Quase meia hora antes de Paraty, envolvido pela área do Parque Nacional da Serra da Bocaína, o pequeno município de Sertão do Taquari guarda, além de gente simples e tranqüila, parte de uma imensidão de Mata Atlântica que por sua vez preserva uma espécie rara em tempos de aquecimento global, agronegócios, MDLs (Mecanismos de Desenvolvimento Limpo) e morte de trabalhadores do campo por exaustão. Trata-se de uma tradicional família de agricultores de subsistência, localizada num sítio a 240 metros de altitude da Serra, ao qual só se é possível chegar depois de uma hora de trilha a pé em mata fechada, passando por trechos sinuosos, pedregosos, inclinações exaustivas e paisagens recompensadoras como as do Rio Taquari e de toda a flora local.
Neste raio de distanciamento de referências urbanas mínimas como a energia elétrica, o Sítio São José fica assentado numa área de 29 hectares divididos para o plantio de frutíferas, hortaliças e ervas medicinais; para um pequeno gado mantido pela produção e consumo próprio de carne e laticínios; para reflorestamentos agroecológicos, e para abrigar a vida da família Ferreira, responsável por construir e cuidar de tudo isso há pouco mais de 20 anos. O casal de agricultores José e Carmelita Ferreira, de 52 anos, acompanhados dos filhos Jorge, de 25 anos, Thiago, de 21, Katiane, de 19, e Jonatha, com 11 anos, vivem e sobrevivem num verdadeiro cenário bucólico, desafiando paradigmas de necessidades socioeconômicas como tecnologia moderna, consumo material, extrativismo insustentável e até mesmo o dinheiro. É possível?
Na década de 1980, quando veio para o Rio de Janeiro ao lado da esposa, o então recém-cursado como mestre de obras, José Ferreira, já imaginava ser possível a vida que construiu com a família. Nascidos no interior de Pernambuco, onde José trabalhava acompanhando o pai como empregado de latifundiários, o casal foi morar primeiramente em Cabo Frio, em busca de alguma obra onde ele pudesse trabalhar. Nessa época, Carmelita tinha na barriga o primeiro filho; e José dizia ter em si o “vazio” percebido com a certeza de que não pretendia continuar levando a mesma vida, explorada dessa vez por empresários da construção civil. Decidiu procurar dali por diante retornar às origens, com a diferença de cultivar e colher para o próprio sustento. Mudando-se para Paraty, percorreu os arredores da área serrana até encontrar o espaço de terra de onde nunca mais saiu, garantido através de serviços prestados ao governo federal.
Assim o sítio São José foi construído pelas mãos dos seus proprietários, e sem o auxílio de equipamentos modernos. Basta lembrar que lá não há eletricidade, por opção da própria família, que diz já ter recebido propostas da prefeitura de levar energia e asfalto até o local. “Já imaginou? Se eu aceitar, isso aqui vai acabar destruído em muito pouco tempo”, garante José.
Feita com madeira derivada das árvores mortas ou pré-condenadas pela própria natureza, a casa dos Ferreira só leva cimento e tijolo na cozinha, no forno movido à lenha. José montou todo o encanamento de esgoto e abastecimento de água, que é puxada diretamente da nascente local. O solo do roçado não conhece agroquímicos. A adubagem é feita com detritos vegetais e animais, assim como o controle de pragas nas plantações também é feito à base de preparos naturais, na intenção apenas de espantar aves e insetos do plantio, ao contrário de envenená-los.
O fato é que antes mesmo da família Ferreira passar a entender sobre a importância de processos agroecológicos tanto para a sustentabilidade do campo quanto para a vida de todo o ecossistema, ela já fazia parte deste universo, e já idealizava elevar os 18% de sua economia auto-sustentável. Mas é no ano de 2001 – em que, oportunamente, segundo a família, a prefeitura de Paraty promoveu cursos como iniciativa para o desenvolvimento local – que José dá início a um projeto autogestor de vivência, produção e formação agroecológica no sítio, planejado para estar devidamente estruturado em 10 anos. O projeto promove a criação e o aprendizado de sistemas agroflorestais preparados para produzir em curto, médio e longo prazo, e garante desde 2005 100% da sustentabilidade da família. “Antes era preciso completar a renda trabalhando fora, tirando palmito”, diz José.
Hoje, além de garantir as refeições do dia na mesa da família – que, exceto o arroz, não compra comida – o sítio funciona como uma pousada e laboratório de campo em plena Mata Atlântica para estudantes, pesquisadores e profissionais agrônomos, agricultores e ambientalistas atraídos pela troca de experiências com a família e com o espaço. “Entre 2000 e 2005, produzimos e plantamos 31.844 mudas de espécies arbóreas e frutíferas, sendo que 80% de espécies de Mata Atlântica. No mesmo período plantamos 52.474 mudas de palmito, num total de 84.318 mudas plantadas em 5 anos”, orgulha-se José. Em novembro aconteceu a vivência que comemorou o aniversário do sítio, quando mais 5.000 mudas foram cultivadas. “A nossa meta é mostrar que para preservar o meio ambiente não é necessário tirar o homem do campo, mas educá-los e orientá-los a viver em harmonia com a natureza”, ensina.
Descendente de curandeiros e benzedeiros, Carmelita aprendeu nesse mesmo período a produzir, a capsular e a comercializar ervas, raízes e seivas medicinais. Uma vez por semana ela desce até a vila de Sertão do Taquari para vender remédios contra micose, shampoos anti-caspa e anti-inflamatórios naturais que ajudam no combate a úlceras, gastrites e câncer. Aprendeu também sobre processos de armazenamento de alimentos sem conservantes artificiais. Embalados em potes de vidro à vácuo, alguns mantidos submersos em água com sal, Carmelita garante o abastecimento alimentar da família no período de entre safra, conservando dessa forma por até dois anos batatas, legumes, grãos, frutas, sucos e doces. Para fabricante de geladeira nenhum criticar.
O dinheiro, artigo de segundo plano no cotidiano da família, é conseguido através das vivências, da hospedagem da casa e da venda dos remédios e doces que fabricam, e investido na conclusão do projeto. “A vida do homem não é de ganhar dinheiro, é de se alimentar, de viver saudável, de estar em contato com a terra”, esclarece José, que pretende ampliar a cozinha e o dormitório para receber melhor os grupos, e construir a sala onde acontecerão as aulas e os debates de formação, que contam com o apoio de estudantes da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), técnicos de instituições como a AS-PTA (Assessoria e Serviços a Projetos em Agricultura Alternativa), entre outros parceiros da família, por quem José vem sendo freqüentemente convidado a falar em público, não só no Rio de Janeiro como em outros estados, sobre sua experiência.
Organizado, articulado e apaixonado pela atividade e modo de vida a que se dedica, José não vive e nem põe a família em condições de isolamento, embora demonstre sua preocupação em perpetuar a tradição da agricultura familiar nos filhos. Os quatro ajudam José diariamente no campo. Quando pensei estar acordando cedo na casa da família, José e filhos voltavam naquele momento de uma atividade introdutória do dia na horta para tomarem café comigo. E parecem fazer isso com a paz de um cotidiano saudável e prazeroso.
Apesar de nunca terem ido a uma escola, todos os filhos foram alfabetizados por Carmelita; sabem ler e escrever, e têm visão emancipadora e solidária sobre o conhecimento e a experiência que desfrutam do campo. O primogênito Jorge é considerado pelo pai um biólogo diplomado pela experiência de vida no meio da mata. Conhece tudo o que diz respeito à flora e à fauna local, e hoje idealiza um projeto de catalogação das espécies da Serra, coisa que, segundo Jorge, ainda não existe. A proposta vem sendo pensada por ele junto com sua namorada, carioca de Campo Grande e recém-formada no curso de engenharia agrônoma da Rural, que Jorge conheceu no período em que ela, ainda estudante, visitava o sítio pelo estágio acadêmico. Quando perguntado sobre a possibilidade de casar e sair de lá, Jorge confessa achar difícil a hipótese: “Não penso em viver num lugar diferente. Ela, por outro lado, pensa em fazer mestrado fora”, responde Jorge, ainda sem precisar o futuro.
A filha única dos Ferreira, Katiane, está para concluir o curso de contabilidade feito por correspondência pelo Instituto Universal Brasileiro. Para quem desconhece sobre a eficiência do lendário método de ensino profissionalizante à distância, existente há mais de 60 anos no Brasil, ele não somente formará Katiane como a administradora de contas oficial do sítio – função escolhida por ela mesma –, como já ensinou o irmão Thiago a tocar viola, e deve ganhar o desafio admitido por Jorge de ensiná-lo a falar, a ler e a escrever em inglês.
O caçula Jonatha divide seu tempo entre percorrer na medida certa os hectares do sítio com o pai e os irmãos e jogar futebol com sua bola de basquete. Assiste aos programas infantis da tv quando vai à vila, na casa dos amigos, e desafia a máquina fotográfica digital que levei comigo a tirar fotos tão boas quanto às de sua máquina, segundo ele próprio, mais potente em pixels do que a minha.
É nesse contraste de compreensões sobre a vida que repousa feliz e segura a família Ferreira. À noite, sob um céu estrelado tão pouco visto por nós, e sob uma escuridão rompida apenas pelo branco da lua é que eles dormem costumeiramente, à espera tranqüila de um novo dia comum, para o qual eles existem e vice-versa. O que me restou depois de um dia ao lado deles foi repousar à mesma maneira, concluindo minhas últimas questões ao som da viola dos meninos dedilhando naquele momento uma canção de suas raízes: “de que me adianta viver na cidade se a felicidade não me acompanhar...”.
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Sítio São José.
024 - 3371 9003
Rod. Rio Santos Km 552
Rua Sertão do Taquari s/n
Paraty/RJ
ferreiraecologia@hotmail.com / http://agroflorestaferreira.blogspot.com/
Marcia,
Gostei demais do seu texto.
Quem não sonha com um lugar assim?
Valeu conhecer um pouco da vida simples dessa família.
Simples é a minha, a vida deles é maravilhosa!
Parabéns.
Um abraço mineiro.
Oi Ana, foi realmente fantástico ter conhecido o Sítio dos Ferreira. Penso que vale muito à pena espalhar a experiência deles entre a gente, que vive do lado menos verde da vida.
Obrigada pelo comentário. :)
um abraço meio carioca, meio alagoano.
Márcinha Shoooooo! Massa demais teu texto, passear com você por aí, lindo.
Iniciativas como essa precisam ser compartilhadas, é muito bom saber que é possível.
Beijão e parabéns.
Marcelinho querido!! Obrigada por ter passeado comigo na experiência do Sítio São José. :) é mesmo lindo e possível!! um abração cheio de saudades de vocês, companheir@s da terrinha amada, e troquemos mais nossas idéias por aqui!
BJ!
Márcia Shoo.
Fascinante história, muito bem narrada também por ti. Obrigado pelo texto e pela viagem também que nos fez levitar diante das fotos e narrativa.
Saudável Márcia Subversiva
Estou muito feliz com este primeiro contato com a Família ferreira.
Parabéns por tão bela abordagem. Valeu mesmo.
Aproveito pra trazer dois links que mostram algumas das experiências que passei em Alagoas, convivendo com pessoas de singularidades semekhantes com os Ferreira.
Trata de registros em vídeo dos Saudáveis Subversivos de projetos desenvolvidos por agricultores familiares junto com o Movimento Minha Terra.
Eco Agreste
Mac
Lebrei-me também da delicada história de Elzeàrd Bouffier, contada no livro O homem que plantava árvores de Jean Giono. Veja parte da obra em sua versão para o cinema neste link.
É isso aí Marcia... pra frente e pro alto...
FAntásticos: o texto e autora; o local e o casal. Grandioso
a forma de desenvolver e realisar (se é possível falar assim) sonho, um abraço, andre.
Márcia viajei no seu texto, que vontade de ir lá na casa do José. Isso que é viver desafiando o progresso de maneira inteligente.
Votado.
beijos
sinvaline
Um dos melhores textos que li no overmundo. Este espaço permite pensar outros mundos possíveis, como demonstram os Ferreira. É tudo uma questão de onde depositamos nossos valores. Estamos acostumados ao caro e perecível comércio da vida e das coisas. Os Ferreira estão aí para mostrar que a felicidade é uma construção cotidiana. A sociedade em que vivemos foi historicamente construída e pode, portanto, ser do mesmo modo transformada. José Ferreira pensou num projeto para 10 anos... acho que conquistou muito mais em menos tempo. Parabéns pelo texto e um abraço na família Ferreira.
Rodrigo Gerolineto Fonseca · Picos, PI 11/3/2008 20:39
O meu muitíssimo e alegre obrigada ao Higor, Glauber, Andre, Sinvaline e Rodrigo pelos comentários acolhedores. Vejo que os Ferreira não estão sós em suas crenças de vida. :)
Valeu mesmo, gente. E continuemos fazendo a nossa parte!
Lugar maravilhoso e o texto também.dei meus votos,um grnde abraço.
clara arruda · Rio de Janeiro, RJ 12/3/2008 11:17
Belo lugar!
se puder me visitar e votar,
ficarei grato!
http://www.overmundo.com.br/overblog/a-revitalizacao-da-ordem-e-do-progresso
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