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A avareza no palco e o dinheiro na bilheteria

Priscila Prade
Paulo Autran e Elias Andreato em cena.
1
Maurício Alcântara · São Paulo, SP
24/6/2007 · 105 · 6
 

Nove meses após a estréia, a platéia de mais de mil lugares continua lotando o nonagésimo espetáculo de Paulo Autran, O Avarento. O público cativo do Cultura Artística também permanece o mesmo: muitas pessoas acima dos 50 anos de idade que gostam de fazer social no foyer do teatro enquanto tomam espumante ou vinho branco nacionais (ao preço módico de R$10 a taça - é sempre preciso ressaltar). E todas devoradoras de pizzas, possivelmente as melhores (ou mais caras, como preferir) da cidade, segundo Sandrinha Souto, nossa consultora de estilo. O figurino da platéia também continua o mesmo, atingindo uma das escalas mais altas de emperequetação da cidade, palavra também de Sandrinha.

O espetáculo, dirigido pelo carioca-curitibano Felipe Hirsch (sabe aquele que o Gerald Thomas acusa de plagiador?) continua tão lindo quanto na época de sua estréia. A cenografia de Daniela Thomas (sabe aquela ex-mulher do Gerald Thomas?) dá conta de converter todo aquele palco gigantesco (que beira a aberração) em um espaço cênico ideal para o espetáculo, reduzindo consideravelmente a profundidade do palco com uma estante torta e vazia, que traduz de forma subjetiva e eficiente o tamanho da riqueza e ao mesmo tempo as dimensões da avareza do protagonista Harpagon.

A incorporação de elementos clássicos como as pancadas de Molière ou o uso da ribalta, sem abrir mão da modernidade, tornam a encenação impecável: a linguagem estilizada da commedia dell'arte é incorporada sem soar pedante, falsa ou forçada. O elenco (excelente e sem ressalvas) se apropria do texto com total domínio, sem se render a ele. Só fica a impressão de que em alguns momentos ocorrem pequenos lapsos de concentração que não ocorriam no início da temporada. Talvez eu tenha revisto a peça em um dia ruim, mas pode ser também um sintoma de mecanização de um espetáculo que já está há bastante tempo em cartaz. Mas a platéia papa-pizzas se delicia da mesma maneira, sem perceber nada estranho.

Assistir o espetáculo sem o deslumbramento do ineditismo faz notar que o elemento mais impressionante não é o texto, as atuações, ou a cenografia isolada: mas sim a iluminação. Não tem como não se impressionar com a precisão e sutileza com que a luz do espetáculo é desenhada, contrastando o tom amarelado da cenografia e dos figurinos do lado "de dentro" da casa de Harpagon com o azul vivo do céu que existe do lado de fora. É feita com tanto cuidado que até mesmo as cenas de transição, iluminadas apenas pela ribalta, se tornam bonitas. Uma iluminação bem-feita como todo bom espetáculo deveria ter. Pena que deve ser caro pra xuxu contratar o Beto Bruel...

Então a gente chega no ponto crucial que não pode ser ignorado. Não tem como falar do Cultura Artística e das produções que ali aportam sem falar de dinheiro. Por incrível que pareça, raramente vemos naquele palco grotescamente grande e que só recebe atores globais produções à altura desta encenação de Molière: um espetáculo caro e indiscutivelmente comercial, mas que oferece uma qualidade que reflete o valor pago pelo ingresso. Não que seja um valor justo, porque eu não acredito que seja, mas ao menos ao sair do teatro é pouco provável a sensação de ter jogado dinheiro no lixo.

Não se trata de avareza (ahá!), mas de senso crítico (que a maioria dos papadores de pizza não tem). Absolutamente nada contra o teatrão, desde que por trás da futilidade dos espumantes e das conversas de foyer haja algo que reflita em qualidade o dinheiro investido. Uma pena que não exista muita cultura de que fomentar público é mais do que chamar gente pra ver gente da novela: é trazer qualidade para que este público se interesse por teatro. Neste raciocínio, O Avarento nos mostra que teatrão pode sim ser sinônimo de grande teatro.

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Maurício Alcântara
 

Publicado originalmente na Revista Bacante.

Maurício Alcântara · São Paulo, SP 20/6/2007 17:42
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Helena Aragão
 

Legal essa coisa de revisitar uma peça vista há tempos e escrever sobre isso. Comparar as duas visões, os dois momentos diferentes, sempre dá pano pra manga. E concordo: viva o bom-senso nos gastos.

Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 20/6/2007 17:52
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Maurício Alcântara
 

Oi Helena!
Pois é... Quem fala que teatro sem dinheiro é mais legal diz isso porque não tem dinheiro... hehehe... Legal mesmo é fazer teatro com dinheiro E bom gosto e bom senso. Infelizmente é uma combinação difícil de se ver nos palcos brasileiros...
Obrigado pelo comentário!

Maurício Alcântara · São Paulo, SP 20/6/2007 18:06
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Carol Rodrigues (Honey)
 

E onde ela esta?
São Paulo mesmo?

Carol Rodrigues (Honey) · Rio de Janeiro, RJ 24/6/2007 20:46
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Maurício Alcântara
 

Oi Carol, está em São Paulo sim, no Cultura Artística. Depois vai viajar pelo país. Segundo o próprio Felipe Hirsch, deve passar pelo Rio, Porto Alegre, Floripa, Curitiba, BH, Brasília, Salvador, Recife e... Lisboa.
Mas parece que nenhuma destas cidades está 100% confirmada. Vale conferir a comunidade da Sutil Companhia de Teatro no Orkut pra mais informações, normalmente é onde eles divulgam primeiro estas datas todas...

Maurício Alcântara · São Paulo, SP 24/6/2007 22:09
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Susan Lopes - Cia. Ânima de Teatro e Performance
 

Olá Maurício. gostaria de parabenizar pelo texto e dizer que aqui em Bauru, também lutamos para convencer a população e os dirigentes culturais da cidade de que o teatro deve ser ocupado por trabalhos de qualidade e que qualidade não é sinônimo de estar na tv. Nos deparamos com senhoras de longo e senhores engravatados, figurinos que usaram na formatura dos filhos, cheirando a naftalina. Pessoas estas que NUNCA estão nos trabalhos realizados por artistas locais (nem sabem que "isto" existe) ou por espetáculos que não estão na mídia televisiva. Até os preços exorbitantes são idênticos ao que vc comentou: 40, 50, 60 reais. Diferente só a pizza e o vinho branco. Os daqui não tem tradição para tanto.

Susan Lopes - Cia. Ânima de Teatro e Performance · Bauru, SP 22/10/2007 18:49
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