O meu primeiro contato com o projeto “Bossa B” (CCBB-Brasília) envolveu boa vontade mas, confesso, certa dose de preconceito. Queria ver o Zeca Baleiro cantar, mas, Marcio Greyck? O que seria isso? Eu sei, eu sei: além de preconceito, estava carregada também de ignorância. Marcio Greyck vendeu em discos, em pouco mais de uma década, o que pouca gente vai vender na vida. Foi regravado por uma lista gorda de colegas artistas. Ou seja, fez (e anda fazendo) a cabeça e os ouvidos de muitos. Não consegui ir ao primeiro encontro do projeto “Bossa B”. Subestimei a apresentação, deixei para comprar ingresso no dia (sábado), e soube então que as entradas já estavam esgotadas desde a terça anterior.
Na terça seguinte, estava eu lá, às 10h da manhã, na fila para compra de ingressos. O encontro da semana, de tema “O Protesto”, combinaria as letras militantes de Odair José e de MV-Bill. Cheguei ao teatro e recebi o programa do evento. O texto esclarecia que a idéia de Lu Araújo (idealizadora do projeto) era pensar a música produzida hoje no Brasil e, ao mesmo tempo, desmistificar os vários gêneros musicais combinados sob o rótulo “brega”. Foi por meio dessa idéia genial, personificada no palco em Odair José, MV-Bill e seus acompanhantes, sob condução inteligente, excêntrica, afiadíssima e hiperbem-humorada de Elke Maravilha, que tive o primeiro contato real não apenas com o tal do brega, mas também com o tal do Hip-Hop brasileiro.
Odair José, descobri, tinha um incrível poder de síntese e uma tremenda coragem. Conseguia, em uma canção, abordar temas polêmicos (teve muitas músicas censuradas pela ditadura militar) e agradar a um contingente de pessoas tão grande, que só mesmo o elitismo intelectual consegue ignorar. E o Bill? Quando entrou, imenso, no palco, tentava ocultar sua presença indisfarçável diante dos elogios explícitos e pouco ortodoxos de Elke Maravilha: “Bendita seja a mãe que te pariu, meu filho! Que é isso? Vai ser bonito e gostoso assim na...” O rapagão olhava o linóleo que cobria o palco, como se procurasse ali um buraco para se esconder. Mas, na hora de cantar...
Foi a primeira vez que vi Odair José. Foi a primeira vez que vi o Mensageiro da Verdade também, e ele me empolgou muito. O encontro em si foi muito feliz, mas o Bill estava radiante. Carregava e transmitia paixão nos gestos, nas palavras bordadas – metralhadas a quilômetros por segundo –, nos pequenos discursos que fazia nos curtos intervalos entre uma música e outra. Eu tentava me conter na cadeira. Queria dançar. Minhas pernas me puxavam para fora do assento, mas a vergonha vencia, sobretudo quando eu via que ninguém mais se levantava. Queria dizer ao Bill o que Elke dizia. Não aquilo que o deixava sem graça, mas que a sua paixão era louvável. Que era essa paixão que eu procurava encontrar no meu trabalho, no meu cotidiano, e que muitas vezes não achava. Queria dizer ao Bill que, naquele dia, ele promoveu um encontro meu com o novo (conhecia muito pouco – e ainda conheço – do trabalho dele, do Hip-Hop e do brega em geral) e com a esperança de que o engajamento que me falta (e, vejo, falta a muitos de nós) ainda possa ser recuperado e abraçado.
Na semana seguinte, mais uma vez enfrentei a fila do CCBB para ver, dessa vez, a apresentação dos românticos: Wando e Rita Ribeiro. Foi ótimo, divertido, enriquecedor cultural e musicalmente, renovador. Lu Araújo acertou mais uma vez. Mas o protesto de Bill ficou na minha cabeça. Fico pensando o que seria de pessimistas como eu se não houvesse pessoas como ele, que, apesar de torturadas por uma realidade duríssima, não deixam de acreditar que as mudanças podem ser promovidas. Fico pensando o que seria de mim se a Lu Araújo tivesse apenas pensado em encontros como os promovidos no “Bossa B”, e nunca os tivesse executado – como teria eu tido acesso ao protesto e à paixão que o Brega e o Hip Hop contêm? Enfrentei a fila do CCBB durante mais de uma hora. Nesse sentido, fiz a minha parte também. Fui ativa e participativa, de alguma forma. Ah! Também fui atuante quando, lá para o fim do show do MV e de Odair José, deixei minha empolgação me jogar para fora da cadeira e, finalmente, sucumbi à vontade de dançar e, assim, de certa forma, também à conclamação de Bill. Mas me falta sua paixão na luta diária. Me falta (e a muitos de nós, acredito) a mobilização, a indignação que consegue ultrapassar o ceticismo, que se levanta e vai à luta e, mais que isso, que vê na ação, uma possibilidade de transformação.
Cheguei em casa, depois do show do Bill e de Odair José, cheia de paixão. Corri para o computador para escrever ao meu orientador da pós-graduação sobre o evento e, mais especificamente, sobre o Bill. Sabia que ele conhecia o Mensageiro da Verdade, e talvez pudesse servir de transmissor dos meus elogios e da minha admiração. Então o orientador deu a sugestão: “Por que você não escreve para o Overmundo sobre o show e eu digo para o Bill ler?”. E foi aí que a diferença entre MV e eu mais uma vez se explicitou. Mais de um mês já se passou e só agora eu sento para concluir minha redação sobre aquilo que me parecia tão urgente e inadiável em 16 de julho. A dificuldade de terminar o texto vem, sobretudo, do distanciamento que já se consolidou entre o evento, o momento, e eu. Eu contribuí para que o tempo deixasse sufocar a minha maior motivação, o meu maior motivo de admiração, a tal da paixão.
A tarefa, então, está concluída. Não do jeito fervoroso (e talvez ideal) que imaginei há mais de um mês, mas, de alguma forma, feita. Espero que a iniciativa genial de Lu Araújo siga CCBB’s afora contribuindo cultural e filosoficamente, promovendo a desmistificação, derrubando preconceitos, propondo reflexões e novas perspectivas a partir da poderosa ferramenta que é a música. A Lu está de parabéns. Agradeço ao Bill pelos momentos de exaltação interna que promoveu em mim e espero que siga suscitando esse sentimento em outras pessoas; que também insista, intensamente, na derrubada da ignorância e da intolerância. Ao Hermano, obrigada por insistir (e desculpe se decepcionei). A mim mesma, perdão pela demora, pela oportunidade que dei para que a paixão fosse embora. A todos nós: torço simplesmente para que enxerguemos e toleremos sempre (caso não gostemos) os vários lados “B” de cada bossa.
E eu que perdi tudo isso! Nem me lembro desse evento no CCBB, ou por estar muito atarefada na época ou por ignorância mesmo....ou pelos dois motivos juntos! Avisa dessas coisas na agenda!
Ana Cullen · Brasília, DF 24/8/2006 17:54Ana, foi muito legal. Muito alto astral e enriquecedor. Mas comprar ingressos era um saco. Cerca de uma hora na fila às 10h da manhã de um terça - você ficaria impressionada de saber quanta gente em Bsb pode se dar ao luxo (inclusive eu!). Não me liguei de colocar o evento na agenda, mas, na próxima...
Beli · Brasília, DF 24/8/2006 18:20
Beli,
Não importa muito se demorou um mês para ser escrito: acabei de ler e achei inspirador o que você escreveu. Uma das limitações que os que recebem muita instrução temos é justamente idealizar as nossas ações. Em outras palavras, medo de errar disfarçado de alto nível de exigência. Obrigado e parabéns!
Carlos Augusto, cada palavra que você escreveu faz sentido. Vou pensar mais nisso (e tentar agir, além de pensar). Obrigada.
Beli · Brasília, DF 26/8/2006 11:39
Belo texto Beli !
Na minha opinião, o tempo não conseguiu sufocar sua paixão.
E o mesmo que você deseja ao Bill, desejo a você: que siga suscitando esse sentimento em outras pessoas, como eu.
E que belo projeto também !!!
Deu muuita vontade de ver e ouvir.
Um belo projeto, de fato.
Mas nao deixa de ser interessante ver como cada artista nos provoca um impacto diferente, e isso em grande parte depende da nossa experiência de vida. MV Bill é um tremendo exemplo de luta, mas confesso que me relaciono melhor com o som "brega" de Odair José - cujas letras foram subestimadas justamente por terem sido gravadas em tempos sombrios. Que isso não impeça outras realizações excelentes como essa aí do CCBB de Brasília, feitas para agregar, somar, reunir forças para lutar.
Excelente texto, Beli! Honesto, direto, e muito humano e criador de empatia. Deu para sentir o que você sentiu lá e, mais do que isso, deu para sentir uma terrível dor na consciência por não ter ido. Eu que, pior que a Ana, sabia do evento e não me liguei de ir...
Pior ainda, depois de ler isso ela vai querer arrancar minha cabeça :D
Parabéns pelo texto e pelo que você viveu lá nos shows. Continue com as boas colaborações...
Abraços do Verde.
Daniel,
a fila, como disse, valeu a pena. Você acredita que tem funcionário do CCBB que manda estagiário para a fila e ajuda a esgotar os ingressos das pessoas que não estão no CCBB desde as 9h da manhã? Pois é. Rolou até isso. Mas valeu a pena. Ah! Nesse dia o Bill teria ficado orgulhoso de mim (talvez). Fui reclamar desses eventos superanti-éticos que rolaram na fila do CCBB na ouvidoria deles.
Fez muito bem, Beli. Acho que o MV Bill teria ficado orgulhoso disso...
Mas... mais importante, vc fez a coisa certa. É um absurdo o desrespeito que algumas pessoas tem pelos direitos alheios, e pela igualdade de oportunidades...
Fiquei curioso sobre os desdobramentos da sua reclamação na Ouvidoria. Se a coisa der em algo, não deixe de nos contar...
Aliás... com um pouco de vontade, isso dá até uma matéria de Overblog, não acha? Algo sobre a civilidade e respeito/desrespeito nos eventos culturais (por parte da organização, dos participantes ou do público). Super pertinente...
Abraços do verde.
Lá vamos nós! Vai acontecer na terça-feira, dia 31 de outubro de 2006, o 2º Encontro de Overmanos e Overminas de Brasília. Daniel Cariello sugeriu ser no Manga Rosa (202 Norte, bloco D - loja 3 - Asa Norte- Tel: (61) 8404-2723), dizem que tem roda de samba de boa qualidade por lá às terças, eu achei perfeito e estou marcando oficialmente, convidando todos os colaboradores de Brasília do Overmundo e também os que não são daqui mas por acaso estarão pela cidade na ocasião! Para os tímidos: não se acanhem, todo mundo que entra aqui e faz um comentário, ou não, já é bem vindo no Encontro, "Ah! Mas eu nunca publiquei nada!" Não tem problema! É bem infomal! Uma galera se reunindo para conversar sobre cultura brasileira e brasiliense, no último teve gente tirando umas dúvidas sobre o funcionamento do overmundo, teve gente trocando figurinhas sobre épocas, lugares, pessoas da cidade, enfim! Só dar uma olhada na descrição do primeiro encontro pra ter uma idéia. Acho que 20 hrs é um bom horário, eu devo sair do trabalho e ir direto, para guardar umas mesas (não sei como é o movimento), para quem quiser chegar mais cedo eu já estarei por lá!
Enfim, venham! Sejam todos bem vindos! Na pior das hipóteses você vai conhecer algumas pessoas no mínimo engraçadas...
Abraços, Ana Cullen.
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