrever o livro sem pressa. Há poemas que datam de dois anos atrás. Também, houve outros escritos e selecionados aos 45 do segundo tempo, na semana em que estávamos diagramando. Teve haikai escrito na varanda da minha casa, enquanto outros foram pensados ao som de um rio na Chapada Diamantina ou sob a sombra de um coqueiro em Itapuã. Gosto de vender o livro pessoalmente, pois entro em contato direto com as pessoas.

–Victor, quais as vantagens de ser independente?

Ter liberdade de criação absoluta, menos pressão em termos de prazo e a possibilidade de mandar todos à merda sem sofrer nenhuma conseqüência.

Pelo fato de o independente estar no corpo a corpo com todos os setores do mercado, conte algum caso entre você e um leitor, entre você e um livreiro ou você e um jornalista.

Com leitor teve vários. Tem um que me mandou um e-mail dizendo que adorou o livro, mas teve que parar de ler porque ficava deprimido sempre que lia. Uma leitora disse que chorou horrores e me ligou agradecendo!
Com jornalistas o que mais me chama atenção é que eles me entrevistam, perguntam mil coisas e sempre publicam o release! Teve uma vez, dando uma entrevista para uma rádio, que o cara me fez a clássica pergunta: "o livro é biográfico?", aí eu disse que sim, que tem um conto com uma prostituta e um vendedor de cafezinho, que ela troca seus serviços por um café. Aí o cara me perguntou se eu era o vendedor e eu disse que não, que era a puta! Ele achou que eu tava gozando a cara dele, mas era a mais pura verdade, aí, pra piorar ainda disse que todos nós, quando fazemos concessões em troca de grana, somos meio prostituas e perguntei se com ele não era assim. O cara gaguejou e respondeu: "abafa o caso".

O que você espera com o seu livro?

Espero ser lido pelo maior número de pessoas possível e que isso seja prazeroso e importante para o leitor. Espero também que a obra se desdobre em outras mídias, como o cinema e o teatro. Para isso, já fiz a adaptação para roteiro e para peça teatral de alguns contos e disponibilizei na internet. Espero que alguém se interesse. Além disso, quero que o livro seja o primeiro de vários outros, de preferência que saiam em uma editora nacional, que posa garantir a distribuição em todo o país.

Fale sobre o que quiser em relação a esse trabalho de escrever e vender o livro.

É muito complicado, muito mesmo. Mas é gratificante quando um leitor que você nem conhece, mesmo com toda dificuldade de encontrar seu livro vendendo por aí, acha um exemplar e diz que leu e gostou. Faz tão bem que dá até força para agüentar as agruras de lidar com donos de livraria, vendedores e burocratas da secretaria da fazenda...



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Jorge Daher
 

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Jorge Daher · Ribeirão Preto, SP 16/11/2008 14:03
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Marcelo Cabral
 

Cury, demais o texto e as entrevistas.

"...ciclo esse que não sei onde começa, se é na educação ineficiente do nosso país, na falta de bibliotecas, na falta de editoras porque não tem leitor, ou na falta de leitor porque não tem editora, mas que faz o preço final do livro ser alto no Brasil, o que é ruim para todos que estavam ali, escritores, editores, distribuidores, livreiros, e para mais um que não estava lá, o leitor."

Muito bom. Até mais.
Abraço

Marcelo Cabral · Maceió, AL 18/11/2008 11:59
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