A arte marginal de Jamson Madureira

Jamson Madureira
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Maíra Ezequiel · Aracaju, SE
6/3/2006 · 90 · 2
 

Lá pelos idos de 1996, o nome Jamsom Madureira aparecia na cena artística underground sergipana como líder de uma banda industrial/minimalista chamada Camboja. Na verdade, a banda já existia desde o início da década, e foi formada por amigos que moravam no conjunto Marcos Freire, em Nossa Senhora do Socorro, região metropolitana de Aracaju, com o intuito de fazer um som grindcore - vertente rápida do punk. Os shows dos caras eram um caos, mas o que chamava mesmo a atenção (além da perfomance alucinada do vocalista Fúria) era a arte que emoldurava o material promocional da banda, releases e capinha da fita demo. Era um traço estilizado, com uma excelente utilização do contraste claro/escuro e óbvia inspiração no que de melhor existia nos quadrinhos alternativos da época. A arte de Jamson Madureira aparecia para o mundo, via circuito underground (leia-se troca de zines e demos pelo correio).

Enquanto isso, a formação da banda começou a mudar. Após a saída de todos os primeiros componentes, depois do lançamento da primeira demo, Grind to grind, Jamson abandonou as baquetas e passou a assumir vocais e guitarras, revelando-se um exímio criador de riffs matadores e de melodias grudentas que compunham uma música minimalista ao extremo, na maioria das vezes se resumindo à repetição de uma frase por cima de um riff de guitarra. Nessa época, o som do Camboja consistia basicamente dos vocais berrados de seu líder ao lado de sua guitarra velha extremamente suja e desafinada, tocada com vontade. Era a típica banda-de-um-homem-só, com ecos de Ministry ou Nine Inch Nails, guardadas as devidas proporções. Após um breve período acompanhado por uma bateria eletrônica primitiva e tosca, a banda tomou outra forma com colaboradores importantes, como o líder da lendária Karne Krua Sylvio, na guitarra 'de efeitos'. Isso tudo sem contrabaixo, "pra não atrapalhar", nas palavras de Madureira.

Mais tarde, por volta de 1998, foi que Madureira revelou-se efetivamente como artista plástico. Seus quadros foram exibidos durante o festival Rock-SE, realizado no fim de outubro daquele ano. O estilo arrojado e altamente influenciado por quadrinhos apresentou-se arrebatador aos desavisados. Como assim esse cara é de Sergipe sendo aquele mesmo doido do Camboja? Bananeiras, retratos de igreja e natureza morta, além de cavalos, muitos cavalos, eram o que se tinha de arte sergipana. Porém, a arte de Jamson não tinha raiz alguma com o que já se fez no Estado. Quadrinhos novamente eram a grande referência. Nada no estilo super-herói, é claro. As reverberações vão de Bill Sienkiewicz (da clássica mini-série Elektra Assassina), a viagens quadrinísticas em forma de graphic novel, como Blood ou Ás Inimigo - Um Poema de Guerra, esse último de George Pratt. Mesmo assim, essa tentativa de aproximação em nada resume a dimensão da arte de Jamson. O caos de 68, poemas dadaístas e a música de John Cage talvez ajudem. Ou melhor, não é nada disso. Não há nada tão abstrato num elefante. Ou numa colher. O que importa é o traço, ou garrancho, ou simplesmente as partes do quadro perfuradas por algum instrumento estranho aos manuais de artes plásticas. Sua arte pintada seguia, de um certo modo, a mesma concepção de sua música minimalista, feita de signos e de imagens urbanas, paranóias e fixações. Experimentalismo. Talvez seja por aí.

Aos poucos, mesmo sem nenhum esforço pessoal do artista, Jamson foi chamando a atenção de mais e mais pessoas, inclusive aquelas distantes do mundinho underground onde vivia, o que o levou a produzir de capa de disco pra banda de rock (Snooze, Waking up waking down) a ilustrações de livros de poesia (de Araripe Coutinho e do hoje ministro do Supremo Tribunal Federal Carlos Ayres de Brito).

Depois de um tempo pintando sem parar, cansou dessa vida de exposições conjuntas em Assembléias Legislativas, galerias de arte convencionais e mercados pop. Parou de pintar. Assim como o Camboja se dissolveu bem antes, com três demo-tapes servindo de legado. Eventualmente, ele apareceu com outra banda, a Madame Tubarão, com um som meio surf garageiro. No mínimo, autêntico.

Madureira voltou a exibir seu talento distribuindo fanzines - mesmo sendo já coisa do passado, da era pré-internet -, apresentando sua criação para o mundo dos quadrinhos. Automazo e a amante do Mutante é feita e desenhada a mão, xerocada e distribuída pelo próprio artista. Sortudos os que guardam suas cópias. Uma versão em html chegou a ser feita, mas não há notícia de ter sido posta na net. O estilo apresentado é típico Madureira, versão HQ. O texto, uma linguagem solta e inspirada, em cima de argumento beirando o surrealismo. A série perdura até hoje. Quando você menos espera lá vem Madureira com mais algumas historinhas em quadrinhos simples e ao mesmo tempo herméticas, rebuscadas e rabiscadas, xerocadas e distribuídas sem nenhum compromisso a não ser o mais nobre, a necessidade de se comunicar, mesmo que de forma torta, enviesada e deliciosamente anacrônica. Camisas foram feitas com o personagem. Jamsom até voltou a exibir em galeria de arte, usando os originais dos fanzines, sendo tema de matéria em jornal local e foi, em 2005, convidado a participar - como único representante do Estado de Sergipe -, de uma mostra nacional de novos (melhor seria desconhecidos) talentos na Funarte, no Rio de Janeiro. Resta a nós, pobres mortais, esperar e torcer pelo próximo passo do mestre.

* Com a preciosa colaboração de Adelvan Kenobi.

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Vânia Medeiros
 

Massa, Maíra!
Fiquei com vontade de conhecer mais o trabalho de Jasmson. Não tem um link onde possa encontrar mais desses traços bacanas?

Vânia Medeiros · Salvador, BA 2/5/2006 23:53
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Maíra Ezequiel
 

Infelizmente não, Vânia. O Jamson é o cara mais anti-internet do mundo. Aliás ele não é de modo algum afeito ao mundo da comunicação. É difícil até achar alguém q saiba onde ele mora. Se vc for à Aracaju pode ser q o encontre na Rua da Cultura, um evento aberto q acontece no Mercado Municipal toda segunda à noite. As vezes ele está por lá vendendo uns vinis.
q bom q gostou!
abs

Maíra Ezequiel · Aracaju, SE 3/5/2006 17:42
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