A cidade de São Paulo esta sediando a 1 ª Bienal Internacional de Graffiti Fine Art no Museu Brasileiro da Escultura, MUBE, durante o mês de setembro. Depois de muitas das obras Bansky, o ícone mundial do grafite, terem figurado em galerias e museus ao redor do mundo, a iniciativa de trazer a arte de rua para dentro de muros institucionais não pode ser considerada exatamente sem precedentes, mas ainda assim é inovadora e provocativa no mundo das artes.
Apesar de muitos críticos ainda discurem o valor estético - ou a falta de valor - desse tipo de arte, o movimento que nasceu em Nova York durante os anos 70 parece estar atingindo uma surpreendente valorização comercial, com obras de Bansky sendo leiloadas por cifras espantosas. Mas se o movimento já possui quase quarto décadas de existência, foi somente nos últimos anos com galerias, museus e curadores, desempenhando obviamente, um papel importante nesse processo, que grafite ganhou destaque e valores comerciais.
A questão é se este tipo de inicitiva esta de fato fortalecendo o movimento ou na verdade descaracterizando-o? Se a característica marcante do grafite é exatamente o seu aparecimento nas ruas como estratégia para subverter os espaços onde a arte é tradicionalmente criada e exibida, democratizando assim o processo de criação e igualmente o acesso, que sentido faz agora submeter esta arte de rua a paredes de museus e aos conceitos tradicionais de arte? As ruas não são apenas o lugar físico onde este tipo de arte surge, mas são também o espaço simbólico onde estes artistas sem formação acadêmica se apropriam do espaço público para recriar o mundo em suas próprias cores e formas ainda livres de qualquer teorização. O grafite enquanto movimento artístico-político tem uma relação dialética com as ruas na medida em que é afetado por esta ao mesmo tempo em que a transforma. Tirá-lo do contexto a que pertence pode ser uma forma de privá-lo de suas características mais marcantes e tornar seu discurso vazio e deslocado.
Esses são aspectos de caráter muito mais político do que considerações estéticas propriamente ditas. Não que se concorde com a idéia de que a arte deve necessariamente estar comprometida com questões de natureza política, mas quando se fala de “movimento urbano e arte de rua”, é impossível isolar o movimento artístico de seu forte engajamento político. Ao tornar-se parte da cena da arte tradicional, o grafite assume o risco de se tornar arte "puramente contemplativa" para o prazer das elites, poderes e tradições contra quem luta. Naturalmente, haverá pessoas argumentando que este tipo de iniciativa contribui para aumentar sua visibilidade e aceitação, mas não parece um paradoxo que a arte de rua precise ser retirada das ruas e entrar no sistema estabelecido e elitista da exposição de arte tradicional para enfim ser visto? Espalhado pelos muros ao redor da cidade, o grafite é democraticamente visível para todos, mas, aparentemente, há ainda aqueles que precisam ver a arte de rua fora da rua para serem capazes de contemplá-la. Talvez os críticos, não mais capazes de apreciar a arte fora do contexto em que foram ensinados pelos livros de história da arte, ou certas elites incapazes de reconhecer qualquer forma de arte, a menos que esteja devidamente emoldurada e pendurada nas paredes brancas de galerias e museus de bairros nobres. Talvez, para ser considerada "fine art", como o nome da Bienal diz, o grafite tenha de ser deslocado e transportado para "fine spaces", onde "fine minds" são capazes enfim de reconhecer-lhe certo valor.
Neste contexto, a Bienal de Arte São Paulo, que será aberta no final do mês, também inclui o grafite dentre suas atrações. Agnaldo Farias, um dos curadores, disse em entrevista à revista Cult que uma das novidades deste ano será o coletivo Pixação SP, o mesmo grupo que foi responsável, dois anos atrás, pela invasão da Bienal e pichação de diversas obras. Nessa ocasião, alguns integrantes do grupo foram até mesmo presos. Este ano a proposta de integrar a Bienal veio do próprio grupo, que estará apresentando slides e fotos de seus trabalhos, considerados caligráficos, que serão provocativamente expostos juntamente com obras de Mira Schendel, numa tentativa de aproximar conceitualmente duas expresses artísticas provenientes de mundos diferentes mas com horizontes que eventualmente se tangenciam no espaço das linguagens com que trabalham. Como Agnaldo mesmo admite não há preocupação em fazer qualquer juízo de valor artístico ou de avaliação estética acerca do trabalho do grupo ou do grafite de forma geral, a razão pela qual o grupo foi incorporarado na Bienal é porque o tema desta edição é a relação entre arte e política, e o grupo tem obviamente um forte engajamento politico.
A um olhar superficial e desatento estas podem parecer tentativas bem intencionadas de criar um diálogo e mesmo dar visibilidade e reconhecimento a estes artistas de rua. Mas, afinal, não seriam estas tentativas de trazer para dentro do sistema um discurso que está na margem do mesmo, e de lá pode denunciar verdades proibidas? Não seria parte da lógica capitalista, que subverte até mesmo a subversão e transformá-a em valor monetário? Transformar a arte de rua em mercadoria e objeto de desejo disprovendo-a de sua especificidade, não seria então uma forma de despolitizá-la, calando sua voz e diminuindo seu impacto social?!
Quando confrontado com este tipo de perguntas Bansky argumentou que permitir que sua arte fosse exposta em galerias e museus foi uma estratégia para fazer uso desses espaços institucionais para desafiar o mundo da arte partindo de dentro do mesmo. Resta então, torcer para que o grafite, em vez de ser usado e absorvido pelo sistema de arte institucionalizado, consiga fazer uso do mesmo para criar ruído, estranhamento e engajar o público nas questões de que trata.
1 ª Bienal Internacional Graffiti Fine Art
03 de setembro a 03 de outubro
Av. Europa, 218 - São Paulo - Brasil
29ª Bienal de São Paulo
De 25/9 a 12/12, Parque do Ibirapuera, portão 3,
Pavilhão Ciccillo Matarazzo, entrada franca
o que está rolando em salvador: http://www.flickr.com/photos/31092055@N08/
katherine funke · Salvador, BA 19/9/2010 17:16Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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