Esta crônica estava para ser escrita desde aquela novela da Globo, Caminho das Índias, uma fábula que fala de um país inexistente, calcada mais nas figuras das mulheres indianas com seus saris coloridos, ou possivelmente em histórias da carochinha do tempo dos marajás, pois a Índia verdadeira está
no corpo despedaçado de uma criança, em meio ao lixo, disputado por cães famintos, imagem descrita por um missionário nas páginas de Eternity, uma publicação mensal editada por Australian Christian Pty Ltd. Esta cena dos cães disputando as carnes da menina morta está longe de ser o que a tal novela mostrou a respeito da Índia, um país que tem pouquíssimo a ver com os gurus propagados no mundo ocidental pelo ex-Beatle George Harrison, idolatrados por uma geração alienada, a tal turma da bolsa de couro a tiracolo, barbicha, unhas roídas, vestidos longos, sandálias e fumacinhas bolivianas, com muita ''paz e amor''. É uma imagem chocante, capaz de provocar lágrimas de emoção e repulsa aos corações ainda não corrompidos pela insensibilidade frente ao sofrimento alheio. Mas, perguntarão alguns leitores - teria, porventura, aquela criança morrido em consequência de alguma bomba, em meio a um dos rotineiros conflitos armados que tanto sofrimento inflingem a nações da Ásia, Oriente Médio ou África ?
Pior, muito pior, pois aquele pequeno cadáver pertencia a uma menina classificada como ''intocável'' pelo absurdo e inconcebível regime de castas da religião hindu. Entre os seguidores do Hinduismo, totalizando mais do que oitenta por cento da população da Índia, as pessoas são distribuídas por castas segundo complicados critérios que associam religião e situação financeira, formando uma pirâmide onde poucos têm lugar garantido em seu topo, enquanto que em sua base vivem milhões desses denominados intocáveis, sem direito à educação, trabalho digno, água potável, terra ou casa, e sujeitos à escravidão, frequentes maus tratos e assassinatos violentos. A situação física e moral desses infelizes indianos não é de modo algum equivalente à enfrentada pelas camadas paupérrimas de qualquer outro país, pois estes últimos são vítimas de um sistema capitalista cruel, mas de modo algum radicalmente excluídos do convívio social em razão de fanatismo religioso, é bom dizer desde já. Ocupantes de algumas castas superiores chegam ao requinte de evitar pôr os pés sobre a sombra de algum intocável, pois isso seria um ato abominável perante o Hinduismo, eis que estariam se poluindo como se pisassem em matérias abjetas. O regime de castas é apenas um dos muitos exemplos do atraso cultural em que vive a Índia, situação que se expandiu, tal qual a explosão de um tumor purulento, a partir da saída do país do domínio inglês ocorrida em 1947; não que a até então qualidade de integrante do império britânico desse à Índia um melhor status econômico, financeiro, educacional e social perante as demais nações, mas simplesmente porque tendo expulsado de seu território quase a totalidade dos indianos seguidores do islamismo, os quais formaram o Paquistão e Bangladesh, o país rendeu-se ao que de pior pode existir em matéria de obscurantismo, imundície e fanatismo religioso.
Impõe-se aqui um parêntesis necessário a respeito dos muçulmanos, pois não existem dúvidas de que os milhões de fiéis ao profeta Maomé têm carregado sobre seus ombros o ônus dos atos terroristas praticados por radicais islamistas em várias partes do mundo, e tais fatos contribuiram para um nivelamento por baixo de todos os muçulmanos, adotado pelo mundo ocidental a partir do atentado às torres gêmeas de Nova Iorque. Mas se estamos falando a partir do aspecto religioso, não há como comparar a crença religiosa dos maometanos, também crentes no mesmo deus dos cristãos, embora divergentes quanto à sua não-aceitação de Jesus Cristo como o filho de Deus, com o Hinduismo e suas centenas de deuses e práticas discriminatórias e abjetas como é a divisão de seres humanos em castas, sem falar na absoluta proibição do consumo de carne de gado vacum para uma população condenada à mais abominável subnutrição, estado de saúde agravado ainda mais entre os habitantes das regiões situadas às margens do Rio Ganges, em cujas águas pútridas e infestadas de cadáveres em decomposição as pessoas tomam seus banhos de ''purificação''.
A novela Caminho das Índias, já sepultada e esquecida, foi mais uma das muitas doses de alienação ministrada a uma imensa camada de telespectadores brasileiros pela TV Globo. Espero que, em outra fantasiosa invenção sobre o mesmo país, não apareça um Gandhi morando em apartamento com cozinha e, principalmente, banheiro.
Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
A Revista Overmundo está chegando ao fim de sua primeira temporada e você não pode perder a oportunidade de colaborar! A edição nº 6 da revista,... +leia
Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!
+conheça agora
No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!