Vellozia é nome de planta. Popularmente conhecida como canela-de-ema esta planta alonga-se em uma haste que lembra mesmo a ave pernalta do cerrado, parecida com avestruz. Mas a beleza da vellozia está mesmo na flor lilás e na sonoridade da palavra. Esqueçamos a etimologia e os dicionários. Que palavra soberba, linda e perfeita! Na ausência de uma palavra mais apropriada, digo que sempre fui voyeuse de palavras, "com todos os sentidos", anotem bem! Embora a forma escrita, a grafia mesmo, encerre belezas dignas de ver no papel, não é a visão o sentido que as palavras mais capturam.
Aprecio muito o jogo de palavras performático dos concretistas, a perfeição minimalista dos hai-kais e mesmo os grafites de muro, estes sim, de grande apelo visual. Alguns muros das minhas descobertas na fervida década de 80 continuam pulsando com grafitos que nunca esqueci. Registrei uns em fotografias e outros guardo na memória emocional de 1985, o ano do espelho e da intimidade escrita. Nessa época também li o ABC da Literatura, de Ezra Pound, em que o autor debruça sobre o processo de construção do texto, com uma atenção especial aos cortes de palavras que não funcionam. É a depuração do texto com o sacrifício de palavras que vieram num momento de tempestade criativa e depois têm de ser dispensadas na enxurrada das idéias que não vingam na escrita.
Esse negócio de firmar compromisso com a palavra é coisa séria. Para esse trajeto entre idéias, impulsos, inspiração e transpiração verbal até chegar à escrita há de se ter uma boa peneira de lucidez e senso crítico, e também muita coragem para os cortes necessários ou as extravagâncias e excentricidades. Lá se vão muitos anos da leitura de Pound, mas lembro que gostei demais do seu passeio pela linguagem ideográfica dos orientais.
Fico perplexa com o silêncio de uma leitura do mundo que perde a sonoridade fonética, o corpo e a beleza das palavras, independente do sentido. Além da flor, que belezas outras veria em vellozia num correspondente ideograma? Continuemos esquecidos de dicionário. Vellozia, tanto na grafia quanto na sonoridade, sussurra nos meus ouvidos e se desgruda da minha vista como uma rajada de vento nos descampados do cerrado. Chego a apalpar o seu sentido na vulgar canela-de-ema, a pernalta que é a mais veloz de nossas campinas...
E existem palavras que são arrogantes, fecham com fúria e desprezo o dicionário. Esta lição aprendi com um sensível homem de letra que garimpava palavras na natureza, por isso talvez tenha entendido tão bem a essência ou a alma das palavras. É que palavra tem alma e muitas vezes esta alma não está incorporada no verbete. E foi uma lição tão casual, num bate-papo de corredor na redação do Diário da Manhã, numa daquelas manhãs de 1986 ou 1987 em que aparecia para entregar a crônica da semana. Mas a lição foi fundamental, pois nunca esqueci.
E não existe melhor forma de se educar do que pelo exemplo. E com aquela sua prosa gostosa e fácil, a mesma que deslizava nas crônicas como um barco na calmaria erma do rio Araguaia em um dia de pescaria, Carmo Bernardes (na década de 80 foi um dos ganhadores do Prêmio Casa das Américas/conto) cativou a minha atenção para a alma das palavras, com uma fisgada certeira.
Pronuncie arrepiar. E depois, com alma: "arrupiar". Meninos, até os pêlos do corpo vêm juntos. Urra! Depois de Carmo só quero amor que me faça arrupiar, em todos os sentidos e com todas as palavras. Ainda ouço sua voz dizer com gosto, saboreando o efeito, fulano arrepia - os pêlos deitados, certinhos, sem vibrar de emoção - e sicrano "arrupêia" - esse todo eriçado, teso, cheio de terminações nervosas desde a raiz da palavra. E esta raiz nem sempre está no dicionário, e que o diga Guimarães Rosa, sempre com seu caderninho anotando nomes de plantas, bichos, lugares e histórias que ouvia nos Gerais. Lembro da aula bate-papo de Carmo e dos gestos didáticos que fazia para acentuar a compreensão, passando a mão nos pêlos do braço.
Aprendi com Carmo a ficar atenta ao "arrupeio" das palavras. E com esta lição corro atrás de palavras como vellozia, que de tão apressadinha chega a dobrar o l e rascar na ponta da língua, quase derrapando, doidinha para ganhar a ventania. Mesmo na forma de flor, ela está ali, ao sabor do vento e dos polinizadores, sempre pedindo movimento. E a palavra vellozia tem uma poesia exposta, sonora e musical, como no miolo da flor, e um sentido de alongamento como as intrépidas canelas de ema nas corridas pelas campinas, uma beleza visual cheirando a irmãos Campos e uma graça de hai-kai. E com tracinhos poderíamos compô-la num ideograma - com todas essas idéias atrás da palavra-imagem - ou deixá-la enigmaticamente sinuosa e cheirando a spray num grafito de muro. Mas prefiro sentí-la vibrando na minha língua, fazendo cócegas nos meus ouvidos e aguçando todos os meus sentidos, com um "arrupeio" carmobernardiano percorrendo os caminhos tortos deste texto. Ah, e vellozia acabou de passar por mim, tirando fino nos meus pêlos. Vellozzzia...
Seu texto faz a gente "arrupiar". E deixa a gente com saudades de Carmo Bernardes.
Tacilda Aquino · Goiânia, GO 15/2/2007 19:15
Cida,
Que saudade de ser provocada em sentimentos de humanidade com as palavras do seu pensamento-expressão de vida. Gostei, em especial : Fico perplexa com o silêncio de uma leitura do mundo que perde a sonoridade fonética, o corpo e a beleza das palavras, independente do sentido. Essa perplexidade é minha também. O mais grave é sentir essa percpção de mundo, sendo passaporte na educação por onde faço a travessia.
Tive que me esconder do prazer de ler seus textos por uns dias na prisão na correção de trabalhos acumulados , acumuladíssimos...
Qualquer dias desses ainda vou traduzir a imagem da flor do Zé Afonso em palavras como fui instigada. As idéias em gestação estão para eclodir.
Bom descanso. Vou ficar dez longe do Overmundo, mergulhada em outros ares, sem o virtual.
Abraços
Cida, elogiar como? Como o texto, comi o texto, devorei a vellozia e a ema e o ermo... e sucumbo à tua qualidade literária.
Abraço.
Cida, seu texto é muito lindo. Vou ficar ainda fazendo download das sensações que ele está provocando.
Alê Barreto · Rio de Janeiro, RJ 17/2/2007 16:59Que bom que gostou Felpe! Sinto-me lisonjeada com o seu entusiaismo. Brigadão.
Cida Almeida · Goiânia, GO 21/2/2007 12:26Alê, obrigada pela leitura e pelo comentário generoso. Que bom que o meu texto provocou essas sensações. Beijo grande!
Cida Almeida · Goiânia, GO 21/2/2007 12:27
E coragem tendo, assumindo por compromisso essa necessária viagem, de baldeação em baldeação, apeei aqui em teu postado e li, reli, treli e me fartei de teus bons bocados.
Não arrupiei, não que não sei bem ainda o que possa ser isso, mas fiquei deveras extasiado.
Modesta que és, não te recomendastes a mim, pensando que fosse eu mais inteligente e aqui já devesse ter estado.
Mas eu aprendo e não me arrependo.
Adorei também as entrevistas de Roth, como já te enviei e-mail dizendo, e de José J. Veiga, de quem ainda não te havia falado. Estou pensando em comprar fumo pra cachimbo e retomar o hábito abandonado, não de monge, que lhe venha à memória, mas de fumante inveterado.
Beijo, guria.
Que beleza de texto, Cida! Tem alma...
Abs.
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