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A camerata de Acari é um sucesso

Pedro Pantoja
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Saulo Frauches · Rio de Janeiro, RJ
9/6/2006 · 126 · 2
 

Sílvio Sanuto tem 21 anos, usa um boné branco virado para trás e veste uma camisa azul, com o escudo do Capitão América estampado ao centro. Pois é, você adivinhou: ele está pronto para tocar em uma camerata, onde o repertório vai de Bach a Villa-Lobos. Sílvio é um dos garotos que participam desde o início do projeto ABC & Arte, voltado à profissionalização musical, em Acari, existente há quatro anos e que abriga 340 alunos. É o único percursionista de uma camerata que ainda engloba bandolim, cavacos, violas de dez cordas, violões, baixo acústico e flauta. Iniciado na música pelos teclados, Sílvio descobriu no projeto de Acari que tinha facilidade com percussão. Aprendeu de forma autodidata, inclusive, a tocar cajón – aquela caixa de madeira batucada por vendedores de laranja peruanos.

O percursionista é um dos talentos peneirados por um projeto que tem como meta criar um Centro de Ópera Popular. O ponta-pé inicial foi de Avamar Pantoje – idealizadora do ABC & Arte -, moradora de Acari e diretora de uma escola municipal por lá mesmo – a Alexandre de Gusmão. Uma excursão escolar rendeu uma cena tão bizarra que foi o estopim para a iniciativa: um aluno com 16 anos de idade pediu-lhe para conhecer o mar e ver se era realmente salgado. Em pleno Rio de Janeiro. Da necessidade de se fazer algo por eles, surge a música como forma de levar 'maior vivência' – nas palavras da diretora – para os estudantes.

- Queria um projeto para elevar a auto-estima, com o objetivo de acolher e que envolvesse um lado artístico. Ao saber de um trabalho em uma escola na Pavuna apoiado pelo Instituto C&A, mandei umas dezesseis cartas para eles – conta, para logo em seguida rir do próprio exagero e destacar que obteve apoio.

A estrutura do projeto é de apenas um salão – alugado – mais os instrumentos adquiridos, tudo mantido com um apertado orçamento. Há professores contratados para ensinar às centenas de alunos e a única coisa cobrada deles é a presença.

Avamar convidou o amigo Caio Cezar, músico profissional, para ser o diretor artístico da empreitada. No início, o plano era atender apenas crianças freqüentadoras da escola da diretora. Permaneceu assim sequer por seis meses.

- Não dá para criar critérios de exclusão em uma comunidade que já é excluída. O que que eu falaria para um senhor que quisesse ter aulas de cavaco? 'Desculpe, mas você chegou 30 anos atrasado'? Não posso. Hoje o projeto recebe gente de todas as idades e até das redondezas de Acari.

Para formar o Centro de Ópera Popular, Caio explica que a estrutura se baseia em três pilares: um núcleo de dança, um de teatro e outro de música – este último capitaneado pelo próprio. A produção de uma ópera popular viria da junção destas três forças. No momento, as aulas de dança estão paradas por falta de professores; há 115 meninas na fila à espera de lições de balé. Mas a previsão de Caio para que os três núcleos funcionem e a ópera popular saia é otimista: um ano.

- Estes núcleos também têm vida independente. A camerata está pronta. Usamos instrumentos 'brasileiros' e executamos um repertório que pode ser visto em concertos – conta o músico, todo orgulhoso com as apresentações que a camerata fez pelo sudeste e nordeste, como no Festival Internacional de Música Clássica, o Mimo.

Ver tanta gente entrosada com repertório clássico pode levar algum desavisado a formular uma pergunta imbecil, mas razoável diante das circunstâncias: será que em Acari o pessoal só ouve música clássica? Afinal, só se falou nisso até agora.

- Tenho dois roqueiros que tocam viola caipira de dez cordas muito bem. Tem gente do funk e do pagode. Eles vêm para cá fazer outra coisa, diferente do que estavam acostumados. E todo mundo se dá muito bem – conta Caio ao lembrar que, no projeto, há desde alunos que começaram do zero aos descobertos em bandas de rock ou grupos musicais de igrejas.

Há um certo pragmatismo no trabalho feito em Acari. Caio acha que a produção artística é uma forma de encaminhar e levar as pessoas para o mercado de trabalho. Avamar ensaia ter uma úlcera ao ver um discurso paternalista no ar.

- Nós não somos salva-vidas ajudando coitados. O projeto só possibilita algo que eles têm condições de fazer – assinala.


'Futiboi', dedicação e diversão


Quem vê o pessoal da camerata em cena, entrecortando intervalos de música com toneladas de brincadeiras, piadas e zoações internas, pesca logo de cara a amenidade do clima. Só não ouse associar diversão à falta de profissionalismo. E o que ressalta André Cesari, 14 anos, 'o cara' do bandolim e caçula do time profissional.

- A galera aqui brinca, mas, na hora de trabalhar, o pessoal é sério! - ressalta o garoto, no projeto desde os 10 anos, parecendo preocupado em fazer a fita do pessoal.

Não precisava, André. Só de ver a dedicação de todos na hora do 'tá valendo' dissipa qualquer dúvida. O jovem tocador de bandolim, aliás, é um dos mais elogiados pelo grupo devido a entrega ao mundo da música.

- Não tem jeito: para tocar bandolim você tem que treinar diariamente – sentencia.

Iuri Nascimento, 23 anos, faz parte da ala roqueira comentada por Caio. Integrante do projeto desde o início, conta animadíssimo que já percorreu lugares do país como Minas e São Paulo por causa da camerata.

- O Caio me indicou para tocar viola caipira porque viu em mim habilidade com a palheta. Eu já tocava guitarra em uma banda que mistura rock, MPB e jazz, que tenho até hoje, e topei participar. A viola caipira tem um timbre parecido com o cravo, é bom para a música clássica.

Demolir preconceitos foi outro grande trunfo apontado por Iuri ao participar da camerata. Ele acredita que provavelmente não conheceria ou teria contato com outras pessoas simplesmente por não compartilharem sons em comum.

- Nunca me imaginaria tocando ao lado do Bruno, do cavaco, que gosta de pagode. É um tipo de música que não gosto. Este contato me fez descobrir gente muito talentosa, como ele – fala, ao ser logo interrompido por algum amigo da camerata.

- Esse cara é bom! - enquanto congela o dedo indicador apontado em direçao ao Iuri.

Inicia-se uma série de elogios recíprocos. Em meio a tanta camaradagem, tem espaço para deboche também. Iuri faz jogo duro para entregar os podres das brincadeiras. Mas revela uma gíria comum a todos.

- Quando tem alguma roubada, como tocar numa festa de quinze anos ou algo esquisito, um logo fala para o outro que é 'futiboi'. É que vi uma entrevista do Marcelo Madureira, do Casseta e Planeta, em que ele contava que foi animado cobrir uma partida (de futebol disputado por bois). Ao chegar lá, viu um monte de boi parado. Mal tocavam na bola – ri.

O som da camerata, contudo, está longe de ser um 'futiboi'.

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Heloisa Fischer
 

Eu já estive lá em Acari conhecendo o projeto do Caio...e é mesmo muito bacana. Um trabalho sério, de qualidade musical e que ainda vai dar muito o que falar!

Heloisa Fischer · Rio de Janeiro, RJ 8/6/2006 23:14
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Egeu Laus
 

Longa vida a Camerata de Acari!
Cujo nome é AcariOcamerata...
Abraços para Avamar, Caio Cezar e Elizah Rodrigues

Egeu Laus · Rio de Janeiro, RJ 27/1/2007 10:23
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