A Casa é deles

Mariana Albanese
Fachada da Fundação Casa Grande - Memorial do Homem Kariri
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Mariana Albanese · São Paulo, SP
26/7/2007 · 263 · 10
 

Localizada a 60 km de Juazeiro do Norte, no Ceará, a Fundação Casa Grande não se propõe a formar comunicadores, mas sim, futuros gestores do país.

Nordestina era uma cidadezinha desse tamanho assim, da qual se dizia: "eita lugarzinho sem futuro". Antônio ouviu dizer isso desde pequeno, e deu por certo o fato. Para chegar em Nordestina, tinha que se andar bem muito. É claro que ninguém fazia isso: o que é que a pessoa ia fazer em um lugar onde não tinha nada para fazer?

(Trecho do livro “A Máquina”, de Adriana Falcão)

Quando pequeno, morando em Tocantins, Alemberg Quindins era um menino fora do mapa. Sabia do mundo por quem passava pela cidade de Miranorte, e mais não tinha. Se virou como podia e por volta dos nove anos, montou uma pequena editora, cineminha, tudo improvisado para dar alguma diversão a seus colegas, também fora do mapa. Da primeira infância, em Nova Olinda, Sertão do Cariri, no Ceará, lembrava-se de uma índia que lhe contava histórias e de uma estátua de indiozinho em sua casa.
Quando voltou para lá, já crescido, foi atrás destas lembranças. Conheceu uma moça do Crato, Rosiane Limaverde. Por essas coincidências da vida, haviam nascido no mesmo dia e ano: 19 de dezembro de 1965. Casaram-se na mesma data, em 1983. A parceria também era musical. Saíram sertão afora, estudando a música pré-histórica da região. Deparavam-se com objetos arqueológicos, que iam recolhendo. Formaram um acervo.
Em 1992 nasceu oficialmente a Fundação Casa Grande, no mesmo dia 19 de dezembro. Para abrigar o tal acervo, escolheram a mais antiga edificação de Nova Olinda, que havia pertencido ao avô de Alemberg, Neco Trajano. Ali foi instalado o Memorial do Homem Kariri, ao qual foi incorporado o indiozinho da infância, guardado até então pela velha senhora que lhe contava histórias. Ele hoje é personagem de revista quadrinhos feita pelos meninos.
De forma natural, as áreas de atuação da Fundação foram aumentando, conforme o casal sentia a carência cultural da cidadezinha. Memória, Comunicação, Artes e Turismo são hoje as áreas de abrangência da Casa Grande, que está no coração de Nova Olinda, cidade a 540 quilômetros de Fortaleza, com cerca de 12 mil habitantes, três mil na área urbana.
Em 1998 foi anexado o prédio da primeira escola da cidade, o Educandário. Tornou-se a Escola de Comunicação da Meninada do Sertão. Em 2002, foi a vez do Teatro Violeta Arraes – Engenho de Artes Cênicas ser inaugurado. O fluxo de curiosos foi aumentando e a necessidade de um programa de turismo surgiu. Foram criadas pousadas domiciliares no fundo das casas, administradas pela Cooperativa de pais e amigos da Casa Grande (Coopagran).

Criancices
Gerência, Conselho Fiscal e Conselho Cultural: nada disso falta à Fundação Casa Grande. Mas o que a diferencia das demais instituições é um pequeno detalhe: ela é totalmente gerida pelas crianças e jovens de Nova Olinda. E essa afirmação vai muito além do discurso: simplesmente não há adultos na Casa Grande durante a semana. O escritório administrativo, onde trabalham os coordenadores e duas secretárias, fica no Crato, cidade a 40 quilômetros de distância. Alemberg e Rosiane estão sempre em contato com os meninos, e presentes todos os fins de semana. Mas, na prática, quem coloca a casa em ordem é a molecada. Eles se organizam na limpeza, na gerência dos laboratórios e na produção dos programas de rádio e de tevê, assim como das revistas da Editora.
O projeto de rádio “de criança para criança”já foi parar na África, implantado pelo próprio Alemberg, em viagem feita por Moçambique e Angola com apoio do Unicef.

Quase uma mocinha
Aos 14 anos de existência, a instituição chega à adolescência. Os primeiros meninos da Casa Grande já são adultos, trilham seu caminho mundo afora e começam a levar seus filhos para brincar no parquinho da Fundação. Os mais velhos ensinam os mais novos, sempre dispostos a ouvir.
A princípio, as crianças chegam para brincar. Ficam por lá, participam da escolinha, pulam corda, amarelinha, e divertem-se nos computadores. Mais adiante, vão se aproximando naturalmente das áreas de maior interesse. Mostrando dedicação e bom desempenho escolar, ganham o uniforme, que utilizam de quarta a domingo. Segunda e terça-feira são os dias de lavar a roupa.
A Casa Grande não fecha. Pode ser freqüentada 24 horas por dia pelos “alunos”. Por ser o único pólo de cultura da região, está sempre cheia, principalmente nos fins de semana. Aos domingos, no Teatro Violeta Arraes, há duas sessões de cinema: infantil e adulta, e regularmente, peças e outros espetáculos aportam ali.
Mais do que uma escola de comunicação, um centro cultural, ou uma instituição para crianças, a Casa Grande é um laboratório de convivência social onde aprende-se a ter responsabilidade sem perder a alma infantil. “Não queremos formar comunicadores, e sim futuros gestores do país”, define Alemberg.

E o mundo foi parar em Nova Olinda
Muita gente ouve falar e quer conhecer de perto o trabalho da Fundação: estudantes de comunicação, políticos, músicos e até atores em laboratório. Foi o caso de Mariana Ximenes e Gustavo Falcão que, para viverem Karina e Antônio no filme A Máquina, foram até Nova Olinda.
Não por acaso, a história contada no longa-metragem, baseado em livro homônimo de Adriana Falcão, fala de uma cidade “deste tamanhozinho”: Nordestina. Seus moradores vão pouco a pouco deixando a região para ir para “o mundo”. Karina quer fazer o mesmo, mas Antônio, por amor, depois de um plano engenhoso, leva “o mundo” a Nordestina. É exatamente o que fizeram Alemberg e Rosiane, por amor a seus meninos e meninas, e a meninos e meninas que nem chegarão a conhecer. Costumam dizer que o projeto foi feito para o Joãozinho, que um dia nascerá em Nova Olinda.
O diretor Guel Arraes também passou por lá, quando filmava O Auto da Compadecida. Pegou emprestada a risada de Alemberg, que foi parar na boca de Selton Melo, o Chicó. Na época, Guel assistiu os vídeos feitos pelos meninos e elogiou sua qualidade técnica.
Andando pelos corredores do antigo prédio do Educandário, onde hoje funciona a Escola de Comunicação, é possível acompanhar pelas fotos a quantidade de ilustres visitantes que passaram por lá. Cada um deixou sua contribuição. Como num porto, quem passa deixa sua marca. Neste caso, acrescenta um conhecimento a mais para a meninada.

Acervo surpreendente
Se o bem-sucedido exemplo de gestão descentralizada chama a atenção, o mesmo pode ser dito do acervo multimídia e da qualidade dos produtos produzidos nos laboratórios de comunicação. Computadores de última geração com monitores LCD e gravador de DVD são a grande paixão da molecada. A gibiteca, completíssima, financiada pela Fundação Kellog, foi a mais recente conquista da Fundação. Xodó particular de Alemberg, grande fã de quadrinhos desde pequeno, é um bom retrato do que o projeto da Casa Grande representa para ele: “precisei deixar de ser menino para poder trabalhar e ter condições de implantar aqui essa gibiteca e, assim, voltar a ser menino”.
O acervo da dvdteca não pára de crescer. Hoje possui mais de mil títulos, a maioria clássicos do cinema, em prateleiras organizadas por nome do diretor. Eles podem ser assistidos na cinemateca, outra das salas no prédio da Escola de Comunicação. A cdteca está anexada à rádio, e dá suporte para a programação de 16 horas diárias. Há também biblioteca e brinquedoteca, que estão sendo reestruturadas.
Quando era pequeno, Alemberg Quindins sonhava em ter um quarto de brinquedos e conhecer o mundo. Com a Fundação, o mundo veio até ele e o almejado quartinho materializou-se em uma bela e ampla casa, onde ainda há lugar para tantos sonhos quanto puderem ser sonhados.


Hino

Essa casa
Moraes Moreira

Essa casa é tão bonita
como a gente que habita
Desde a rua até a porta,
até a sala de visita,
até o fundo do quintal.
Todo mundo acredita
no objetivo igual.
Tudo que se reza e pede
é que Deus seja seu hóspede principal.
Essa casa é tão bonita
quando a inspiração visita
o coração do cantor.
Tem amor no jardim,
tem a flor do amor perfeito.
Tem um banco que foi feito
só para namorar.
Tanta coisa, e advinha
como eu me sinto feliz.
Alguma coisa me diz
que essa casa é a minha.


Conheça as áreas de atuação da Fundação Casa Grande:


MEMÓRIA

Lembranças de quem chegou primeiro

Memorial resgata mitos, lendas e história dos índios Kariri e reproduz costumes da casa nordestina

A casa azul que deu origem à cidade de Nova Olinda e hoje abriga o Memorial do Homem Kariri já é, por si só, uma parte da história. Foi construída no século XVIII, em forma de tapera, por comboeiros. Mais adiante, reformada, virou sede de fazenda. Foi comprada em 1932 por Neco Trajano, avô de Alemberg, e sessenta anos depois, restaurada para abrigar a Fundação. Os cômodos receberam nomes, como o “quarto de dona Santana” (esposa de Neco), onde funciona a sala de arte rupestre. Neste quarto, que pertencia às mulheres, a falta de janela tem explicação: era uma medida de segurança, para evitar que as jovens fossem levadas por algum forasteiro.

O museu trabalha em duas frentes: mitologia e arqueologia. Na primeira, são resgatados os mitos e lendas dos índios Kariri, primeiros habitantes da região. Seja por meio de desenhos feitos pelos próprios meninos, ou de fotos mostrando os sítios mitológicos, os visitantes podem entender um pouco da relação daquele povo com a natureza, e de como ele buscou nela as explicações para os fenômenos do cotidiano. Exemplo disso são as muitas pedras que, devido a seu formato, eram consideradas elementos vivos - como a Ponte de Pedra, em Nova Olinda. Segundo a lenda Kariri, ela é a porta de entrada para um jardim que rodeia o Castelo Encantado, outra formação rochosa mais adiante.
Também faz parte do programa de memória, já se aproximando do de Artes, o resgate das músicas e instrumentos pré-históricos que deram origem ao espetáculo A Lenda. .
Em arqueologia, é estudada a trajetória dos Kariri. Sabe-se que a etnia originou-se da junção de povos nômades que ali ficaram, atraídos pelo clima e vegetação propícios da Chapada do Araripe. No museu estão expostos objetos cerâmicos, pedras, ferramentas antigas e imagens de inscrições rupestres.

Recepcionistas mirins
Todas estas explicações são dadas pelas recepcionistas do Memorial. Elas têm em média 12 anos de idade e passam por uma sabatina para poderem ocupar o cargo. É comum ver alguma das crianças andando pelos cômodos, falando sozinha, estudando cada objeto. Logo Rosiane a chamará e fará perguntas. Aprovada, ela guiará os visitantes e será responsável pelo cuidado com o acervo, incluindo sua limpeza.

O trabalho de campo é permanente. Acompanhada de Rosiane, que é arqueóloga formada pela Universidade Federal de Pernambuco, regularmente uma equipe sai para os sítios em busca de mais elementos de pesquisa. Todo material encontrado é informado ao Instituto de Patrimônio Histórico Nacional (Iphan). As indicações são dadas pelos próprios moradores que, vez ou outra, esbarram em inscrições rupestres ou pedras polidas. Ossadas também são encontradas e há suspeitas de que a cidade abrigue, a exemplo do Crato, um cemitério indígena.

COMUNICAÇÃO

Quem não se comunica...
Os equipamentos impressionam. A qualidade da produção também

A Casa Grande possui um verdadeiro pólo de comunicação, com TV, Editora e Rádio. O objetivo é que as crianças e jovens aprendam a linguagem dos diversos meios, sem necessariamente tornarem-se comunicadores: “É para que, através da comunicação, eles tenham noção da diversidade de formas de ver as coisas e encontrem o espaço que cabe a eles dentro do mundo”, explica Alemberg Quindins.
Alemberg, que quando criança montou uma editora na pequena Miranorte, em que desenhava revistas e pôsteres à mão, pôde dar condições para que os meninos de Nova Olinda tivessem meios profissionais para criar.
A Escola de Comunicação da Meninada do Sertão funciona no prédio do Educandário, onde funcionou a primeira escola da cidade. Estrategicamente localizada ao lado do Memorial do Homem Kariri, foi doada pelo Governo do Estado em 1998, após a Fundação ter apresentado um projeto diferente ao governador: todo feito em quadrinhos.
Tudo começou com a Rádio, no final de 1993. Os meninos colocaram um amplificador – doado - em cima do telhado da Casa Grande e passaram a transmitir programas nos fins de semana. Quando o Unicef conheceu o trabalho, deu o apoio necessário para a criação da Escola de Comunicação.

Rádio Casa Grande FM
Tem licença para funcionar como rádio comunitária e, assim como todos os outros laboratórios da Fundação, é totalmente gerenciada pelos jovens. São 16 horas de programação diária: das 6h às 22h.
No acervo da CDteca, centenas de títulos servem de apoio ao programas. As músicas são selecionadas cuidadosamente pelos meninos, que buscam oferecer alternativas de qualidade ao conteúdo da outra rádio da cidade. Forrós descaracterizados, que incentivam o uso de álcool e a sexualidade precoce em suas letras, são comuns nas rádios da região, que chegam a desrespeitar a lei, divulgando propaganda de motéis no período da tarde.
Os programas “de criança para criança” atravessaram o oceano: o Unicef levou Alemberg Quindins para a África, mais especificamente a Moçambique e Angola, onde ele ajudou a implantar o projeto. Só em Moçambique são 31 programas inspirados na Casa Grande FM.

Editora Casa Grande
Cariuzinho é um índio que leva os meninos em uma viagem pelo tempo. Personagem da revista em quadrinhos Turminha da Casa Grande, ele pode ser visto no centro da Sala do Coração de Jesus, no Memorial do Homem Kariri. Outra revista, criada em 2007, é Os Kariri, em que uma arqueóloga guia as crianças por descobertas nos campos da Chapada. Desenhada por Valeska Cordeiro, essa é uma das publicações da Editora Casa Grande, que também edita mensalmente o Jornal Mural. Notícias, resenhas de filmes e livros, poemas e ilustrações feitas pela garotada preenchem as páginas do jornal, que fica no mural da biblioteca.


TV Casa Grande
Ela já foi uma TV de verdade. O primeiro canal de televisão brasileiro feito de criança para criança durou três semanas, até ser lacrado pela Anatel. Alemberg foi processado e impedido de sair do país durante três meses, até que tudo fosse arquivado.
Mas os meninos não perderam o rebolado. Criaram o programa 100 Canal: além de ser uma piada com a própria situação, eles homenageiam o Canal 100, programete que passava antes das sessões de cinema antigamente. E, da mesma forma, também está na grande tela: vai ao ar antes dos filmes exibidos para a população de Nova Olinda aos domingos, no Teatro Violeta Arraes. O mote do programa são depoimentos individuais, ou de personalidades, ou de pessoas falando sobre o lugar onde vivem, entre outros temas. Um dos documentários, Pingo – o filme, de Samuel Macedo, foi vencedor do 2º Festival de Jovens Realizadores de Audiovisual do Mercosul.


ARTES

Hoje tem espetáculo? Tem sim, senhor!
Cine-teatro e produção musical são os destaques do programa de artes

Na minúscula Nova Olinda (que, dizem seus moradores, é uma cidade de primeira, porque se você engatar a segunda marcha, passa), impossível não notar o Teatro Violeta Arraes – Engenho de Artes Cênicas. Todo em tijolo aparente, destaca-se das outras construções. Foi inaugurado em 2002, com show de Arnaldo Antunes, que foi até lá por conta própria se apresentar. No belo edifício acontece o projeto de formação de platéias. Sessões de cinema e espetáculos de música, dança e teatro são atrações constantes.
Aos domingos, já é tradição: às 9h e às 19h, uma música soa em toda cidade, emitida pelo velho amplificador durante bons minutos, avisando que a hora da sessão de cinema se aproxima. A seguir, uma gravação avisa que as portas serão abertas e informa o filme do dia. Pela manhã, sessão infantil. À noite, é a vez do público adulto. Durante a semana, filmes são exibidos para alunos de escolas da região, que visitam regularmente a Casa Grande.
Durante a Mostra Sesc de Artes, em novembro, o teatro fica efervescente. Fora de temporada, regularmente é palco para shows, que são gravados e editados no estúdio de TV. Recentemente, o forrozeiro Chico Pessoa escolheu o Violeta Arraes para a gravação de seu DVD.

Sons de Casa
A música é um das oficinas de maior sucesso. Não é de estranhar, já que os coordenadores e fundadores da Casa Grande são músicos.
Ali existem quatro bandas para diferentes faixas etárias. As crianças começam brincando na Bandinha de Lata. Com instrumentos construídos por elas mesmas, reproduzem a formação de bandas profissionais, com tudo a que têm direito: bateria, contrabaixo, guitarra. E espetáculo ensaiado: Som in Banda de Lata, que já levou os pequenos a se apresentarem na capital do estado.
Depois, há a banda dos “médios”. Eles apresentam o show Casa Grande FM, onde começam a tomar contato com instrumentos de verdade. Quem os ensina são os meninos mais velhos que já passaram por todas as etapas, até chegarem à banda principal.
Em setembro de 2006, quatro Franciscos rumaram para a Alemanha: Francisco Alemberg, coordenador; Francisco Aécio, Francisco Hélio e Francisco Samuel, da banda Os Meninos da Casa Grande. Foram apresentar o show Trilhas 'U' Som na Popkomm, feira de música de Berlim. A banda é formada pelos meninos mais velhos, na faixa dos 20 anos. É instrumental: toca jazz com influências da música regional nordestina. Além da Alemanha, para onde devem voltar em 2008, os meninos se apresentam constantemente em diversas capitais brasileiras, como São Paulo, Fortaleza e Recife.
Por fim, o espetáculo A Lenda, apresentado por Rosiane e Alemberg com a participação dos meninos, retrata, através da música, um pouco do universo mitológico dos primeiros moradores da Chapada do Araripe, os Kariri.


TURISMO

Lar, doce lar
Demanda turística possibilitou a criação de um programa que dá formação e renda aos pais e amigos da Casa Grande

É gente que chega de todo canto, por todo motivo. Uns vão por curiosidade, para conhecer o trabalho da Fundação. Há quem vá com o objetivo específico de ministrar oficinas para os meninos. Outros se apresentam no teatro. O fato é que, com essa gente que vem de cá e de acolá, a Casa Grande começou a receber uma média de três mil visitantes por mês - e a demanda por uma estrutura turística logo apareceu. A solução foi criar um quarto programa, de Turismo, que é administrado pela Cooperativa de pais e amigos da Casa Grande (Coopagran). Foi uma forma também de inserir as famílias dos meninos dentro do projeto da Casa Grande.
O carro-chefe do programa são as pousadas domiciliares, nos fundos das casas das famílias. Cada casa possui um quarto com dois ou três beliches, banheiro, frigobar, televisão e som. As refeições são as mesmas dos moradores. Café da manhã, almoço e jantar estão inclusos na diária, que custa 40 reais.
Deste dinheiro, 80% vai para a família, 10% para a manutenção da Cooperativa e 10% para o transporte de alunos que cursam faculdade no Crato.
O programa é via de mão dupla: auxilia na formação e geração de renda dos moradores locais e, ao mesmo tempo, permite que o turista conheça os costumes do sertanejo, vivendo sob o mesmo teto, comendo sua comida e, principalmente, puxando uma cadeira para bater um bom papo na calçada depois do jantar.
Na Casa Grande, uma loja de artesanato e uma lanchonete também funcionam sob supervisão da Coopagran. Na sede da instituição também é possível se informar sobre os roteiros da região, contratar o serviço de um guia e alugar uma van para conhecer as outras cidades. Graças a essa iniciativa, a cidade de Nova Olinda recebeu o selo de cidade turística, conferido pelo governo do Estado do Ceará e pela Embratur.

Confira de perto:

Fundação Casa Grande - Memorial do Homem Kariri
Rua Jeremias Pereira, 444 - Nova Olinda - CE
Tel. (88) 3546-1333

Como chegar:

De avião: o aeroporto de Juazeiro do Norte recebe vôos da BRA, Ocean Air e GOL vindos de Fortaleza e São Paulo, diariamente.

De ônibus: o acesso mais fácil é por Fortaleza, de onde saem ônibus de hora em hora para o Crato. São cerca de 8h de viagem pela empresa Guanabara, em execelentes veículos.
Também há ônibus saindo de todas as outras capitais do Nordeste e diversas do Sudeste.

Entre em contato com a Casa Grande, que eles providenciarão seu transporte até Nova Olinda. Ou então, pegue um táxi até o ponto de Topics no Crato. São R$ 4 reais até a porta da cidade.

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Helena Aragão
 

Que maravilha, Mariana. Ouvi falar muito bem do projeto, mas foi ótimo ler esse texto tão completo sobre os detalhes do Casa Grande. A prova de que um projeto social pode, literalmente, mudar uma cidade. Eles têm muito a ensinar a todos nós. Abraço

Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 23/7/2007 15:23
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LAILTON ARAÚJO
 

MARIANA...

A foto que ilustra o texto deixou este nordestino com lágrimas... Lembrei de minha infância no Sertão de Pernambuco!

Você falou de duas datas:

"Quando voltou para lá, já crescido, foi atrás destas lembranças. Conheceu uma moça do Crato, Rosiane Limaverde. Por essas coincidências da vida, haviam nascido no mesmo dia e ano: 19 de dezembro de 1965".

"Em 1992 nasceu oficialmente a Fundação Casa Grande, no mesmo dia 19 de dezembro".

Isso é muita coincidência: eu nasci em 19 de dezembro...

O texto retrata um Brasil que pode dá certo! A arte aliada à educação é o caminho para a transformação de um povo...

Pelo cuidado de descrever detalhes, escolha de fotos bem ilustrativas (e verdadeiras) e colocar para leitura a verdadeira cultura de um povo: PARABÉNS!

Beijão menina!

Lailton

LAILTON ARAÚJO · São Paulo, SP 24/7/2007 18:49
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Mariana Albanese
 

Obrigada pelos comentários extremamente agradáveis! Só estou correndo atrás de uma lacuna: todo mudno já ouviu falar da Casa Grande, pelo menos um pouquinho, mas não tem muita idéia do que seja. Nem eu tinha, até chegar lá!
Então resolvi esclarecer em um texto todas as dúvidas que eu tinha, que devem ser as de muita gente também.

O dia 19 de dezembro lá, neste ano, vai ser fantástico: 15 anos de Fundação! Se puder, compareça à festa Lailton!
Do sertão de pernambuco, só conheci Exu, que vale muito a visita.

Mariana Albanese · São Paulo, SP 24/7/2007 19:03
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LAILTON ARAÚJO
 

OI MARIANA!

Passei por aqui...

Meu voto ficou registrado!

Beijão!

Lailton

LAILTON ARAÚJO · São Paulo, SP 25/7/2007 10:28
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Hermano Vianna
 

estive algumas vezes lá na Casa Grande - sou totalmente fã do projeto, das crianças (vi algumas delas crescer e se tornarem já adultos muito bacanas como a Samara e o Samuel) e do Alemberg - todo mundo deveria passar por lá para conhecer e aprender - é um dos países onde quero morar - Mariana: muito obrigado por esse excelente relato! Textos assim justificam muito bem a existência do Overmundo!

Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 27/7/2007 18:57
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Mariana Albanese
 

Oi Hermano, muito obrigada pelo comentário generoso. Como eu disse acima, há muito tempo buscava na internet uma matéria que me esclarecesse o que é exatamente a Casa Grande, coisa que só fui descobrir lá - embora seja tantas coisas, que é impossível definir. E foram três idas, em estadias intensas.
Acho que há um potencial gigantesco a ser trabalhado ainda. Penso que infinito. Todas as vezes em que fui lá, encontrei alguém dando uma oficina, e foi como se tivesse ido a um congresso. Captação de recursos, felexibilidade de direitos autorais, foram temas que ouvi lá no meio do Sertão.
Quando cheguei na Fundação, lamentei profundamente não ter nascido em Nova Olinda, e ser um daqueles meninos.

Mariana Albanese · São Paulo, SP 27/7/2007 22:14
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Hermano Vianna
 

realmente, Mariana, não é exagero: os meninos têm mesmo uma educação melhor (própria para o mundo de hoje) que a que é dada em muito colégio particular de Rio e SP tido como bom... isso dá muito o que pensar...

Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 28/7/2007 00:24
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Andre Pessego
 

Pois é, como diz o dito popular "ainda há luz no fim do túnel".
E há desvelo como o de mariana, por extensão de tantos dos que realizam sonhos aqui no Overmundo, sonhos, fantasias e outros modos de agir socialmente, andre

Andre Pessego · São Paulo, SP 28/7/2007 04:19
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Mariana Albanese
 

Tem uma coisa importante: esse texto da Casa Grande, está dentro de uma reportagem enorme que fiz sobre o Cariri, e que espero que um dia vire livro.
Ou seja: ela é uma das coisas incríveis que a gente pode encontrar por lá. É uma região muito rica em história, a matéria que fiz pro Almanaque Brasil de julho (posso colar depois no Overmundo, já que ela está em CC) mostra isso: dos Dinossauros à Casa Grande, passando por Padre Cícero, e tantos outros personagens incríveis, o Cariri é, sem dúvida, um oásis no meio do Sertão.

Mariana Albanese · São Paulo, SP 28/7/2007 19:04
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Divino Leitão
 

Parabéns pela reportagem, já tive a oportunidade de conhecer a Casa Grande e é exatamente isso que está sendo descrito e um pouco mais. O lugar é realmente o sonho de toda criança.

Divino Leitão · Araraquara, SP 12/10/2012 21:53
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