A alegria como um ato de resistência

Divulgação
Itáercio Rocha em um momento do espetáculo
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Adriane · Curitiba, PR
27/5/2007 · 366 · 9
 

Coco, samba de roda, maracatu de baque solto, maracatu de baque virado, cacuriá, caboclinho. Foi-se o tempo em que os curitibanos não tinham familiaridade alguma com esse palavreado da cultura popular brasileira. Ao longo da última década algo aconteceu. A magia colorida desse rico universo conseguiu quebrar o gelo tido como típico do comportamento curitibano. Hoje em dia os cortejos pelo calçadão da Rua XV de Novembro, promovidos pelo grupo Boizinho Faceiro, são na companhia de fãs animados. Até um aquecimento para o carnaval – outra manifestação que luta para não morrer na cidade – tem adeptos eufóricos nos dias que precedem a folia, sob o comando do grupo Mundaréu.
Parece que foi quando a saudade dos que vieram de longe bateu - e eles invadiram as ruas com a alegria dos festejos - que a mágica se deu, abrindo mentes e corações para o fascínio dessas manifestações. E não há possibilidade de falar dessa mudança de comportamento em Curitiba sem passar pelo nome do maranhense Itaércio Rocha. Ele não foi o único responsável, claro, mas foi e é fundamental.

Desde 1996 ele faz parte do Grupo Mundaréu, que está comemorando os primeiros dez anos. “Pode parecer piegas, mas são palavras como saudade, paixão, busca por identidade, enquanto formas de resistência diante da necessidade de sobreviver, que provocaram a mudança”, diz ele.
Sobre Curitiba – e o Paraná – se aprendeu que foi construída por poloneses, japoneses, italianos, ucranianos, sem que ao lado deles fosse citada a importância das culturas indígena e negra. Culturas essas que foram suprimidas em sucessivos “projetos de higienização da raça”, desenvolvidos no final dos século retrasado no Brasil. Aqui isso foi tão forte a ponto de fazer com que essas comunidades ainda hoje tenham que lutar para se tornar mais visíveis. Uma falta que bateu fundo no peito do maranhense quando aqui chegou. “Faltava o batuque e eu tinha necessidade de exercitar a questão do jogo coletivo. Uma necessidade de exercitar a alegria como um ato de resistência”, conta.

Foi com esta disposição que ele tirou de cena a sisudez e a rigidez. Trocou o mecanismo da tristeza, que serve à opressão e imobiliza a vida, pelo poder do riso festivo e ritmado. Itaércio lembra que sua primeira apresentação foi sozinho, na Feirinha do Largo da Ordem, por volta de 1984. “Foi estranho: pessoas há 4 metros de distância e ninguém que me olhasse nos olhos”. Aos poucos uma roda se formou reunindo bonequeiros e músicos e os “exercícios” ficaram mais e mais freqüentes. Entre 85 e 95 ele esteve em Maringá - cidade no norte paranaense, onde promoveu rodas junto com o pessoal do grupo Pau de Fita – e Rio de Janeiro. Quando voltou recebeu o convite para entrar no Mundaréu. “Encontrei o Nélio, Mauricy, Pedro, Daniela Gramanni numa roda de cacuriá”, lembra, citando os demais integrantes do Mundaréu na época. Isso tudo só aconteceu, acredita ele, porque existia aqui uma memória da alegria como fonte de resistência. “Se não houvesse essa lembrança, nada teria sido feito e eu teria desistido. Houve este estímulo, fruto da necessidade de reagir, de resistir - e isso não é invenção minha”.

Um novo curitibano
Para Itaércio é certo que, quando se desenha um curitibano frio, arredio, distante de sua própria cultura popular, se fala, na verdade, do cidadão classe média alta. “Esquecem do povo da região metropolitana, dos bairros, do tanto de terreiros de candomblé que existem nesta cidade, das escolas de samba. Tem gente que ainda diz que isso não é 'coisa de curitibano'. Mas, é sim. Vem da classe pobre brasileira como um todo, que produz sua própria arte em qualquer lugar do país que esteja”, pontua. Se o paranaense não tivesse essa paixão pelo fandango, pela Congada da Lapa, eles não teriam dado a virada que deram, segue em seus argumentos, Itaércio. A Congada da Lapa, lembra, ficou parada por 17 anos, reprimida uma vida inteira, até a década de 30, pois as pessoas não podiam se juntar na rua para conversar. O Fandango ficava acuado, só executado dentro das casas e entre familiares; as Carvalhadas de Guarapuava foram esquecidas por quase 20 anos. “Algumas manifestações sucumbiram, mas mesmo assim são muitos os grupos que resistem e sobreviveram a perseguições.”, diz, citando ainda as Festas de São Gonçalo, as Juninas, as religiosas em geral, os autos-natalinos. “E agora tem toda essa cultura quilombola sendo descoberta. São mais de 80 quilombolas num estado que se propagou como sendo totalmente branco, europeu”, pontua.

É evidente que Itaércio é completamente apaixonado por isso tudo e encontrou outros apaixonados também. “Se pensava que nada existia e, de repente se (re) descobre a Ilha de Valadares, a Família Pereira, Eugênio, mestre Romão. Eles estavam lá fazendo, com seu conhecimento, essa roda girar e chegar aqui, onde estamos”, diz citando alguns dos nomes-referência do Fandango paranaense.

Academia
Seu entusiasmo tem razão de ser. Agora, o tempo todo se tem notícias de novos grupos nascendo e de pesquisas caminhando nas universidades e até editais públicos de apoio a essas manifestações estão acontecendo. “Foi uma quarentena prolongada, estavam hibernando para ressurgir no momento exato e dar essa resposta”, celebra Itaércio. Para ele, todos esses grupos que trabalham com cultura popular vindas princialmente do Norte e Nordeste brasileiros trazem um campo simbólico de referências paranaenses. “Muitos acham que o Mundaréu faz espetáculo de cultura nordestina, mas não concordo. Ao fazer ciranda, coco, maracatu esses grupos todos trazem a essência paranaense. É verdade que falta ainda se aproximar mais do que acontece no interior do Paraná, para podermos amalgamar toda essa carga que veio do Japão, Itália, Alemanha, Ucrânia. Se formos atentos vamos ver que o paranaense está misturando culturas populares – e isso é muito moderno”, observa ele, que conseguiu nos finais de semana que antecedem o carnaval reunir mais gente que os desfiles das escolas de samba, sem apoio oficial, sem divulgação na mídia. Só que a festinha para os amigos virou mania. “Prefiro pensar que a cidade é que me acolheu porque percebeu em mim a necessidade que ela tinha, também”. É uma via de duas mãos, então, pergunto? "Duas, apenas", rebate ele, incrédulo, diante da minha falta de percepção. “São 252 vias e meia”. No mínimo.

Boizinho sai faceiro com seu maracatú pelo calçadão
O Boizinho Faceiro é bem mais novo que o Mundaréu, nasceu em 2002, mas já está gerando outros grupos. Tudo começou quando com Luciano Fagundes, 23 anos, reuniu um pessoal para ensinar maracatú e caboclinho e as aulas viraram brincadeiras na rua. Nos primeiros cortejos a platéia era reticente. Ninguém se aproximava, ficavam olhando de longe. Na primeira vez que o Boizinho convidou o pessoal para uma ciranda viu as cerca de 400 pessoas que o assistiam praticamente sumirem. Hoje em dia, Luciano se impressiona com a mudança de comportamento. “Essa coisa da brincadeira, da festa, a percussão são muito fortes”, comenta. Ele, que é curitibano, concorda que a cultura popular paranaense ainda fica um pouco à margem, porque a nordestina está mais na vitrine. “As pessoas tem mais acesso. Eu mesmo confesso que conheço pouco ainda das manifestações do Paraná. Já vi algumas e o Fandango é algo maravilhoso, mas noto que isso tudo ainda está meio longe do olhar das pessoas daqui”, comenta.

Porém, ele acredita piamente que é só questão de tempo. “Tem algo muito claro acontecendo, as pessoas estão começando a reconhecer nessas manifestação sua própria identidade cultural”. Fagundes diz que ainda tem muita gente que vê a cultura popular como sinônimo de Folclore, dentro de um conceito estático. “Quando nos aproximamos é possível ver claramente que é algo muito vivo, em transformação”, avalia ele, que é sobrinho de Antônio Nóbrega, e no momento se divide entre Curitiba e São Paulo, onde trabalha com o tio.

Garoto de cidade grande, puxa pela memória uma fala de Ariano Suassuna na tentativa de exprimir seu encantamento por este universo. “Suassuna diz que aquelas lantejoulas e vidrilhos que eles usam para a economia são falsas, mas do ponto de vista do povo brasileiro são verdadeiras riquezas, porque ali existe uma quantidade maior de sonhos humanos”. E fica emocionado quando lembra as primeiras vivências. “Eu estava em um terreiro em Olinda e não sabia o que fazer. De repente ouvi um chocalho, e o som foi aumentando. Quando me dei conta estava no meio de uma roda e vários caboclos fazendo manobras coreográficas ao meu redor. Fiquei deslumbrado sem saber o que era aquilo. Foi a primeira vez que vi uma sambada de maracatu rural pelos próprios brincantes”, diz o rapaz, com voz ainda embriagada pela força da lembrança que nunca mais o deixou.

Serviço:
www.mundareu.com.br
www.boizinhofaceiro.com.br

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maramarina
 

Amei demais. Que bom que aí tb tem estas coisinhas lindas. E achei super interessante a fala do Luciano sobre as pessoas colocarem estas manifesações como folclore, algo estático. O que este pessaol faz é vivo, uma cultura que existe e, se os deuses, santos, orixás e homens permitirem, vai continuar existindo.

Mandei um recado pra ti sobre algumas coisitas pra edição, tá?

Bjo e parabéns.

maramarina · Aracaju, SE 23/5/2007 16:52
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maramarina
 

Ah, pq vc não faz uns links principalmente para explicar algumas das manifestações, pq deve ter gente que não faz idéia do que é, né?

bj

maramarina · Aracaju, SE 23/5/2007 16:55
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Adriane
 

oi mara, legal que vc curtiu. obrigada pelos toques a respeito dos erros de digitação. é fogo, mas quando a gente fica muito em cima de um texto, acaba "lendo" os erros ssem se tocar deles. estou providenciando as correções. valeu, mesmo. abço.

Adriane · Curitiba, PR 23/5/2007 20:15
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Marcelo V.
 

Boa matéria, parabéns.

Marcelo V. · São Paulo, SP 27/5/2007 16:57
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Clara Bóia
 

Olá Adriane.
Fiquei conhecendo o trabalho do pessoal do Mundaréu através de uma amiga de Curitiba que veio morar em Blumenau.
Bem interessante o fato de que eles misturam ritmos nordestinos com a cultura local. Aliás, fica até difícil saber o que é a "cultura local" nos dias de hoje :) A cultura local, no final das contas, é a cultura de todos os locais.
Um abraço e parabéns pela matéria.

Clara Bóia · Blumenau, SC 28/5/2007 12:13
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Spírito Santo
 

Adriane,
Linda a sua matéria! Linda e essencial. Só fiquei curioso de ver uma foto do Itaércio Rocha. Deve ser um figuraça.
Parabéns e
Abs,

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 28/5/2007 16:12
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Ali Assumpção
 

ah! epa! eu sou a tal amiga da Clara Bóia (comentário acima)
e é também alegria, a paixão, a saudade ( de mundaréu, de boizinho e tantas outras coisas boas q vivi em curitiba), que têm me feito buscar aqui em Blumenau, caminhos e alternativas parecidas. Tem um pessoal bem bacana aqui, vide Pochyua e o Cambaçu - Ritmo e poesia brasileiros e o site www.pochyuaecambacu.mus.br
obrigada adriane pelo material postado! me fez matar saudades gostosas!

Ali Assumpção · Blumenau, SC 29/5/2007 17:57
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FILIPE MAMEDE
 

Matéria muito bacana. A ilustração ficou muito boa. Um abraço.

FILIPE MAMEDE · Natal, RN 30/5/2007 11:43
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Silvia Araújo Motta
 

Folclore deveria ser matéria obrigatória na grade curricular...não acha? Excelente divulgação. Parabéns!

Silvia Araújo Motta · Belo Horizonte, MG 29/11/2016 11:55
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