Observatório

A história do Overmundo na memória de seus colaboradores
O Overmundo foi pensado para trazer à luz a cena cultural brasileira, independente da grande indústria cultural e que, justamente por ser independente, não costumava figurar com destaque nos grandes meios de comunicação. Algum tempo passado, constatamos que ainda há muito o que fazer e que, a cada dia – sobretudo com o advento da internet colaborativa e de ferramentas de autopublicação... leia

 
A arte de inventar novos trilhos
Vânia Medeiros · Salvador (BA) · 16/7/2006 11:25 · 123 votos · 5 comentários ·  
 
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overponto
Vânia Medeiros

Paripe é o último bairro do subúrbio ferroviário de Salvador. Essa região da cidade, principalmente para olhos acostumados a passear pelas bandas do centro comercial e pela orla marítima - Rio Vermelho, Amaralina, Pituba, Costa Azul, até Itapuã – é de feição muito bonita mas, ao mesmo tempo, um pouco melancólica: são praias planas, onde ainda se vêem restos de antigos cais já desativados, velhos barcos de pesca parados sobre as águas onde se refrescam, quase que exclusivamente, meninos depois do futebol naquela areia escura... a maioria deles moradores dali mesmo, daquelas casas sem reboco que se amontoam nas ocupações ao redor.

Em locais como Paripe, a expressão “equipamento cultural”, bastante utilizada por produtores culturais nos centros urbanos por ai afora e nas faculdades de comunicação, não faz absolutamente o menor sentido. As iniciativas de promoção de quaisquer formas de arte e cultura que ali possam florescer, para que possam ser viabilizadas e difundidas dependem quase que (um quase aqui colocado com bastante generosidade) totalmente da capacidade e invenção de seus criadores e perseverança (obstinada) de seus apoiadores mais próximos. De maneira que, para um jovem criador – ator, poeta, músico, pintor, grafiteiro etc – é um duplo desafio assumir sua produção e mantê-la viva.

O desafio

"O grupo de teatro que eu coordeno junto com meus amigos, o 'Quem somos nós?', existe desde abril de 2006. Sempre tive vontade de fazer um grupo na minha comunidade, por ser carente de iniciativas culturais. É um teatro que fala não só de morar na lama, na favela, por que não é só isso. Queremos falar da transformação, de ter um sonho, de querer entrar na faculdade, seguir uma carreira, ser professor, médico, ator, atriz... resgatar o sonho”, conta Ronald Assis, de 18 anos.

Em 1996, uma chacina realizada pela polícia provocou a criação de um Centro Comunitário, o Medianeira, que existe até hoje e oferece alfabetização para crianças, aulas de capoeira e dança. O Medianeira é também um espaço de encontro dos moradores para discutir questões comunitárias e, como diz Ronald, discutir “o que é ser paripiense”. Dentro desse centro, em 2002, surgiu um pequeno esboço do que viria a ser o “Quem somos nós?”, quando foi montada a peça “O cotidiano da vida urbana”, que tratava, como o nome sugere, de questões do dia-dia do bairro. Depois da primeira montagem, encenada num pequeno festival, o grupo, então chamado Zambelê, ficou parado, até ser reconstruído em abril de 2006.

Esta nova fase traz novos integrantes e também uma nova roupagem, tratando também de questões específicas da juventude como a gravidez na adolescência, as doenças sexualmente transmissíveis, as relações entre pais e filhos, entre outras. Além disso, traz também um adendo ao nome antes adotado, agora se chama: “O Cotidiano da Vida Urbana: um sonho, minha realidade”, como explica Andréa Juliana, também atriz de Paripe e uma das coordenadoras.

Quem somos nós?

A questão que permeia a construção do espetáculo é sempre a que dá nome ao grupo: “Quem somos nós?”. Como essa é uma pergunta cuja resposta nunca pode estar fechada, terminada para nenhum ser humano, a peça está sempre se renovando, de acordo com o “quem sou eu” dos participantes. É uma interrogação que eles se fazem cotidianamente para construir o roteiro e levam para o palco em forma de provocação para que o público também se faça.

“A gente se reúne quando sente necessidade. Nos encontramos, em geral, umas duas vezes por semana no Medianeira”, explica Andréa, sobre a freqüência dos encontros. O grupo é formado por 19 jovens moradores de Paripe e bairros próximos, sendo 6 deles “jovens dinamizadores” do CRIA – Centro de Referência Integral de Adolescentes, que participam de formações em teatro e em diversas outras áreas na ONG (comunicação, produção cultural, gestão de projetos comunitários etc).

Além das reuniões internas são realizadas também formações para os membros em algumas áreas, com a parceria do CRIA, que se estendem também para o restante da comunidade. “Semana passada tivemos um encontro com Cássia Lima, do Núcleo de Saúde do CRIA, sobre direitos sexuais e reprodutivos. Porque nossa peça envolve muitas questões como a droga, a violência sexual, a gravidez na adolescência, DST... Então levamos Cássia pra dar um suporte na nossa formação”, continua ela.

A falta completa de condições materiais para divulgar o trabalho de forma mais ampla faz com que o boca-boca seja a única estratégia de comunicação utilizada pelo grupo para promover suas apresentações e outras atividades na comunidade.

Como toda mobilização cultural que se pratica em comunidades carentes como as do subúrbio ferroviário, iniciativas como esta são importantes tanto no sentido de enriquecimento do humano que a arte já traz intrinsecamente, mas também porque se apresentam como uma alternativa ao jovem que, sem ter opção por esse tipo de vivência, acaba de alguma maneira se envolvendo com a violência, o tráfico de drogas e outras atividades que lesam suas potencialidades físicas, intelectuais, comprometem sua sensibilidade. “A maioria das mães do pessoal que participa trabalha o dia todo e disseram graças a deus por ele existir. É melhor estar num grupo de teatro do que estar na rua”, acrescenta Ronald.

O “Quem sou eu?”, além de um coletivo de pessoas criativas, apaixonadas pela linguagem do teatro, da expressão de seu corpo e de sua voz, é também um grupo de jovens que se reúne para fazer arte – impulsionados unicamente pela causa mais legítima que é a vontade -, para pensar e dizer seu sonho, se ouvindo dizer, para si e para as pessoas que compartilham de seu mesmo espaço, o que querem da vida, da cidade, do seu bairro. O “Quem sou eu?” é antes de mais nada, um sonho dito e feito possível a cada nova apresentação.

tags: Salvador BA artes-cenicas suburbio ferroviario salvador paripe bahia teatro


 
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Gente, estou babando de inveja de voces!!!
aqui em SP tambem tem muitos projetos de teatro em comunidades da periferia que têm ajudado muitos jovens a desenvolverem um sentido mais maduro de identidade e consciencia coletiva. infelizmente as classes mais favorecidas ainda estao muito enclausuradas em seus condominios onde impera a alienaçao das necessidades e direitos dos vizinhos do lado.
o caminho é esse mesmo e o teatro agrupa tantas questoes e possibilidades que apenas vivenciando-as é que dá para entender, não é?
um beijao para voces.
Kaf · São Paulo (SP) · 13/7/2006 00:02 
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Esse texto é sensível e tem uma visão de mundo coerente com a nova configuração do mundo. É a possibilidade de criação em lugares que nunca são vistos. Pessoas existem, situações também. É lógico que deve existir arte nesse lugar, mas ninguém nunca percebe. Então, vem ela, e percebe e traz pra nós de forma delicada e ao mesmo tempo propositiva! Faltam equipamentos culturais nas periferias, mas isso não faz com que falte arte. Lindo! Parabéns pelo belíssimo texto Van.
Niltim Lopes · Salvador (BA) · 13/7/2006 00:18 
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Parabéns pela matéria. Aqui em Teresina temos o Núcleo de Criação do Dirceu, que funciona no Teatro Joao Paulo II, que faz um trabalho bem bacana. O Dirceu Arcoverde é o maior bairro da periferia de Teresina, é praticamente uma cidade dentro da outra, e lá tem muita coisa boa...Em breve vão poder ser vistas aqui no Overmundo.
Natacha Maranhão · Teresina (PI) · 17/7/2006 12:36 
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massa Natasha! Tô curiosa pra saber mais do Dirceu.
Valeu Nilton e Kaf. Essa galera de Paripe é mesmo show de bola.
Vânia Medeiros · Salvador (BA) · 17/7/2006 19:49 
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Balbino Impressionante como somos fortes, num contexto em que só se tira e nada se coloca essa "gurizada" mete a cara e plantam flores em meio ao lixão social. Parabéns pela matéria.
Balbino · Cuiabá (MT) · 20/7/2006 11:16 
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