Há um ano e oito dias atrás, a torcida do Clube Náutico Capibaribe viveria um inferno. Literalmente. Dependendo só de si para alcançar a tão sonhada primeira divisão do Campeonato Brasileiro, o alvirrubro pernambucano foi eliminado pelos gremistas numa sucessão de fatos inacreditáveis até para os mais experientes no futebol. Não bastassem os quatro jogadores adversários expulsos e um pênalti a favor perdido, a torcida ainda teve que agüentar o Santa Cruz galgando os degraus para a elite do futebol brasileiro.
Eu lembro que a torcida, atônita, ficou nas arquibancadas mesmo após o término da partida. Cerca de vinte mil torcedores estavam lá, sentados. Chorando. A torcida inteira estava em um estado completamente inacreditável de tristeza e solidão. Porque não adiantavam os abraços e os afagos dos outros torcedores, só as lágrimas resolviam. Os refletores foram apagados numa tentativa inútil de tirar a torcida do estádio, mas nem isso adiantava.
Catástrofe talvez comparável a um Manchester United x Bayern München ou o Brasil x Uruguai de 1950. Virou filme. O gremista Beto Souza fez questão de documentar tudo aquilo na chamada “Batalha dos Aflitos” e de chamar o filme ironicamente de “Inacreditável”, para a ira dos pernambucanos. Vi muita gente querendo a cabeça do diretor, em acessos de fúria.
2006 começou com muitas dúvidas, um Náutico desestruturado e um campeonato pernambucano medíocre. As finais foram dos rivais, Santa Cruz e Sport. Chegou-se ao ponto de faltar dinheiro para o pagamento da luz e da comida dos juniores. Para desespero da torcida, o Campeonato Brasileiro estava mais difícil do que nunca.
Afinal, o grande desafio de uma competição de pontos corridos é a regularidade. Enquanto existiam os quadrangulares, um azarão que conquistasse a oitava posição ainda poderia subir. Agora era preciso ter uma base, alguma salvaguarda para as lesões, derrotas e crises financeiras.
Depois da saída de dois treinadores – um deles que teimava em escalar o time em um irracional 3-5-2 – Hélio dos Anjos assumiu com moral. O time beirava a quarta colocação da série B e sofria as investidas do Coritiba, Paulista e América (RN). Nas partidas que faltavam, corriam bichos e dinheiro, muito dinheiro. R$150.000 foi o presente que os paranaenses deram ao Gama, de Brasília. Depois foi a vez de ajudarem o Ituano.
Nada feito. Parecia que a aura do alvirrubro estava diferente hoje. Os 19800 ingressos colocados a venda na segunda feira se esgotaram na quarta. Os de estudante, em poucas horas. A cidade estava coberta de bandeiras brancas e vermelhas e a torcida do rival Sport esnobava com a já consagrada classificação. Enquanto isso, os jogadores do Santa Cruz amargavam três meses de salários atrasados e uma torcida furiosa.
Mas havia confiança. A torcida do Náutico sempre foi conhecida por nunca acreditar no time fielmente e em todas as situações. Sempre há um pouquinho de dúvida, incredulidade e medo. Impulsionados pela chance única, os torcedores invadiram o estádio. Exatamente assim. Foi uma invasão. Muita gente da velha guarda, que dava para ver nos olhos o desespero do purgatório da segunda divisão e milhares de torcedores novos.
Futebol é uma coisa engraçada. Contagia. Eu nunca fui alvirrubro na minha vida – meu time é Botafogo – mas o sentimento de vitória que a torcida passava era nítido. Fiz questão de ir ao estádio. Faixas, cartazes, papel picado, cerveja sendo jogada para o alto, radinhos de pilha gritando as escalações e o torcedor do lado te abraçando de ansiedade. É a coisa mais democrática do mundo. Todo mundo vira amigo desde pequenininho.
Quando a bola começa a rolar, os gritos de “vamos subir Náutico” e várias declarações de amor pelo time são ecoadas. A torcida canta numa espécie de mantra apaixonado pelos heróis vestidos com as camisas listradas. É tão irracional que não há por que procurar razões naquilo. Basta estar ali, no momento. Seja ele qual for.
O primeiro tempo foi difícil. O time do Ituano marcava bem e o Náutico não tinha saída pelo meio de campo, o que deixava o ataque isolado, sufocado. A lateral esquerda do time pernambucano também sofria com a falta de experiência de seu jogador. Com várias sucessões de erros e riscos de gol do adversário, os gritos de “sou alvirrubro de coração” eram facilmente substituíveis pelos de “filho da puta!”, “juiz ladrão!” e “meudeusdocéu”.
Futebol é o único lugar onde Deus e puta ficam juntinhos. Na mesma frase, muitas vezes. E foi nesse misto de religiosidade e instintos primitivos que saiu o primeiro gol. Catarse. O vendedor de cerveja, o pai nos seus quarenta e poucos, a menina que vai ao estádio pela primeira vez, todo mundo se abraça. É cerveja pra todo lado, copos voando, fumaça vermelha, sorrisos. Haja sorriso. E haja abraço.
Futebol devia ser a solução para os corações destruídos, para os incrédulos da vida. Porque o amor que a torcida tem pelo time extravasa para a pessoa do lado. Paixão e ordem. Porque não basta torcer, é preciso organizar, dar instruções, pedir ao jogador que vá pra esquerda. Putaquepariu, por que ele não vai pra esquerda.
Não faz sentido, ele não tá me ouvindo. E esse treinador? Pára de gesticular desse jeito e faz alguma alteração! Olha o time adversário ganhando corpo. Meu deus, a cerveja desse cara do lado está transbordando nas minhas costas. Chuva de cerveja.
E chuva do céu também. Começou a chover. Uma chuvinha que depois se transformou em chuva torrencial, para molhar o torcedor e dar um clima mais romântico ainda ao futebol. Porque futebol é uma coisa romântica. Ainda mais embaixo d’água, suor e água se misturando. Suor e Lágrimas, mas com o sangue lá dentro, quente.
Quando o segundo gol sai, o mundo vem abaixo. “É a classificação!”. O torcedor parecia não acreditar que agora não existia mais o fracasso diante do Grêmio. Muitos simplesmente começaram a chorar como meninos. Marmanjos de trinta anos, barba na cara, chorando. Abraços efusivos e depois de doze anos o Náutico de volta a elite do Campeonato Brasileiro.
Explode tudo. Não há mais estranhos. É como uma guerra, estamos todos no mesmo uniforme, basta isso. Basta isso. E o torcedor que reclamava do treinador agora o colocava no pedestal mais alto possível. “Hélio dos Anjos para presidente!”. Bandeiras começam a serem jogadas dentro do campo e os jogadores as levantam, em volta olímpica. Depois mergulham na água. Do gramado.
Carnaval na sede. Sorrisos e mais sorrisos. Quem foi que disse que o futebol é triste? Ninguém lembra mais de Náutico x Grêmio. Ninguém quer saber de mais nada. Quem disse que eu tenho problemas, meu time subiu para a primeira divisão. Chuva de palavrões em carreata. Palavrões que dignificam e ampliam um sentimento que nem sempre pode ser descrito. E depois falam que o futebol é irracional. É mesmo. Mas quem disse que o amor é racional?
Oi Felipe, que bacana seu texto. Só fiquei com uma dúvida: você coloca Parte II não porque há uma parte I do texto. É em referência ao jogo com o Grêmio, certo? Se for isso mesmo, não sei se você reparou, mas ficou um pouco confuso, fiquei procurando a parte I, hehe. Não sei se é caso para mudar não, é só para você saber mesmo. Abraço.
Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 20/11/2006 14:00
Oi Helena, tudo bem?
Olha: "Virou filme. O gremista Beto Souza fez questão de documentar tudo aquilo na chamada “Batalha dos Aflitos” e de chamar o filme ironicamente de “Inacreditável”, para a ira dos pernambucanos. Vi muita gente querendo a cabeça do diretor, em acessos de fúria." este trecho se refere ao jogo descrito nos dois primeiros parágrafos, a tal "parte I" do confronto. =P
Beleza, Felipe. Como te disse, não que fosse caso de mudar não, foi só uma observação de leitora, sobretudo uma leitora meio analfabeta no que diz respeito ao futebol...:) Abraço!
Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 20/11/2006 14:50
Não te preocupa, Felipe. Em 2007 pode rolar uma revanche por parte do Náutico.
Se precisar de ajuda na torcida, estamos aí.
Heh.
Sem querer lembrar pra coisa não ficar triste, mas esse jogo contra o Grêmio foi realmente inacreditável. O jogo tava ganho, Grêmio com um monte de jogador a menos. O gol foi num contra-ataque depois do goleiro do Grêmio defender o penâlti. O gol foi do Anderson, mó bom de bola que agora está no Porto. Achei o trailer do filme aqui. Fiquei com vontade de ver.
Thiago Camelo · Rio de Janeiro, RJ 21/11/2006 16:40Caraca. Isso aqui é ainda mais impressionante - http://www.youtube.com/watch?v=iv-IPwP24z0
Thiago Camelo · Rio de Janeiro, RJ 21/11/2006 16:51
Tenho tudo isso na memória. Apesar de eu ser TOTALMENTE imparcial com relação ao futebol de hoje, lembro de meu tio chorando pela incrível derrota do CNC.
Esse ano eles aproveitaram como nunca, afinal de contas, de volta à "elite do futebol brasileiro" depois de 12 anos é para ser muito feliz!
Felizes daqueles que aproveitaram essa gloriosa conquista alvi-rubra.
Galo!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Andre Intruso · Jaboatão dos Guararapes, PE 26/11/2006 14:59Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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