A alma das pedras - passeio pelos becos de Goiás

Cida Almeida
Na visão da ponte do Rio Vermelho a bela Serra Dourada
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Cida Almeida · Goiânia, GO
24/2/2007 · 107 · 6
 


As pedras falam. Só aparentemente calam. As pedras condenam. As pedras explicam. As pedras gritam perguntas além do tempo dos homens presentes e da vida presente, como diria o poeta Carlos Drummond, que encontrou no meio do caminho uma pedra-enigma. A imagem mais forte que queimou (e queima) dentro de mim como um guardado incômodo na alma é a das pedras da Cidade de Goiás.

Impossível andar pelas ladeiras e becos de Goiás, a Vila Boa de Goyaz (antiga capital da Província e do Estado), e não escutar as pedras. Em todas as direções, lá estão elas, as pedras do passado, exigindo mais que a atenção dos nossos passos presentes, às vezes displicentes, quase ausentes ou indiferentes.

Também impossível não ser tocado pela beleza arquitetônica de Goiás, o Patrimônio da Humanidade que é um espetáculo vivo de tradição, arte, cultura, sabores e encantos naturais, uma redoma ancorada na Serra Dourada e no remanso do Rio Vermelho – que faz nossos olhos debruçarem-se sobre a ponte e além dela.

O rio lembra o correr da vida, a febre do ouro do tempo dos bandeirantes e dos tempos modernos. Mas o seu sentido mais perene é o fluir e religar o homem ao sagrado da vida. E as águas fluem como o tempo. As águas lapidam as pedras no leito do rio e o tempo, caprichosamente, a alma dos homens, um relógio natural liqüefazendo-se nas entranhas da gente.

E nunca as pedras de Goiás me tocaram tanto como da última vez que estive na cidade, em maio último, no III Encontro Afro Goiano, promovido pelo Sebrae para incentivar o empreendedorismo nas comunidades afro-descendentes do Estado.

Guardo (e guardarei por muito tempo ainda) deste encontro impressões e imagens fortes das pedras. Do cenário natural da cidade à fala da alma de algumas pessoas, as pedras, uma inquietação profunda, que nem o murmúrio das águas e do tempo tem o poder de apaziguar. O homem sábio, com a beleza de seus ritos e mistérios trazidos de uma África imemorial, no Conselho dos Sábios, também foi invadido pelas pedras que simbolizam um passado de escravidão. Com altivez de rei sem trono, declarou-se o zelador das pedras, as nossas almas desamparadas.

Na textura das pedras um trauma, uma confissão, um choro antigo, vazando ali, no coletivo das pedras e das almas. A dor da mãe ensinando ao filho a trajetória dos braços e do suor dos antepassados que construíram ali, nas artérias da cidade, por onde seguem os nossos passos e nosso sangue de agora, a lição incontestável das pedras de nossa história. Ali, onde ainda arde na fogueira a dor da bisavó queimada viva.

E a voz de trovão do poeta no auditório lotado desperta as pedras do mar subterrâneo de nosso inconsciente coletivo na batida das ondas bravias e revoltadas dos versos de Castro Alves. E Navio Negreiro aporta meio fantasmagórico no ancoradouro de nossas almas, clamando por consciência.

Na calmaria da cidade antiga, becos estreitos das dores de agora, passos lentos equilibrando-se nas pedras, que às vezes parecem movediças, não sei se noite ou se dia o que penso e sinto, o meu silêncio recolhe ao léu estas imagens vulneráveis e humanas: meus olhos espichados além da ponte, no correr eterno do rio; meus passos necessários no silêncio das pedras, que sussurram coisas para dentro das minhas palavras; a altivez de rei destronado nos olhos quentes de João de Abuque, o zelador de almas; o choro de Marta Ivone acordando as pedras; a voz do professor Geraldo Santana sacudindo as pedras do fundo dos porões de nosso imenso e insano Navio Negreiro. Impossível não se arrepiar com os versos: “(...) Senhor Deus dos desgraçados! /Dizei-me vós, Senhor Deus! /Se é loucura... se é verdade/Tanto horror perante os céus?! / Ó mar, por que não apagas/Co'a esponja de tuas vagas/De teu manto este borrão?.../Astros! Noites! Tempestades!/Rolai das imensidades!/Varrei os mares, tufão (...)”.

Sigo as pedras. A esmo erram meus passos, sentidos e pensamentos pelos labirínticos e estreitos becos da cidade no silêncio da noite. Sinto, e é mais que uma lembrança, os olhos tranqüilos e silenciosos de dona Maria Gerci – moradora de uma comunidade quilombola no Nordeste Goiano –, sem ter o que dizer. Serenamente, ela flui como as águas do Rio Vermelho abrindo fendas na eternidade da rocha. E eu sei que é ternura humana que brota do seu olhar.

E não posso esquecer a imagem que está aqui, no fundo da caixinha, os olhos curiosos e alegres de Amandinha, com a esperança de todos os passos dando um balanço nobre à imensa saia rodada, a pequena rainha entre as mães e filhas de santo, toda vestida de branco e nobreza da tradição. Bonito de ver o balé de seus pés sobre as pedras, enquanto brinca, corre e ri. E eu sei que é esperança de vida que brota dos seus movimentos.

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Henrique Araújo - Grupo TR.E.M.A
 

as pedras que se repetem, incomodam e cortam os pés de quem se atreve a palmilhar os becos de goiás também falam dessa história latente, veemente, vinda de tão longe, do continente-berço. um texto bem construído, bonito. e doído.

abraços!

Henrique Araújo - Grupo TR.E.M.A · Fortaleza, CE 22/2/2007 16:17
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Cida Almeida
 

Henrique, obrigada pela leitura e pelo comentário. Realmente, as pedras se repetem, incomodam e cortam os pés e também a alma.

Abraços.

Cida Almeida · Goiânia, GO 23/2/2007 15:33
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Bia Marques
 

pedras fecundas, texto bárbaro!

Bia Marques · Campo Grande, MS 23/2/2007 22:10
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Felipe Obrer
 

Cida, lindo.

Felipe Obrer · Florianópolis, SC 24/2/2007 16:14
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Cida Almeida
 

Bia e Felipe, Goiás Velho, como é popularmente conhecida, terra de Cora Coralina e de tantos outros grandes autores, como José J. Veiga, é mais que um belo cartão postal. É uma sedução e uma inquietação para quem a visita com o olhar atento.

Cida Almeida · Goiânia, GO 27/2/2007 09:58
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Felipe Obrer
 

Cida, esclarecendo: o lugar deve ser lindo também, como deixa intuir a foto. Mas o meu "lindo" foi pelo texto. Tua escrita é bonita. Pouca gente põe poesia em uma narração desse tipo.

Felipe Obrer · Florianópolis, SC 27/2/2007 11:53
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