“A rua (...) é extremamente estreita; apesar disso, todos os artífices trazem seus bancos e ferramentas para a rua. Nos espaços que deixam livres, ao longo da parede, estão os vendedores de frutas, de salsichas, de chouriços e de peixe frito, de azeite e doces, [pessoas] trançando chapéus ou tapetes, (...), cães, porcos e aves domésticas, sem separação nem distinção; e como a sarjeta corre no meio da rua, tudo ali se atira das diferentes lojas, bem como das janelas”.
A cena descrita é perfeitamente condizível com tantas feiras livres, tão comuns em quase todo Brasil. Pode estar ambientada em uma das favelas ou outros lugares de condições habitacionais subumanas, como os muitos que infelizmente ainda existem em nosso país. Faz lembrar as ruas que fazem ligação ou estão nas circunvizinhanças das avenidas do Centro ou da Barra, que são circuitos para o carnaval de Salvador, nos dias de folia momesca. Denunciam, em suas entrelinhas, problemas sociais como o trabalho informal e as condições precárias de moradia e higiene, em que vive uma substancial quantidade de brasileiros. Estes problemas, por sua vez, apontam para outros como pobreza e falta de perspectiva profissional. A atualidade destas questões sugere que estas linhas foram escritas há pouco tempo. Engana-se, porém, quem pensa assim. Este exerto foi extraído do livro Visitantes Estrangeiros na Bahia Oitocentista, de Moema Parente Augel, onde ela transcreve trecho das impressões de Maria Graham, viajante inglesa, ao passar pela primeira vez pelas ruas da conhecida cidade baixa da capital baiana, em 1821.
O que, naquela altura, poderia transformar a cena vista pelo olhar estrangeiro de Graham? O mesmo que hoje tiraria das ruas os meninos “guardadores” de carro. E que também faria sumir os catadores de lixo. Algo que impediria o florecimento dos Delúbios e dos Valérios. Que fecharia, quase que definitivamente, os caminhos da corrupção. Que, provavelmente, faria surgir empregos e oportunidades de trabalho nunca antes vistos. Em uma palavra: EDUCAÇÃO. Falo de uma educação que esteja plenamente disponível para todos os brasileiros. Que potencialize, amplie horizontes e incremente a cidadania. Esta educação não reside somente na utopia de gente inocente como eu. Já está ao alcance do poderio econômico do nosso país. Poderia ser implementada se houvesse vontade política para tal.
Até quando o que Graham escreveu será atual? Até quando meu Deus?
Concordo que a educação é a "alma" da transformação. E também é importante pensar no "corpo" desta transformação. Vivemos numa sociedade altamente complexa, um grande móbile que você toca em uma parte e movimenta todas as outras. Precisamos ações integradas e de sustentação ao salto quântico de ensino da população. Paulo Freire do jardim de infância à pós-graduação. Teatro do Oprimido para todos. Economia Popular Solidária. Direito à comunicação na sociedade da informação. Conhecimento livre. Solidariedade.
Alê Barreto · Rio de Janeiro, RJ 17/12/2006 11:35
Caro Alê:
Se entendi direito, o que você chama de '"corpo" desta transformação', ou uma espécie de conjunto de "ações integradas e de sustentação ao salto quântico de ensino da população" seria concomitante às ações de educação essencial, básica mesmo. Concordo, em parte. Será que é viável, para uma criança que não teve base familiar e tem a rua como morada, ser solidária? O governo da Bahia alardea os "resultados" do seu programa de inclusão digital, divulgando o número de carentes que "aprenderam" a lidar com softwares como Word e Excel. Quantos desses sabem, efetivamente, ler, escrever, fazer cálculos matemáticos? Entende aonde quero chegar? É claro que um pensamento amplo deve nortear um projeto sério de educação neste país. Com tudo que você disse incluso e muito mais. Mas é importante ter em mente o necessário clichê de que milhões de brasileiros não têm nem o que comer. Pra essas barrigas não saciadas o Teatro do Oprimido, por mais interessante que seja, não fará muito sentido.
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