A cachorra Baleia e o início da aventura literária

Cena do Filme Vidas Secas (1963), de Nélson Pereira dos Santos
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Marcelo Viegas · São Bernardo do Campo, SP
5/4/2008 · 263 · 13
 

A famosa série Vaga-Lume, lançada pela Editora Ática, com toda certeza marcou uma geração: “O escaravelho do diabo”, “Éramos seis”, “A ilha do tesouro perdido” e outros tantos livros, se tornaram peça fundamental na formação cultural (?) de cada um de nós (os trintões e quarentões de plantão).

O interessante é sair pesquisando – como faço de tempos em tempos, ou pelo menos quando lembro de fazer – qual foi o livro de ruptura. Todos tivemos um livro de ruptura, responsável pelo término das ilusões infantis e início das descobertas da vida adulta, pelo menos na esfera literária. É relativamente fácil identificar o livro responsável por tal estrago, principalmente se levarmos em conta que tal experiência sempre deixa seqüelas... Comigo foi mais ou menos assim: iniciava-se a sétima série na saudosa E.E.P.G. Profª Anésia Loureiro Gama (São Bernardo do Campo, SP) e o espírito da coleção Vaga-Lume ainda era nosso, senão único, ao menos principal referencial de literatura. Havia uma professora de Língua Portuguesa muito severa chamada Célia Aiko (nunca vou esquecer esse nome), que provocava arrepios e desconforto cada vez que entrava na sala de aula, com seu material debaixo do braço. Todos já tiveram uma Célia Aiko na sua vida: odiada a princípio, o valor dessa rara categoria de professoras só é notado anos depois. Com exceção dos autodidatas, todos devemos muito as Aikos da vida, são elas as responsáveis pelos primeiros passos da nossa formação intelectual. Pois bem, ela já havia avisado que teríamos leitura nas férias e que no segundo semestre faríamos uma prova sobre o livro em questão, um tal de “Vidas Secas”.

Aquilo foi um “baque” na minha vida, imaginem um guri de 13 anos acostumado a ler histórias em quadrinhos e série Vaga-Lume encarando um Graciliano Ramos logo de cara. Foi páreo duro! Os comentários eram unânimes: ninguém estava entendo patavinas!
Ela parecia se divertir com nosso desespero com a proximidade da prova. O que fazer? A quem recorrer? Vamos matar essa mulher? Uma cachorra chamada Baleia? Que porra é essa?

O único remédio foi ler. Confesso, foi um parto difícil! Mas com o passar das semanas começamos a nos acostumar com o novo desafio; digo “acostumar” porque compreender seria exagero frente as nossas inegáveis limitações teóricas. Acho mesmo que essa era a intenção da agora célebre docente, nos apresentar um mundo novo, repleto de possibilidades e também de mazelas, belo e injusto, complexo e fascinante, como comprovaríamos dali em diante...

Por outro lado, tenho absoluta certeza que até hoje esse livro deve causar arrepios em muitos daqueles jovens estudantes, horrorizados com o rito de passagem desenvolveram verdadeira ojeriza a literatura de modo geral. Ora, como diria o general, alguns soldados sempre morrem na batalha.

A conclusão é óbvia, porém necessária:
Graciliano Ramos marcou minha vida.
Célia Aiko marcou minha vida.
E mais do que ninguém, uma cachorra chamada Baleia ainda corre e late na minha mente lado a lado com os heróis dos gibis.


Marcelo Viegas, 33 anos, é cientista social, redator da revista CemporcentoSKATE e colaborador da Rolling Stone Brasil.

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Higor Assis
 

Oi, Marcelo !

Gostei do seu escrito. Realmente a gente tem essa ruptura em nossa vida de estudante. Gostei também da forma que escreveu. Trouxe uma aproximação gostosa ao leitor e uma sensação com uma leve sensibilidade e, até um saudosismo gostoso. Parabéns!!!

Em tempo: Li e lia muito a revista 100%. Parei quando resolvi me dedicar mais aos estudos e o futsal rs..

(Minha canela vivia destruida por causa do skate)

Higor Assis · São Paulo, SP 2/4/2008 14:14
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Marcelo Viegas
 

Obrigado, Higor!

Um pouco de saudosimo não faz mal a ninguém, né?

Marcelo Viegas · São Bernardo do Campo, SP 2/4/2008 15:16
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crispinga
 

Marcelo,
Remexer o baú das memórias escolares é muito bom. Lembro-me de como chorei ao ler "Éramos seis", "Escrava Isaura", "Vidas Secas" e toda aquelas literatura obrigatórias nas escolas. Realmente, a perda da inocência e o início de uma fase de questionamentos que, na minha época, em plena ditadura militar, muitas vezes ficavam sem resposta!
Um abraço

crispinga · Nova Friburgo, RJ 5/4/2008 10:26
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clara arruda
 

Muito boa lembrança,sabe que tenho coleções que dinheiro nenhum poderia me fazer vender.Voto por suas lembranças e pelas que ainda leio.

clara arruda · Rio de Janeiro, RJ 5/4/2008 17:26
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Andre Pessego
 

É, Marcelo,
não me lembro direito. Tive como suplício, já aos 7 anos ler para toda a parentada e visitas os livretos de cordel. Chegou alguém já meu pegava um - Pavão Misterioso; Princesa da Pedra Fina..... de menos sacrificante uma das cartilhas - "A Cartilha da Lili"; tinha a´te uma com o nome de Éramos seis, só muitos anos depois a televisão me esclarecia porque.
.... Mas o que eu atobuo mesmo como incetivo - foi de uma biografia do Mal. Lott, que achei e li num exemplar da Revista O Cruzeiro... aquela foi demais..
um abraço,
andre.

Andre Pessego · São Paulo, SP 5/4/2008 18:07
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Denis Sen@
 

Viva o resgate cultural!!!

Denis Sen@ · Salvador, BA 5/4/2008 19:25
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andrea dutra
 

hmmmm, acho que meu livro de ruptura foi Tereza Batista cansada de guerra, de Jorge Amado. Depois daquela xaropada d'A Moreninha, aos 13 anos, ler Janu Gereba, o Janu do bem-querer, chamando Tereza de favo-de-mel, com aquela humanidade toda, foi libertador. belo tema, belo texto, parabéns!

andrea dutra · Rio de Janeiro, RJ 5/4/2008 22:34
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BETHA
 

Olá, Marcelo,
mexeu com minhas memórias... não me lembro bem do livro de minha ruptura, porque minhas leituras sempre oscilaram muito, mas com certeza foram os clássicos do Realismo em diante.
Já tive dessas professoras, hoje sou uma delas, percebendo isto quando reencontro antigos alunos, agora amigos atuais a recordar junto comigo suas experiências de leitura ( ou de leitor em formação ).
Seu texto é excelente! Trouxe-me saudades da cachorra Baleia, do Menino do dedo verde, da misteriosa Capitu e até do tempo de universidade, quando tive que ler Os Lusíadas em apenas dois dias, com uma tremenda conjuntivite! Parabéns...
Abçs de Betha.

BETHA · Carnaíba, PE 6/4/2008 10:11
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Roberto Girard
 

Marcelo,
Tantas memórias arrancadas do fundo do baú com este seu texto primoroso.
Faço minhas, as palavras da querida BETHA, se me me permite o empréstimo ?!
Uma abraço,
Votos com louvor a sua obra.
Beto

Roberto Girard · Rio de Janeiro, RJ 6/4/2008 11:15
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Vitor Braga
 

Porra, muito legal esse relato!
Tenho orgulho de ter um Graciliano como conterrâneo meu.
Você tocou em um ponto fundamental: um "Vidas Sêcas" e uma Célia Aiko são cruciais para aproximar ou distanciar os adolescentes da literatura (para sempre).

Parabéns!

Vitor Braga · Maceió, AL 6/4/2008 13:18
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Marcelo Viegas
 

Obrigado a todos: Crispinga, Clara, Andre, Deniz, Andrea, Betha, Roberto e Vitor. Tanto pela paciência em ler o texto, quanto pelas palavras gentis.

Viva o saudosismo!

Marcelo Viegas · São Bernardo do Campo, SP 7/4/2008 10:50
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Cida Almeida
 


Marcelo, cheguei um pouco atrasada ao seu texto, mas o prazer de lê-lo compensou as andanças de hoje por aqui. Acho que compartilhamos de memórias e sensações parecidas. Até hoje me lembro do final de Éramos Seis: “Os telhados cor de cinza solidão”. Também li com imenso prazer de aventura o Escaravelho do Diabo, A Ilha do Tesouro. Também me apaixonei pela personagem Clarissa, do Erico Veríssimo, e a segui em Música ao Longe, Um Lugar ao Sol – a pintura de palavras do Vasco olhando pela janela, na sombria paisagem do minuano, acompanhando o cachorro que procurava um lugar ao sol me acompanha até hoje. É claro que você me levou a pensar no meu livro de ruptura. Acho que o choque veio com A Carne, do Júlio Ribeiro, e O Cortiço, do Aloísio Azevedo. Mas o itinerário de Vidas Secas foi fundamental na minha aventura literária. Tanto que Graciliano Ramos foi o primeiro a habitar a minha estante com sua obra completa. Recentemente separei Vidas Secas e mais uns três do Graciliano para releitura. Impossível não lembrarmos dos professores que nos abriram o caminho das pedras preciosas da leitura. Que o mundo tenha cada vez mais Célias Aikos, Neusas Furtados, Helenas, Doras... Parabéns pelo texto instigante.

Beijo grande,

Cida Almeida.

Cida Almeida · Goiânia, GO 7/4/2008 16:07
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FILIPE MAMEDE
 

Que artigo bacana Marcelo. Ainda comungo na casa dos vinte e poucos mas também comecei com esta série. Lembro de pegar as rebarbas da minhã, dois anos na frente. Muitos livros acabei lendo antes da hora e, que eu me lembro, um livro que para mim foi divisor de água, era um chamado O Anjo da Morte, que até pelo título, já me causava um certo estranhamento, enfim...

Obrigado pela saudade.
Um abraço.

FILIPE MAMEDE · Natal, RN 7/4/2008 23:51
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