“Aqui é d´el Rey. E há que andar por estas ruas e descobrir belezas insuspeitadas. Há que se surpreender em cada esquina entre o colonial e o eclético, entre o barroco e o neo-clássico. Há que se ver mais do que com os olhos, enxergar com o coração, ampla retina que açambarca séculos e transborda espanto e sustoâ€
Nada se compara ao povo ocupando a sua cidade após cinco dias e noites de chuva; vão para as ruas neste finzinho de janeiro para ensaiarem a escola, a bateria se reúne nas cercanias da rodoviária velha. A gente do bairro sabe o samba. Espero para ver, mirando, ao redor, um cenário intrigante, a mistura do colonial, eclético, do neoclássico, do moderno, que se não toma o seu espaço com a implosão do edifÃcio anterior, toma aos poucos, como uma doença degenerativa, incorporando janelas, umbrais, portas. O edifÃcio amarelo de esquina é exemplo: parcialmente moderno, com seu térreo ocupado por lojas de autopeças, o segundo andar ainda eclético e o terceiro invadido pela chaga, armações de madeira colocadas no auxÃlio à repaginação completa do hotel.
Bumbos, tamborins.
Pergunto-me, como pode uma cidade descrita num folheto de prefeitura por Jota Dangelo ainda existir? Esta é d´el Rey, com apóstrofe e hipsilo? Caminhões e motocicletas e automóveis travam disputas por passagem. Como pudera pensar que o tempo havia parado na arquitetura colonial? Uma moto passa, estridente, um caminhão de areia.
A andar, andar. Deixo o samba, mesmo que só hoje ele tenha saÃdo, enveredo pelos “confins do centro histórico a descobrir vielas pitorescas, o Beco do Cotovelo, o conjunto eclético da Rua Santo Elias, a aparência de presépio do casario da Rua Santo Antônio, o Beco da Escadinha nas proximidades da Igreja do Carmoâ€. A variedade de estilos e cores alegra, a combinação colonial-eclética, especialmente.
Ao descer algumas ruas na direção do córrego e do centro da cidade, começa a surgir a indesejada mistura colonial-moderna. Este magnÃfico sobrado à Rua Artur Bernardes (e como, em se tratando de arquitetura, este adjetivo é apropriado), foi cenário em 24 de abril de 1889 de um discurso de propaganda polÃtica de Silva Jardim, “adepto do credo republicano, que tentou lançar a sua palavra de apologia para a população sanjoanense, mas foi impedido pela turba comandada pelos chefes monarquistas da cidade, tendo seu hotel apedrejado, ocasionando sua retirada à s pressas, debaixo de escolta armada devido ao tiroteio entre as duas partes contendorasâ€. (O relato é do historiador Fábio Guimarães). Este belÃssimo sobrado é ladeado por um edifÃcio comercial simplório, triste: uma horrenda placa de metal desenhada com uma boca e seu aparelho ortodôntico avança sobre a calçada. Aqui, apenas o silêncio e o som torturante da broca do dentista. Temos exemplos destes ao longo das duas ruas paralelas à margem esquerda do Córrego do Lenheiro, onde do outro lado se espraia a parte moderna da cidade; as placas dos estabelecimentos, sobretudo, chamativas, desproporcionais, colaboram para este mal-estar, a inevitável pergunta: por que largar a cidade ao deus dará?
A andar. Volto em direção à s minas. O cenário vai se tornando novamente mais belo, com a mistura colonial e eclética, sem contar o barroco das igrejas. Compreendo que retornar ao córrego, voltar à s minas é girar a roleta para que os estilos se sucedam, sucedam, até que a atenção se fixe em miudezas, detalhes. Não à toa, um dos motes de uma campanha da cidade como “Capital Brasileira da Cultura 2007†é “Pare. Olhe. Encante-seâ€. Aqui, mais do que em outras cidades históricas, o tempo passou pelo dinamismo comercial que a cidade experimentou, suas correntes modificações de estilos e modismos. Não sou de lamentar, esta beleza e este mal-estar enriquecem, de algum modo, aqueles que por estas ruas andam, compreendendo, condenando o homem que, acima de ser polÃtico, é ser comercial.
A andar. Por um intrincado jogo de esquinas, o samba retorna. Retorno. Esta é uma cidade embaralhada. Não é turÃstica, não é industrial, não é comercial: é todas elas. “Não lastime possÃveis descaracterizações ou aberrações cromáticas de duvidoso gosto que, vez por outra, perturbam a harmonia de conjuntos. Aqui, como em toda parte, nem sempre o homem compreendeu o significado de progresso. Mas sinta que no todo prevalece admirável composição de estilos, preciosidades coloniais e magnÃficos exemplares neoclássicos e ecléticos como não se há de ver em nenhuma outra cidade do ciclo do ouro. Porque aqui é d´el Reyâ€.
Amigos, d´el Rey precisa saber se se parece com outra cidade ou com outra imagem de cidade que gostaria de ser. A resposta que espero que encontre seja, que ela não se parece, que ela não se parece. E que assuma, definitivamente, que ainda pode ser a imagem que lhe convir, ou ser São João Del Rei.
A andar.
Lindos, texto e fotos. As fotos, aliás, dão nova dimensão ao texto. Bom saber que tem gente andando pela cidade pensando nessas coisas...
Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 4/4/2007 14:54
Acho que a maior parte das cidades do interior de MG sofrem com essa mistura de estilos, épocas e propósitos arquitetônicos.
Não lamentar é importante.
O texto tá bom pracaralho.
A andar.
Muito bom o texto...essa deriva pela cidade sempre nos desperta para coisas interessantes.
Ao meu ver, essas "anomalias" arquitetônicas são indÃcios de apropriação da cidade pelos habitantes. Tais misturas, por contrariarem a "pureza" dos estilos, nos fazem relativizar a própria noção de estilo e patrimônio histórico. Afinal, o tão admirado ecletismo, elevado ao estatuto de estilo arquitetônico, não passa também de uma mistura. Por fim, tudo isso nos leva a fazer alguns questionamentos a respeito da polÃtica de patrimônio. Quem estabelece o que deve ser preservado ou não? História de quem? Existe imunidade com relação ao dinamismo natural de mutabilidade dos aglomerados humanos?
A foto que abre teu texto me fez lembrar de minha cidade também. O comércio invadiu a Cidade Velha e descaracterizou os antigos casarões. Mas se olharmos para cima é como se fossemos transportados para o passado, devido aos segundos andares das casas ainda estarem relativamente preservados.
Pedro Vianna · Belém, PA 7/4/2007 15:36
Muito bom receber uma indicação legal por e-mail. Adorei o texto. Depois comento mais. ;)
Mi [de Camila] Cortielha · Belo Horizonte, MG 8/4/2007 03:33Amigos, Helena, Sérgio, LÃgia, Pedro e Mi, obrigado pelos elogios. LÃgia, o eclético é, sim, uma mistura, mas veja a foto da rua Santo Elias, são belÃssimas casas. No caso, a mistura está dentro do próprio estilo, é uma mistura que deu "certo". Pelo menos pra mim, gosto muito das casas ecléticas de Del Rei e de outras cidades. Não é o caso da foto principal da matéria, que é de um casarão colonial ladeado por um grotesco edifÃcio comercial, que tem tudo, tijolos, cimento, menos estilo. Sobre quem estabelece o que deve ser preservado, penso que é o IPHAN, que em algumas vezes deixa a desejar na fiscalização. Pode parecer romântico o que vou dizer, mas a história é da beleza, e daqui pra frente temos que ficar cada vez mais espertos com esse dinamismo natural dos centros urbanos. Imaginem o quanto já foi perdido com a sanha comercial e imobiliária. Ademais, foi um prazer fazer esta matéria e tirar as fotos. Abraço a todos.
Marcus Assunção · São João del Rei, MG 8/4/2007 21:30
Muito bom o texto e as fotos!
Permitam-me lamentar. Essa coisa da poluição visual é um problema. Aqui, o centro de Maceió foi todo descaracterizado com placas de todas as cores cobrindo fachadas de prédios antigos belÃssimos. Muito se fala em "revitalizar o Centro", mas só vejo mudarem as pedras do calçadão...
Marcus, o texto tá muito bacana. Deu até vontade de fazer algo parecido. Sempre bom ter alguém com o olhar aguçado, atento ao mundo ao seu redor. Abraço.
FILIPE MAMEDE · Natal, RN 9/4/2007 11:03
Acho que o que a LÃgia disse:
Quem estabelece o que deve ser preservado ou não? História de quem? Existe imunidade com relação ao dinamismo natural de mutabilidade dos aglomerados humanos?,
tem bastante a ver com o texto do Hermano sobre as imagens rupestres.
Além de um descaso, é um marco da ignorância, tanto do povo, quanto dos responsáveis do municÃpio...
Estes lugares deveriam estar tombados pelo patrimônio, alguém deveria criar uma lei que descontasse os IPTUs da vida em reformas destes pedaços de história do paÃs...
Triste triste... e os governantes pensando em seus reajustes ou aposentadorias precoces pra fugir de alguma acusação que provavelmente já vem tardia!
Enquanto isso... Dali mais um "Lojão dos Calçados", numa "casa velha caindo as pedaços"!
Camilafa, assino embaixo. Fico muito puto com a burrice de moradores e "administradores" públicos. E os caminhões transitando em áreas que não suportam a locomoção desses trambolhos? Certa vez, um amigo e eu bancamos os guardiões do patrimônio e fechamos um caminhão com o carro, você não pode passar, é área proibida para a sua circulação. Um ato desesperado, sim, mas que só funciona com LEI e MULTAS.
Marcus Assunção · São João del Rei, MG 9/4/2007 16:39
Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!
+conheça agora
No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!