Eis que uma estudante de jornalismo de uma faculdade de classe média alta do Recife, decide eternizar o que muitos puritanos gostariam de um dia esquecer. A recifense Flávia da Rosa Borges, aspirante ao ramo audiovisual, sem nenhum pudor, optou por representar cinematograficamente uma banda que tanto mexeu com os brios moralistas dos pernambucanos. Com o ousado e premiado documentário TextÃculos de Mary e outras Histórias, a garota conseguiu transmitir fielmente a atmosfera bem humorada, escatológica, gay, debochada e suja da banda mais polêmica surgida nesse PaÃs.
A responsabilidade de representar visualmente esse fenômeno era grande, pois quem conheceu o TextÃculos de Mary sabe que a banda tinha uma proposta multimÃdia e priorizava performances teatrais em detrimento do próprio som. E para complicar, Flávia só tinha ouvido falar, nunca tinha escutado o som, muito menos presenciado um show do grupo. Isto é, ela seria a última pessoa escolhida para a empreitada. O desafio estava lançado. “Faziam tanto terror da banda. No começo fiquei um pouco com medo de não conseguir passar a essência para o vÃdeo, pois tinha que respeitarâ€, afirma a diretora.
A partir daÃ, começou a incessante busca por informações sobre a banda. O Google, grande parceiro, foi o responsável pelo pontapé inicial. “Após algumas pesquisas na internet, achei um telefone por acaso. Era o contato de Fábio Mafra [vocalista]. Falei com ele e marquei logo uma entrevista. Foi ele quem me deu o telefone de todo mundoâ€, lembra Flávia. Porém, como toda pesquisa na web é limitada, a videasta foi obrigada a cair em campo.
Foi no encontro com o Molusco Lama Cuquinha que Flávia achou a galinha dos ovos de ouro. O artista plástico - amigo próximo da galera em Olinda – possui todas as imagens de arquivos de shows, making of, primeiro videoclipe etc. “Cuquinha meio que fazia a cenografia dos shows, teve uma participação importante na história dos TextÃculos. As bonecas do clipe de She-Ra estão com ele, fotos antigas do Pina de Copacabana também. Se eu não tivesse acesso a tudo isso, o vÃdeo teria ficado fracoâ€, conclui.
Foi a partir dele também que veio a idéia de oferecer ao videasta Fernando Pérez, a oportunidade de editar o vÃdeo. “Na mesma hora fui à casa de Fernando, expliquei a proposta do projeto e ele topou. Disse pra mim que sempre quis fazer esse doc., porém nunca tinha encontrado tempo.†Portanto, rodeada de pessoas certas, a diretora tinha a oportunidade única de produzir um vÃdeo histórico.
Como complemento, Flávia buscou personalidades interessantes da sociedade pernambucana que tiveram uma ligação estreita com a banda ou que simplesmente acompanharam de perto toda evolução. Então listou bons nomes como: Renato L [jornalista], Roger de Renoir [agitador cultural], José Teles [jornalista], Paulo André [produtor cultural], além de entrevistas com a própria banda. “Renato L era um entusiasta da banda, já discotecou em festas que o TextÃculos tocou. Paulo André pegou até briga com as sócias para escalar a banda na programação do Abril pro Rock. Na soparia de Roger, aconteceu os primeiros shows do grupoâ€, conta Flávia.
_24min
TextÃculos de Mary e outras Histórias tem sugestivos 24 minutos de duração e não perde o fôlego em momento algum. Com uma narrativa intensa, ancorado por boas entrevistas e imagens de arquivos da banda e de filmes antigos, o vÃdeo consegue prender o espectador no universo de colagens e tosquidão que tanto fazem sentido para a banda e sua história. O documentário é de uma relevância considerável para a história da música feita em Pernambuco, pois retrata com propriedade o espÃrito iconoclasta da banda e transmite para aqueles que não conhecem o grupo, o peso de seu discurso e postura.
Agora especialista no assunto, ao ser questionada sobre a importância da existência da banda, Flávia é enfática. “TextÃculos de Mary foi pioneira por ter botado a cara para o povo bater e o povo bateu mesmo. Se não fosse a reprovação de boa parte do público, a banda poderia estar aÃ, na ativa. Mas acho que nada foi em vão, o público ter consciência de que existem pessoas com coragem, consequentemente se encoraja também.â€
* Assita o vÃdeo na Ãntegra aqui
Gostei do tÃtulo; muito inventivo. Essa banda era 'foda', tinha boas sacadas.
Acho o Texticulos uma das bandas mais fodas de todos os tempos . Legal saber que tem mais gente que curte.
gganesh · Rio de Janeiro, RJ 30/7/2007 15:39Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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