A capoeira e sua musicalidade
A musicalidade na capoeira tem papel fundamental, pois dela se desencadeia boa parte do processo ritualístico da capoeira, ou seja, é a partir da musicalidade que os movimentos são executados, os instrumentos são tocados e as cantigas entoadas. Portanto, toda a contribuição da musicalidade no processo pedagógico infantil poderá facilmente ser transportado para a intervenção da capoeira neste contexto, haja vista que a mesma é condição fundamental para a prática da capoeira.
O ritmo, elemento potencialmente explorado na musicalidade da capoeira, tem o poder gerador de impulso e movimento no espaço, desenvolvendo a motricidade e a percepção sensorial, além de induzir estados afetivos, contribuindo para algumas aquisições, tais como: Linguagem, leitura, escrita e lógica matemática.
Sobre cirandas e danças cantadas, segundo Lê Boulch (1982, p.182) “A associação do canto e do movimento permite a criança sentir a identidade rítmica, ligando os movimentos do corpo e os sons musicais. Estes sons musicais cantados, emitidos pelas crianças e ligados a própria respiração, não têm o caráter agressivo que pode revestir um tema musical no qual a criança deve adaptar-se aos exercícios de sincronização sensório-motora. Esta atividade representa um estágio prévio ao ajustamento e um suporte musical imposto à criança”.
O trabalho musical da capoeira proporciona o ajustamento rítmico da criança correlacionando a noções de tempo-espaço, o que favorece um maior equilíbrio emocional da mesma, melhorando as relações com os outros colegas a partir do respeito do ritmo do outro e de si mesmo.
Na utilização dos instrumentos da capoeira (berimbau, pandeiro, atabaque e outros) podemos estar dando significativa contribuição no que tange ao desenvolvimento da coordenação motora fina, pois a partir do manuseio desses instrumentos a criança perceberá as implicações de gestos menores (finos), relacionados aos objetos, o que possibilitará uma melhoria no processo de escrita, dentre outros em que esta habilidade é necessária. Ainda podemos perceber o importante papel dos instrumentos musicais, como objeto material, no trabalho com crianças a partir do segundo ano de idade, pois segundo Lê Boulch (1982, p.39) “A investigação no mundo dos objetos traduz-se por uma atividade percepto-motora que vai permitir a aquisição rápida das práxis, assegurando o desenvolvimento da função de ajustamento, dando um suporte à organização perceptiva. Por outro lado, a ação sobre o objeto permite a criança experimentar o peso e a resistência do real”.
Um outro aspecto importante sobre a musicalidade é que a capoeira tem, tradicionalmente, sua difusão pautada na oralidade, que tem nas cantigas um mecanismo importante de desenvolvimento fisiológico da fala, bem como de transmissão da cultura de geração para geração, ou seja, as letras das cantigas são carregadas de ditos populares e parábolas que traduzem posturas morais, cívicas e afetivas, que quando bem orientadas por uma intenção pedagógica crítica e com nexos na totalidade, podem servir de estratégia na construção de uma sociedade mais justa e humana.
O “movimento” e a capoeira
O “movimento” tem papel de grande relevância no desenvolvimento de crianças de 0 a 6 anos, sendo fundamental na construção da cultura corporal humana. Por tudo isso, é papel preponderante das instituições de Educação Infantil criar possibilidades materiais, estruturais e pedagógicas para a construção de um universo que possibilite o trato com situações-problema no campo do movimento, pois desta forma serão potencializadas as suas propriedades benéficas na edificação de melhorias no campo afetivo, motor, cognitivo e social.
Por em sua essência, a capoeira ser uma atividade eminentemente prática, enfocando no jogo da roda de capoeira um de seus momentos mais sublimes e característicos, e por este jogo se consolidar a partir de movimentos corporais, a capoeira funciona como importante agente facilitador no trato com o movimento na Educação Infantil. Através da atividade com a capoeira a criança poderá facilmente familiarizar-se com a imagem do próprio corpo, pois os exercícios que permeiam a prática da capoeira envolvem todas as partes do corpo, inclusive contando com a aquisição de gestos que são associados a uma cadência rítmica em dinâmicas que fortalecem a integração dos envolvidos, ajudando no amadurecimento das noções tempo-espaço, além de desenvolver, cada vez mais, uma atitude de interesse e cuidado com o próprio corpo.
A capoeira auxiliará na ampliação das diferentes qualidades físicas e dinâmicas do movimento, pois são freqüentes as situações em que os alunos são convidados a simularem movimentos que começarão de naturais, a exemplo da ginga, que nada mais é do que uma variação do ato de andar, até situações de maior elaboração técnica, melhorando a condição do andar, correr, pular, trepar, equilibrar, rolar, além de trabalhar força, velocidade, resistência e flexibilidade, aliado a um suporte lúdico, que é fator preponderante para a prática da capoeira e nas intervenções pedagógicas com crianças de 0 a 6 anos. Segundo Rego (1968, p.359) que compartilha da idéia de que luta e brincadeira são componentes da capoeira: “primitivamente a capoeira era o folguedo que os negros inventaram para os instantes de folga e divertirem a si e os demais nas festas de largo, sem, contudo deixar de utilizá-la como luta no momento preciso para sua defesa”.
O ritual da capoeira e as relações interpessoais
Neste item temos um elo fundamental entre toda a parte técnica descrita acima e as possibilidades da capoeira enquanto ferramenta pedagógica da classe operária, pois, estas relações interpessoais, no ambiente da capoeira, são regadas por símbolos ritualísticos que reforçam a “produção” coletiva para o coletivo, com uma relação de ensino-aprendizagem horizontalizada que só funciona a partir da participação democrática dos envolvidos na ação pedagógica, ou seja, quando abordada nesta perspectiva, a capoeira estará firmando as bases da revolução social. Segundo Pistrak (2000):
Se quisermos desenvolver a vida coletiva, os restaurantes coletivos, os clubes, etc, devemos formar entre os jovens não somente a aptidão para este tipo de vida, mas também a necessidade de viver e trabalhar coletivamente, na base da ajuda mútua, sem constrangimentos recíprocos. Este é o único terreno que podemos escolher se quisermos obter resultados positivos na luta que se trava por um novo modo de vida. (p.54)
Uma das grandes lições que a capoeira encerra em seu arcabouço ritualístico é a questão do “aprender fazendo” atrelado à contextualização do conteúdo, ou seja, esta herança que herdamos da sociedade africana nos ensina que não devemos dicotomizar a ação prática do aprendizado teórico, isto é, boa parte de tudo que aprendemos na capoeira acontece por uma experimentação prática, que geralmente é catalisada por um ambiente que mescla indivíduos com diferentes experiências, mediados pela intervenção do mestre para a produção de um bem comum a todos. O ensino da capoeira aponta para uma relação democrática entre educandos e educadores, fortalecendo a zona de desenvolvimento proximal, apresentada por Rêgo (1995, p.73) como “à distância entre aquilo que ele é capaz de fazer de forma autônoma (nível de desenvolvimento real) e aquilo que ela realiza em colaboração com os outros elementos do seu grupo social (nível de desenvolvimento potencial) caracterizando aquilo que Vygotsky chamou de “zona de desenvolvimento proximal ou potencial” ”. Ainda segundo Rego (1995, p.74) “o aprendizado é o responsável por criar a zona de desenvolvimento proximal na medida em que, em interação com outras pessoas, a criança é capaz de colocar em movimento vários processos de desenvolvimento que, sem a ajuda externa, seriam impossíveis de ocorrer”.
É importante lembrar que todo este processo de construção do conhecimento está sempre permeado, na capoeira, por uma forte relação de respeito mútuo e parceria, pois o conceito de coletividade (“irmandade”) prevalece durante todo o ritual da capoeira, apesar da mesma ser freqüentemente confundida com o jogo atlético e competitivo, negando o objetivo natural desta arte que é “jogar com” e não contra o outro, ratificando a unidade da dupla sob o signo de parceria, que prevalece também dentre os outros componentes da roda.
No trabalho de capoeira com crianças pequenas, podemos perceber nitidamente uma melhoria nas relações interpessoais, ajudando desde crianças muito introspectivas até aquelas com problemas de hiperatividade, equilibrando as relações e promovendo uma sensível melhora da auto-estima, pois a constante necessidade de realização coletiva garantida pelo ritual da capoeira possibilita o exercício de se lidar com o outro e suas diferenças, fato este que se firma como importante mecanismo para resolução de possíveis situações emergentes das relações sociais cotidianas, contribuindo com a formação de indivíduos mais críticos, criativos e autônomos.
Considerações Finais
A partir da análise deste estudo, podemos inferir que a capoeira possui elementos que potencializam ações para a construção de uma pedagogia social e, conseqüentemente, de um modelo escolar infantil revolucionário, com nexos na totalidade que responderá aos problemas da classe operária buscando as raízes das injustiças sociais, garantindo pensar e fazer uma escola que seja educadora do povo superando a visão de que a escola é apenas um lugar de ensino, ou de estudo dos conteúdos, por mais revolucionários que eles sejam, pois segundo Pistrak (2000, p.11) “... é preciso passar do ensino à educação, dos programas aos planos de vida. Ou seja, em sua proposta pedagógica a escola somente atinge os objetivos de educação do povo, se consegue interligar os diversos aspectos da vida das pessoas...”. Sendo a capoeira, um reflexo micro da sociedade, com possibilidades reais de transformação, proponho a capoeirização da escola, que em esfera macro representará a proposta de educação com base nos interesses da classe operária.
Uma outra questão que precisamos ressaltar sobre a capoeira, é que a mesma em seu ritual poderá desenvolver o processo de auto-organização dos educandos como base no desenvolvimento pedagógico da escola estimulando a cooperação infantil para a edificação de uma participação igualmente consciente e ativa.
Referências Bibliográficas
ABREU, Frede. O Barracão do Mestre Waldemar. Salvador: Organização Zarabatana, 2003.
ALMEIDA, Raimundo C. A. de. Bimba: perfil do mestre. Salvador: Centro Editorial e Didático da UFBA, 1982.
BRASIL. Ministério da Educação e do Desporto. Secretaria de Educação Fundamental. Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil. Brasília: 1998.
BOULCH, Lê . O Desenvolvimento Psicomotor: do nascimento até 6 anos. 7ª ed. Porto Alegre: Artes Médicas, 1992.
DANGEVILLE, Roger. Crítica da Educação e do Ensino. Lisboa: Moraes, 1978.
CAMPOS, Hélio José B. Carneiro. Capoeira na escola. Salvador: Presscolor, 1990.
FALCAO, Jose Luiz Cirqueira. A escolarização da capoeira. Brasília: ASEFE – Royal Court, 1996.
FONTES, Martins. A Ideologia Alemã – Karl Marx e Friedrich Engels. São Paulo: Martins Fontes, 1998.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa. 3ª ed. São Paulo: Paz e Terra, 1997.
HUIZINGA, Johan. Homo ludens: o jogo como elemento da cultura. Tradução de João Paulo Monteiro. 2ª ed. São Paulo: Perspectiva, 1990.
PISTRAK, M. M.. Fundamentos da Escola do Trabalho. 3ª ed. São Paulo: Expessão Popular, 2003.
REGO, Tereza Cristina. Vygotsky, uma perspectiva histórico-cultural da educação. 10ª ed. Petrópolis: Vozes, 2000.
REGO. Waldeloir. Capoeira Angola: um ensaio sócio-etnográfico. Salvador: Itapuã, 1968.
ZULU, Mestre. Idiopráxis de Capoeira. Brasília: o autor, 1995.
VIEIRA. Luiz Renato. Da vadiação a capoeira regional: uma interpretação da modernização cultural no Brasil. (Dissertação de Mestrado). Brasília: Departamento de Sociologia, UnB, 1990.
A Capoeira disciplinada. Estado e cultura popular no tempo de Vargas. Revista Historia e Perspectiva. Uberlândia, n.7, p. 111-132, jul./dez. 1992.
Angelo Augusto Decanio Filho - A Herança de Mestre Bimba
* Jean Adriano: Graduado em Educaçao Fisica(UFBa),Especialista em Metologia do Ensino da Ed. Fisica(UNEB),Mestrando em Educacao(UFBa),Mestre de capoeira
Acho legal colocar, mesmo que apenas na forma de comentário, um link para a primeira parte.
Um abraço,
Obrigado pela sugestão.
Segue link da 1ª Parte deste Artigo: http://www.overmundo.com.br/overblog/a-capoeira-na-educacao-infantil-1-parte
Já conhecia a materia de algum tempo, e quero repeti a mesma opiniao dada na primeira parte, abç.
Andre Pessego · São Paulo, SP 23/4/2007 09:44
Axe' Baba!
Como a 1ra parte, do jogo, o artigo adiciona para que seja elevado o nivel da reflexal nos caminhos que podemos agendar para que a sociedade possa se educar, atraves dos multiplos beneficios que o ritual da Capuera oferece.
Parabens Jean... continua mandando o 'pingo d'agua' pra acordar nossa gente... e outros.
Mestre Jeronimo Capoeira - 'Iconoclast JC'
www.myspace.com/mestrejeronimo
www.jeronimo-capoeira-angola-au.info
http://br.geocities.com/jeronimocapoeira/
Esse Artigo é muito bom. Parabems!!!
Marcio Capuera · Canadá , WW 23/4/2007 20:48
A história da Capoeira - desde os registros mais antigos - revela uma relação indissociável com a música. Minha primeira experiência (há aproximadamente 8 anos) ensinando Capoeira foi com crianças e pude constatar o quanto são verdadeiras as conclusões do articulista. Vale destacar que o aprendizado dos ritmos - e em particular a percepção das melodias do berimbau e das cantigas - contribuem para a sociabilização das crianças que apresentam muita 'timidez' no contato com outras crianças. Os resultados foram surpreendentes - e gratificantes. Desde então a minha relação com o ensino da Capoeira evoluiu muito: percebi o quanto uma atividade que exercia quase como um 'hobby' poderia ser útil - e me dediquei inteiramente a esse trabalho. Mais que alunos e praticantes da Capoeira, conquistei amigos dos quais me orgulho. Além de capoeiristas, as crianças se tornam adultos que têm a segurança necessária para construir seus relacionamentos - equilibrada com a sensibilidade artística peculiar aos músicos. Desde então ensinar a crianças - e enfatizar a importância da musicalidade da Capoeira - tem sido prioridade no meu trabalho. Excelente artigo. Espero que sirva como referência e estímulo para professores e mestres. Parabéns pelo post!
Guerreiro · Goiânia, GO 24/4/2007 01:51
Exelente.
Mostrou que entende de capoeira e sobretudo de criança.
Vale a pena conhecer em São Paulo o trabalho de capoeira desenvolvido com crianças na Casa Mestre Ananias.
www.mestreananias.blogspot.com
Para comentar é preciso estar logado no site. Faa primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
Voc conhece a Revista Overmundo? Baixe j no seu iPad ou em formato PDF -- grtis!
+conhea agora
No Overmixter voc encontra samples, vocais e remixes em licenas livres. Confira os mais votados, ou envie seu prprio remix!