A BULGÁRIA É AQUI

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Henrique Araújo - Grupo TR.E.M.A · Fortaleza, CE
19/10/2008 · 156 · 3
 

Muito mais importante do que ir à Lua é ir ou pelo menos tentar ir à Bulgária – ou, quando menos, descobri-la. Campos de Carvalho

De todo o panteão de grandes escritores brasileiros, o mineiro Walter Campos de Carvalho (1916-1988) talvez – apenas talvez – fosse o menos indicado a adaptações ou transposições para o teatro. Afinal, como traduzir em gestos e cenários peças literárias cuja graça são os refinados jogos de palavras, as construções absolutamente insólitas e o flerte recorrente e irrefreável com o absurdo? Como garantir efeitos semelhantes aos obtidos pela escrita atipicamente rasa – feita de modo simples, sem contorcionismos lingüísticos tão na moda – e profunda – porque os resultados são envolventes? Resposta: levando os textos integralmente para o tablado e entregando-os nas mãos dos atores para que sejam lidos e, pari passu, interpretados.

Foi o que fez o diretor cearense Aderbal Freire-Filho, 67 anos, com O Púcaro Búlgaro (1964), último dos livros escritos por Campos de Carvalho. Nele, um homem busca provar a existência da Bulgária após deparar-se em um museu da Filadélfia com um objeto curioso: um púcaro búlgaro. Sim, um vaso supostamente búlgaro é o estopim da aventura, cuja transposição foi apresentada nos últimos dias 15 e 16, no teatro do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, em Fortaleza. Em 2006, após perseguir mentalmente o próximo alvo do seu projeto teatral batizado apropriadamente de romance-em-cena (nos anos anteriores, Freire-Filho havia montado as peças A mulher carioca aos 22 anos e O que diz Molero, ambas sob o mesmo método), o diretor decidiu encarar a obra de Carvalho, lida ainda nos anos de 1970. “Foi um romance que me fez ler depois todos os romances do Campos de Carvalho, acompanhar as produções dele no Pasquim”, relembra Aderbal.

Em entrevista por telefone, o diretor, que vive no Rio de Janeiro há algum tempo, falou sobre a experiência de “adaptação absoluta” do romance. Entenda-se: “absoluta” quer dizer total e não que o trabalho sobre o texto de Campos de Carvalho seja definitivo. Diz mais sobre a técnica empregada e menos sobre os resultados. “Porque pra não mexer no literário eu tenho que fazer uma enorme adaptação. Eu sempre digo que é montar um romance com uma adaptação absoluta.”


Henrique Araújo - Como tem sido transpor O púcaro búlgaro para o teatro? Que dificuldades vocês têm encontrado?

Aderbal Freire-Filho - Eu já tinha feito dois romances antes. A mulher carioca aos 22 anos foi inclusive ao Ceará e depois a Portugal. Foi o primeiro desses romances. Depois fiz O que diz Molero. Um com narrador onisciente. Eu achava que tinha que ser esse tipo de romance, que era o único que permitia fazer essa coisa. Logo que fiz o segundo quis fazer o terceiro. Eu li O púcaro búlgaro na época em que foi publicado, nos anos 70. Foi um romance que me fez ler depois todos os romances do Campos de Carvalho, acompanhar as produções do Campos de Carvalho no Pasquim. Ele era um romance narrado por um personagem.

Henrique - Por suas características, você não chegou a achar que ele não se adequava para o tipo de teatro que você queria fazer?

Aderbal Freire-Filho - Eu achei que ele não se adequava. Foi por isso mesmo que eu quis fazer. O elenco chegou a duvidar de que haveria possibilidade. Logo na primeira cena eu fiquei andando, procurando caminhos. Eu achava que essas introduções que o livro tem já davam o tom do romance. Mas o romance em cena é isso, a vontade de levar o romance com as suas potencialidades para o palco. Porque adaptar pura e simplesmente é algo corrente. O que eu queria era aproveitar as virtudes do romance, o estilo do autor, o estilo literário dele. E com isso recusar o preconceito entre teatro e literatura. É o que interessa no romance em cena. Tem uma busca de mostrar que o teatro continua teatro fazendo isso, não deixa de ser teatro. Essa nova relação valoriza a palavra por usar o teatro. Não é quando o teatro se omite, quando é só o lugar onde os atores dizem o texto, mas quando os personagens desenvolvem as suas potencialidades cênicas. Eu tiro o que é dramaturgia de dentro do romance. É andar pelo labirinto do romance e escolher o que pôr em cena. Você pára no momento e a partir dali o romance se espraia. Tem uma cena do livro que eles descrevem um passeio em Copacabana. E fazem todas as outras coisas a partir dali. E aí entra um personagem que não tem no romance, que é o garçom. Ele não tem fala. Se no romance houvesse alguma coisa, ele teria. Como não tem... Essa colocação do que é narração e ação, do que é passado e presente, do que é dito em terceira pessoa mas vivido em primeira. E aí a escolha dessas cenas, de como elas vão encontrando uma dramaturgia dentro daquela peça. Eu sempre digo que é montar um romance com uma adaptação absoluta. Porque pra não mexer no literário eu tenho que fazer uma enorme adaptação. A dramaturgia vai muito além do simples diálogo.

Henrique – Como essas quarenta cenas do espetáculo estão estruturadas, divididas?

Aderbal Freire-Filho – Quarenta cenas?! Bom, desde a estréia, em 2006, eu nunca parei pra contar (risos). Mas deve ser isso mesmo. A minha divisão é a mesma do livro. Tem corte, sim. O que não tem é acréscimos. Mas O púcaro búlgaro tem um. As outras duas montagens não têm nada. Há cortes internos. Os anteriores eram criticados por longos. Com O púcaro... a gente conseguiu estrear com cerca de duas horas. Agora tem menos. Hoje deve ter uma hora e quarenta. Ele vai seguindo a trajetória do livro. Neles geralmente os personagens se revezam, cada um deles faz um dos expedicionários e se revezam na interpretação do protagonista.

Henrique
- Campos de Carvalho tem um inegável vezo humorístico. Qual o lugar do humor na peça?

Aderbal Freire-Filho - Campos de Carvalho tem um humor de características variadas. Ele vai do culto ao popular. É bom quando as platéias absorvem os dois. Aqui em São Paulo a peça encontrou essa platéia. No Rio demorou mais um pouquinho. Eu não sei que platéia certa é essa, mas é uma que deve estar aberta ao humor do Campos de Carvalho, que é um absurdo. O discurso do Radamés é muito engraçado, as pessoas riem muito no teatro.

Henrique - Como esse absurdo da prosa do escritor repercute no cenário de O púcaro búlgaro?

Aderbal Freire-Filho – Pra fazer esse cenário, eu me inspirei um pouco num romance do Machado de Assis. Bom, é uma viagem dentro do quarto. Ele é basicamente isso. Por esse lugar, que é marcado por alguns móveis e nada mais. Uma banheira, que tem no livro do Campos de Carvalho... Dessa citação a gente puxou o cenário. Puxou a banheira como principal elemento. A banheira acompanhada de uma luneta e ao lado dela, cadeiras, mesas, privada, poltrona. Esse é o central. Mas ele tem duas construções laterais que são duas referências de navegação e de teatro ao mesmo tempo. São dois camarins que remetem a estruturas de uma embarcação. Cada um deles tem uma enorme roda com correias que os atores giram e formam uma máquina do tempo. Entre uma cena e outra essa roda é girada. Cada uma das cenas é anunciada com o ator girando, movimento que é acompanhado por uma sonoridade estranha. Ele gira, diz a data e a cena começa. O ator sai de cena e entra nela. O cenário é isso.

Henrique - Fala-se bastante sobre a trilogia formada por O púcaro búlgaro e as montagens anteriores. Em rápida conversa, o ator Gillray Coutinho, que está na peça, disse que você “não assina embaixo disso”. Afinal, é uma trilogia e um ciclo que se fecha ou não?

Aderbal Freire-Filho
- Eu não pensei como uma trilogia. Eu não disse vou fazer uma trilogia como Gorki disse “Vou fazer uma trilogia sobre os comerciantes”. Depois que fiz o primeiro fiquei louco para fazer o outro. Eu fiquei sempre procurando o segundo. E depois disso, quando fiz o segundo, eu fiz o terceiro, mas ainda assim não pensei que estava fechando nada. Mas também não tenho nada contra a idéia de trilogia. Porque as três montagens compõem uma unidade. Levando em conta o tipo de narrador de cada romance tem. Por tudo isso, eles fazem uma unidade.

Henrique - Então os romances-em-cena têm continuidade...

Aderbal Freire-Filho - Quanto a seguir em frente, estou cheio de dúvidas. Mas quero fazer uma coisa séria, sem humor (risos).

Henrique - A repercussão que O púcaro búlgaro vem obtendo o surpreendeu de alguma forma?

Aderbal Freire-Filho
- A primeira repercussão que me surpreendeu foi ser sucesso. Esse livro do Campos de Carvalho, que tem um jogo permanente de palavras, essa coisa meio dadá, esse surrealismo... Tem uns óculos no espetáculo que são realmente dadá. Há um personagem que usa esses óculos. Não é como um monóculo, não. Então tem isso. Eu fui no cênico também em busca desse absurdo da obra do Campos de Carvalho. Esse tipo de humor extraordinário do Radamés. Sabe, quando a gente começou os atores nunca tinham lido Campos de Carvalho. Eu disse “Tem que ler” e ler também os outros livros. As pessoas encomendaram, não tinha na livraria, mas tinha para encomenda. Eu só tinha o meu exemplar. Portanto, a primeira surpresa foi encontrar um público para um romance como esse. E o sucesso do espetáculo, que venceu três prêmios no ano de estréia, em 2006, contribuiu para que o livro voltasse às livrarias. Tem uma edição das obras reunidas do Campos de Carvalho circulando, mas agora tem também uma separada, com O púcaro búlgaro. Eu assino a orelha dele. Falo do Ceará na orelha. Curioso é que muita gente achava que eu tinha colocado de propósito aquela cena final no espetáculo, a que fala que o Ceará não existe. Como a Bulgária não existe, o Ceará não pode existir. Estou muito curioso para saber como o público cearense vai reagir ao saber que o Ceará não existe (risos).

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Ilhandarilha
 

Pô, tem hoje aqui em Vitória, no Festival Nacional de Teatro. E eu não consegui ingresso!!!

Ilhandarilha · Vitória, ES 17/10/2008 15:59
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Henrique Araújo - Grupo TR.E.M.A
 

É realmente uma pena, Ilha...

Henrique Araújo - Grupo TR.E.M.A · Fortaleza, CE 18/10/2008 16:39
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Samuel Luciano Assunção
 

oi henrique...vi o púcaro búlgaro aqui em Angra...no quinto festival de teatro da cidade...que aconteceu em setembro...
bela obra com excelentes atores e um cenário maravilhoso.

parabéns pela entrevista com aderbal e valeu por ter me feito lembrar deste trabalho.

abraços

Samuel Luciano Assunção · Angra dos Reis, RJ 19/10/2008 13:22
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