A arte de RICO OLIVEIRA

Rico Oliveira - Montagem photoshop Patrícia Moreira
Rico Oliveira
1
Patricia Moreira · Vitória da Conquista, BA
24/9/2007 · 115 · 15
 

“ Pergunta difícil essa, porque eu tento fazer da vida minha arte, e da arte minha vida. Eu me vejo no caminho certo, mas no tempo e lugar errado ... Eu gosto de uma escola de arte, aonde o cara tem o oficio, como qualquer outro profissional! E não como uma celebridade.”

Em constante transformação e recriação de si mesmo. Rico Oliveira, 38 anos – Artista visual, nascido e residente em Salvador – Bahia, amplia em muito as fronteiras conscientes de sua condição de ser humano e de artista! De um trabalho concebido sem compromissos com escolas e correntes visuais quaisquer, Rico Oliveira consegue fazer de sua arte um show multicor exuberante. Sua obra por si mesma é única, e de uma expressividade marcante, nada em seu trabalho passa despercebido! A dimensão do seu olhar em relação às artes é notadamente crítica e própria. Exigente com sua própria condição e papel como artista e cidadão. Eis a riqueza de Rico Oliveira!

“E então, a partir daí, passei a rever o que eu estava me propondo como artista.”

- O que você chama de "ecologicamente correto"... Foi algo que surgiu, quando eu fui comprar uma tela e perguntei para o vendedor: - De onde vem essa madeira???
Ele me respondeu: - Do norte. E me perguntei, será que vale a pena eu pintar o que eu acho "belo", sendo que essa madeira seja de extração ilegal, ou mão de obra escrava? Porque é incoerente, você pintar telas com pássaros e frutas... E as arvores sendo cortadas, para você dar vida ao que chamamos de natureza morta.

- O trabalho digital, tem sido um laboratório, onde eu experimento coisas novas para trazer para o papel ou tela. Sobretudo tento levar o meu traço histórico para o futuro. É o momento aonde eu posso ser universal, sem gerar resíduos. Deixa-me ser mais claro, por meio da internet, eu tenho levado meu trabalho há um público que desconheço, e fazendo uma arte limpa. Porém, Patrícia, o trabalho que faço e posto aqui atualmente, não têm nada que seja como eu realmente gostaria, mas é o desafio diário de criar em cima da imagem postada que me anima.

- Chego a fazer cinco desenhos todos os dias, em tempo curtíssimo... E tento criar uma solução, para o problema proposto anteriormente. É como um origami, você tem uma folha, e deve dobrá-la até chegar a forma que você quer. Com esse trabalho funciona mais ou menos assim. Não existe papel, nem material para riscar. Minha tela é o Photoshop que não domino, mas que criei um mecanismo para executar meus trabalhos. E em paralelo, eu passo o dia na prancheta desenhando, cortando, colando e montando uma espécie de diário que vai nortear minhas futuras obras.

“O processo tem sido assim: - Eu não parto de uma idéia definida, a idéia é o que o rabisco sugere”

- Não há mais! O que acontece, é que de tanto me refazer, me copiar, eu criei um universo grande de imagens dentro das minhas limitações e domínios de forma... Quase que como logomarcas... Surgem mulheres, cabeças, casais, músicos, capoeiristas, sereias,animais, figuras míticas...etc.
Eu utilizo notas fiscais, papel de correspondência, panfletos... Qualquer coisa que tenha uma superfície branca “riscável" e começo a visualizar formas, e vou refazendo até chegar num formato agradável.

- Bom... A idéia é colocar em suportes diversos... Já pus em telas, camisetas, e muros... Ano que vem eu decido, aonde devo inserir meus novos trabalhos. Ando meio metódico no fazer. Os que estão no papel, no papel ficarão, talvez eu até morra e eles não sejam vistos pelo publico, mas com certeza, alguém tendo acesso, compreenderá a minha criação.

- Penso que o desenho é o norte de tudo, não dá para pensar em arte sem desenho, sem esboço, sem croqui... A tela em branco não me intimida, mas se você parte com algo definido, a possibilidade de acerto aumenta muito. Tento adequar a temática as minhas necessidades.
Nas virtuais, por exemplo, tento explorar todas as possibilidades cromáticas.

“Do mercado ou das tendências? Nenhuma. Nem de mercado de arte, nem de supermercado e nem de moda”

- Não sigo nenhum tipo de tendência artística. Denomino com um só nome. Porque eu tenho coisas bacanas que nem sei dizer de que estilo é, e quando me perguntam qual é o meu estilo digo: -Ricooliverista ou Ricooliverismo. Mas claro que alguém com um olhar mais apurado, vai ver arte africana, cubismo, naif, art brut,pop art, impressionismo... HQ... E assim por diante. Eu vou absorvendo, mas procuro não sair da minha linha, você pode encontrar fusões de Miró com Mondrian no meu – fotolog - mas encontrar naif com arte latina na minha pintura... Figuras de perfil como as egípcias e elementos da xilogravura e do cordel. Tem uma fase dos meus grafittis que é bem pop art... Mas existem momentos onde eu misturo cubismo com arte brut.

“É uma história longa, que eu mesmo fui rememorando...”

- Eu tinha uma vizinha que pintou duas telas naif, era uma pintura bem primitivista. E uma tia que fazia umas paralelas e uns losangos e me dava para pintar...Acho que começou por aí...Depois tive passagens interessantes, do desenho geométrico na ETFBa, até chegar no grafitti com moldes vazados, que hoje chamam de stencil. E daí parti definitivamente para a pintura, para largar o estigma de "pichador", que se denominava no passado. Por isso digo que estou no caminho certo, mas fora do tempo... Era para fazer hoje, o que fazia em 1986.
- A escola de belas artes só me deu parâmetro.. Para eu compreender em que ponto eu estava.Ali já notava que eu poderia ser um bom artista... Mas só aprendi isso, alguns anos depois de ter abandonado a escola.

“ Não... Eu estou sintetizando tudo que faço... Almejo que tudo no meu fim de vida caiba numa mala!”

- Minha meta é vender toda a minha obra, e não ter acúmulo de nada que não seja capital para comer, e me deslocar para aonde deseje.
Acho que eu jamais faria o que faço hoje, se eu me prendesse ao academicismo.
- A academia é boa para você ter um diploma, mas eu não aprendi nada na escola de arte, porque eu não quis me enquadrar, eu não me adaptei as disciplinas. Achava tudo muito chato, isso me custou muito caro... Mas estou feliz com a minha criação. Acabei por terminar em paralelo o curso de Licenciatura em Artes Plásticas, e também nunca dei aula, fora o estágio. Era outro engodo.

-Não é bem assim, de um modo geral Patrícia, eu não condeno aquele artista que tem seu atelier e recebe seus pupilos, seus ajudantes e a estes passa o seu conhecimento; a minha critica é você ensinar a pessoas que muitas vezes não tem inclinação para arte, e que pode vir a ser alguém que vai disputar mercado com você. Mesmo que muitos digam que não ensinam " o pulo do gato" mas eu não vendo meu conhecimento, se quiser aprender, tem que vir como ajudante.

“Eu estou arrumando outro espaço na net, mais liberal para expor um trabalho diferenciado que venho fazendo voltado a arte erótica”

- Não necessariamente! Eu elegi esse tema, para começar um fotolog erótico... Depois de um tempo retiraram do ar... Acho que uma pessoa denunciou, mas é um tema que eu gosto muito, e estou voltando a trabalhar virtualmente.
- Eu manipulo fotografias, as que eu recebo, ou que capturo na net... E de acordo com o que a foto pede, eu ponho o efeito necessário. Normalmente gosto de trabalhar em cima de fotos feitas com aquelas maquinas vagabundas que vende na TV e eu deixo com um ar mais clássico...Algumas são coloridas e feias, então mexo na luz , tiro a cor, dou meus toques e aparece uma foto artística...

“ Então, você procura o meu nome net e se bate com um mundo colorido... E daí, entra o papo, para chegar a uma negociação.”

- É..Não deixa de ser. Funciona assim... Meu nome está em evidencia no que há de mais importante no mundo que é a Net, tudo de bom ou de ruim aqui está. Facilita um pouco as coisas na hora de uma negociação de um trabalho meu.
- Eu acredito que vernissage é você ter um gasto, que não lhe fará vender necessariamente, claro que é bom para curriculum; mas a minha idéia de exposição, é uma espécie de “exposição para sempre”. Você chega no meu atelier, e está tudo exposto. Nada de ficar contando com galerista - Para quê? Para quê marchand?

“ Os salões? São os mesmos de sempre... Julgados por aqueles que não conseguiram se firmar como artistas e viraram críticos.”

- Eu queria saber como vive quem faz instalações, porque você não compra aquilo para por na tua casa. Resta, a foto ou o vídeo, e sou favorável ao fim de salões mistos. Tem que existir salões de arte específicos. Não é justo que um cara que faz um trabalho de bico de pena por um mês tenha que expor ao lado de alguém que filmou por 1 minuto num celular. Se a idéia é julgar e premiar... Tem que colocar pessoas da mesma técnica para disputar o premio. Salão de desenho, de pintura, de escultura, vídeo. Assim, um artista que trabalha com várias mídias, pode estar expondo em mais salões.

- Olha, eu nunca entrei num salão grande, tentei duas vezes e desacreditei. Mas quando você fala em governo... Me vem logo a mente uma coisa...Se é governo "soy contra" , sou um cara que toda vida teve nojo do governo, artista não tem que estar nem para a direita, nem para a esquerda.. Tem que ser politizado, mas não tem que ser partidário de nada. Partidário só da liberdade, coerência, da vida mesmo...

“ Nem é no mundo das artes... É a falta de sensibilidade das pessoas...”

- Porque, Patrícia, gostar de arte é uma coisa, entender é outra, e fazer é outra completamente diferente... Mas lembrei-me de uma coisa que é corriqueira no mundo das artes, mas não me deixa puto... Talvez deixe aos que jogam a toalha. Você já ouviu as pessoas falarem que eram artistas, mas largaram a arte " Pela questão da sobrevivência? Pois é, sobreviver a gente vai sobreviver de qualquer forma. E se você é artista e se diz criativo, aí é que você mostra o que é sobreviver... Não é largando a arte, seja ela qual for, para trabalhar numa coisa que não tem nada a ver com você. Porque, por exemplo, tem muito artista popular no meio do sertão, no "cu do mundo" isolado e fazendo uma arte rica, que muito arquitetozinho de merda vai lá é explorar o coitado... Não ganha dinheiro e insiste! E os urbanos, antenados, acadêmicos, moderninhos e coisa e tal desistem? Quem é que está deixando de sobreviver de arte? E quem é que está fazendo a verdadeira arte?
- Não... Não sei o que isso é, o que eu acho que pode acontecer é que para o artista que não se contaminou com esses ambientes de exposição, ele vai pondo um tijolinho por vez, mas quando você passa a freqüentar certos lugares, você passa a ambicionar coisas, que só com grana para ter, e a arte pode até lhe dar, mas não a curto prazo... A menos que você tenha o famoso “nome da família.”

“Conseqüência do que eu faço hoje? Como artista, não tenho a menor idéia, como homem sim.”


Entrevista, Rico Oliveira - Salvador - BA - 01.09.2007 / A Arte de Rico Oliveira - OVERMUNDO / Por Patrícia Moreira - Vitória da Conquista-BA.


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Andre Pessego
 

Excelente revelação. Excelente texto.
Tu és realmente uma capacidade, com solta, despreende-se
de ti para focar a terceira pessoa. legal mesmo andre.

Andre Pessego · São Paulo, SP 22/9/2007 10:22
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Patricia Moreira
 

Verdade mesmo André! Uma revelação e tanto - é fantastico podermos sentir a visão de um outro artista, perceber esse universo fantástico das diversidades, colher dessas experiências, e crescermos! Com certeza o Rico possibilitou muito disso!

Obrigada pelo seu comentário e presença constante nas postagens. Forte abraço!

Patricia Moreira · Vitória da Conquista, BA 22/9/2007 12:37
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andre stangl
 

Massa Patricia, o trabalho de Rico é muito interessante, lembro da época q ele fazia stencil (tinha um muito bom na porta da kaya c/ personagens de quadrinhos). ele tb anda organizando uma feira de trocas, o escambal. abçs

andre stangl · Salvador, BA 22/9/2007 16:27
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Patricia Moreira
 

Pois então André! Realmente o trabalho do Rico além de muito interessante, é impar! Um artista que acredita em sua arte até o fim e possuidor de muita personalidade . Obrigada pela presença, pela dica e pelo comentário. Forte abraço!

Patricia Moreira · Vitória da Conquista, BA 22/9/2007 18:21
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Sérgio Franck
 

Oi, Patrícia. acho interessantíssima a sua maneira de entrevistar, o que retira o ar de sabatina, torna o texto bem mais agradável e interessante de se ler, induzindo o leitor a imaginar as perguntas. Ótima entrevista.

Ah, quero ressaltar, também, a belíssima edição das imagens.

Um abraço e, parabéns.

Sérgio Franck · Belo Horizonte, MG 23/9/2007 10:45
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andre stangl
 

Pois é Patrícia,
a arte na Bahia é cheia de histórias...
vc tá sabendo da polêmica c/ Willyans Martins?
ele está sendo acusado de se apropriar indevidamente de grafites.
segundo ele, é art pop, um tipo de sampler visual...
daria um ótimo texto aqui no Overmundo, né? q tal? se vc quiser tem alguma coisa no blog do dez. tb posso conseguir o contato do Willyans p/ vc. abçs

andre stangl · Salvador, BA 23/9/2007 11:52
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Patricia Moreira
 

Franck, muita sensibilidade de sua parte compreender as minhas intenções ao focar apenas o artista. Que bom que pode compreender o trabalho neste formato diferenciado. Fico muito feliz que tenha gostado também do trabalho do Rico, as imagens são mesmo belíssimas e nada convencionais! O colorido salta aos olhos! Obrigada pela presença e comentário. Forte abraço !

Patricia Moreira · Vitória da Conquista, BA 23/9/2007 12:37
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Patricia Moreira
 

André, rapaz e essa é uma ótima história para contar, realmente " Nada como uma boa e sadia polêmica para sacudir a letargia do cotidiano cultural tupiniquim". Essa marca "contemporânea" realmente nos deixa meio cheio de reticencias... Acredito que o Rico diria que não levaria o muro para dentro de casa! rs.... Mas realmente daria um excelente texto aqui no Over esse tema. Sempre quiz discutir essa temática, não apenas pelo que gerou o trabalho do Willyans em seus váriados detalhes.Mas como tudo isso vai interferir nas produções daqui para frente, porque ele não foi o primeiro a se "apropriar" de alguma forma de pedaços do cotidiano de nossa gente. Tem o lado positivo e o negativo. Nada contra apropriações.. Mas curto mais a releitura. Forte abraço.!

Patricia Moreira · Vitória da Conquista, BA 23/9/2007 12:48
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Juliaura
 

Patricia,
Eu ia só dizer Lindo!
Aí lembrei que tem umas possibilidades de alguém dizer que vêm-se aqui, vota-se diz uma palavrinha e vai-se embora e não acrescenta.
Então, não sabendo o que acrescentar a uma entrevista supimpa, verdadeira, elegante, simples e sublime, que nos apresenta uma arte inteira, de traço riquíssimo e de cores esfuziantemente belas, vou ficar na explicação e na minha e dizer só:
Lindo de chorar de alegria e prazer.

beijin.

Juliaura · Porto Alegre, RS 23/9/2007 19:08
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Patricia Moreira
 

Juliaura,
Opa!!!! Mais pode sim dizer que é lindo! Porque é mesmo muito lindo! Trabalho primoroso. Mas claro que maiores considerações são muito bem vindas..Principalmente essa tuas tão encantadoras, empolgadas e tão cheias de poesia. Obrigada pela presença e pelas palavras "esfuziantemente belas" ! Forte abraço!

Patricia Moreira · Vitória da Conquista, BA 23/9/2007 21:40
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baduh
 

Patrícia.
Gostei muito. Tanto da entrevista primorosa, quanto do artista fantástico que apresentaste.
Meus parabéns e meu voto,
Baduh

baduh · Rio de Janeiro, RJ 23/9/2007 21:57
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Levi Orlando
 

Patrícia:
Muito boa a entrevista. Tá votado

Levi Orlando · Porto Alegre, RS 23/9/2007 22:11
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Patricia Moreira
 

Baduh, agradeço as tuas considerações a respeito do artista e da entrevista - que só está primorosa por conta do próprio entrevistado! Muito obrigada ! Forte abraço!

Levi,
que bom que tenha gostado. Agradecida pela presença e comentário. Muito obrigada! Forte abraço!

André, ah! Esqueci de complementar... que se for criação, imaginação, em contrapartida belo e diferenciado. Ae sim! Muito melhor. Abraços!

Patricia Moreira · Vitória da Conquista, BA 23/9/2007 22:25
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Saramar
 

patrícia, seu texto é perfeito. E o artista é muito inteligente.
adorei.

beijos

Saramar · Goiânia, GO 24/9/2007 16:39
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Patricia Moreira
 

Saramar, é sempre ótimo te-la comentando as nossas colaborações aqui no Over. Muito obrigada, forte abraço!

Patricia Moreira · Vitória da Conquista, BA 24/9/2007 16:44
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