A CIDADE QUE É UM SUPERMERCADO

Mark Henson
A Cidade que é um Supermercado: Crônicas sobre uma crise de percepção
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MakacoKósmico · Porto Velho, RO
4/7/2009 · 4 · 3
 

Este é um artigo/manifesto. Uma contribuição para o despertar de nossa tardia “Revoluêira” (ou Revolução Beradeira). É, sobretudo, uma vontade de Identidade; um desabafo, que é um golpe nos próprios córneos; mas também uma pretensão de acordar meu povo. Sim, pois, com base nesses anos de natividade amazônica, quis muito poder discordar daquela molesta jornalista que veio cá nos incomodar (Leia o artigo “Porto Velho, a cidade que não estava lá” e “Em Porto Velho, não diga que o rei está nu!”). Mas, apesar de seus “singelos” sentimentos por nossa região, de nada adiantaria enfeitar minha cidade natal aos olhos dos peregrinos. Por fim, ela tem razão. Por isso peço que perdoemos sua colocada “arrogância” em descrever tão acidamente nossa geografia social. De fato, precisamos de seres pretensiosos que OUSAM revelar sua opinião para mostrar-nos certas verdades inconvenientes. Afinal é da dor do parto que se concebe o NOVO. E, enfim, como doeram aquelas espetadas! Nossos defeitos enumerados arrasaram consigo a identidade anestesiada do caboclo, do mestiço, e do rondoniano adormecido (ou porque não dizer entorpecido?!). Mas que ótimo! De todo foi bom! Agora ouso Eu, revelar minha opinião, no intuito de estimular o debate sincero para problemas reais. Com isso, faz-se necessário libertar-me do “nazismo patriótico” que aflorou tão vistosamente em meus conterrâneos de região. Por esses tempo, ressurgiu nestas bandas um velho bordão nacionalista: “Porto Velho, Ame-a ou deixe-a!”. Como se aqui devesse viver todos àqueles que pensassem iguais. Como se a insatisfação não fosse um combustível para transformações.

De início devo admitir que, em verdade, nossa cidade não possui grandes atrativos, mesmo (e isso se estende ao Estado todo, de outras formas). Pelo contrário, aqui só se vê “DESTRATATIVOS”, por todos os lados. E o neologismo não vem em vão, pois minha explicação se segue nesta mesma linha. Aqui, e volto a evitar o “nazismo patriótico”, a culpa não é do governo ou de qualquer órgão público — pois estes estão apenas parasitando nosso próprio comodismo. — O fato é que somos Nós, os que mais destratam do NOSSO próprio lugar. Aqui ouso dizer que Somos, nós mesmos, nossos piores inimigos fantasiados de “minhoca da terra”. Somos, também, os olhos fechados da omissão e o foco criadouro de nossa própria Malária. E que bom que aquela incômoda sulista veio cá falar mal de nós. Nós merecemos! Somos umas putas, mesmo (que me perdoem as profissionais do sexo)! Gostamos de “levar na cara” pra depois “abrirmos as pernas” em troca de um agrado qualquer ($$$)! E minha referência tem profundas bases no utilitarismo histórico deste território. Seria, também, coerente se afirmasse que, aqui vivemos em uma cidade de APARÊNCIA, mesmo apesar de “tudo muito feio, muito sujo e muito caro” como bem disse a, outrora, malfada recém-chegada. Mas, em verdade, somos “um povo que não é daqui”. Uma “cidade de passagem” como definiu o polêmico artigo. Somos um povo que é filho do velho “predadorismo sulista”. Ou, em outras palavras, herdeiros do “explore, enriqueça e vá embora”.

De certo não somos todos, pois a generalização é burra. E devo fazer menção aos que, antes, aqui, sabiam conviver com a floresta, rios e animais. Todavia nosso “primitivismo” não era bom o suficiente para àqueles que acreditavam ser melhor passar concreto em tudo, ou ainda, se não der pra concretar, que se “mande encascalhar!” Hoje se fala muito no tal “Desenvolvimento”. Isso me faz lembrar o tempo dos meus avôs. Eles vieram pra cá, do norte e nordeste do país, na pretensão de construírem a Cidade e sua Estrada de Ferro, seduzidos pelo mesmo papinho, rezado e proferido, como garantia de fim para todos os males. Tadinho deles. Acabaram se tornando mais um dos muitos explorados pelos “peles claras” de sotaque esquisitos. Mas seria ingratidão não se respeitar a semeadura que ocorreu. Daqui minha família se nutriu e cresceu. Hoje somos todos nativos! Mas não pensem que estou criando uma alusão à divisão social ou incitando conflitos raciais em nossa Cidade. Não, nunca! Aliás, isso aqui nunca existiu! Vemos isso na justa distribuição do trabalho na região. Vemos isto nas Lojas, nos Shoppings e nos Canteiros de Obras. Vemos isso nas nossas próprias casas, em nossas relações com os “empregados”. Não há racismo nem diferenças de classes, por aqui. Assim como não há somente brancos bebendo nos bares da Pinheiro Machado, e também não há somente mestiços nos bregas das esquinas.

Aqui adoramos fingir que esta tudo bem! Jogamos nossas fezes nas águas que, lá na frente, beberemos. Isso mesmo! Gostamos de esconder nossos defeitos, nossas deformações! Apesar do narcisismo, temos medo do espelho, pois somos hipócritas. Somos Narcisistas do Ideal! Preferimos culpar o governo, afinal é pra isso que os pagamos e fazemos “vista grossa”: Para que levem a NOSSA culpa; Para não termos o esforço de “trabalhar” por algo diferente; Para não termos de construir o que é realmente necessário; Para não ter que protestar por mudanças; e, principalmente, não ter que PENSAR em ALGO NOVO para o nossa Cidade/Estado/País! Aqui, se algo ameaça vir à tona, aterramos nos córregos e algumas dúzias de plantas paisagísticas são excelentes para dar uma “fachada” no local. Se algo começa a feder, alguns Outdoors, uma salpicada de publicidade, outra pitada de pixe nos buracos, e quem vai dizer que não cuidamos da cidade? Quem vai dizer que não a amamos? Aqui, se você for esperto, cuide da sua máscara que vai se dar bem!

O Porto-velhense é especialista em fingir que nada esta acontecendo. Fingimos que não sabemos que quem está por trás de toda especulação imobiliária são as Altas Castas do Poder Local. As mesmas que fizeram a maior propaganda A Favor das Usinas, utilizando inclusive a máquina estatal para isso. Fingimos que há um crescimento ordenado, para não dizer “invasões”, e que as “regularizações fundiárias” são legais qui só. Fingimos que existe espaço para mais carros do que pode suportar as ruas. Fingimos demais, e “a Globo está nos perdendo”. Mas e daí?! Tiramos lasquinhas do que esta sendo ganho, e somos muito gratos pela esmola.

Devemos agradecer a Assembléia Legislativa do nosso Estado. Afinal eles brigaram tanto para garantir que contratassem pessoas daqui, para que houvesse uma abertura econômica para o nosso povo. Eles mal sabiam (ou será que sabiam?) que isso já estava nos planos das Empreiteiras. Como não conseguir Mão de obra barata com o povão sedento por empregos? Isso me faz achar de muita ingratidão que os “insubstituíveis especializados”, vindos de fora, ainda nos falem mal. Peço que não façam isso, por favor! Tomem-nos como exemplo! Somos mão de obra barata, explorados, mal pagos e subnutridos e ainda estamos gratos por isso! Somos felizes por isso! E até demonstramos nossa satisfação com adesivos “Usinas Já!”. E pouco importa a história do Brasil, queremos é dinheiro! Pouco importa a qualidade de vida, pouco importa nossos recursos naturais, pouco importa se a cidade vai virar um caos. Queremos dinheiro! E queremos comprar! Somos loucos por dinheiro e queremos poder compra sem limites. Convidamos todos os predadores de gravata, pois “juntos podemos transformar esse lugar em ‘algo der valor’, já que essa gente não valoriza a riqueza que tem!”. E não valorizamos, mesmo! Se ficarmos na miséria, em meio à devastação, não terá problema. Teremos um Shopping para olhar! Teremos uma Usina pra nos orgulhar! Teremos a TV, as novelas e a nossa programação local, que nos mostrará as melhores ofertas e promoções! Pois, essa sim, é a nossa Cultura!

Aqui, para quem não é mão de obra barata, é fácil arranjar um emprego público. Basta você ter as “costas quentes”, ou ser filiado a algum partido. Serás, então, um Comissionado: o sonho de todo Porto-velhense. Para isso é necessário somente, que tenhas obediência e saibas guardar segredo. Tendo isso como Qualidade e Virtude, você terá alguma estabilidade. Já para os outros, os que se arriscam no setor privado (ou será a Corporocracia?), basta ignorar que eles negociam nossas vidas pelas licitações, e você manterá seu emprego. Basta ser eficiente e serás “aturável”. Ao menos por enquanto, já que haverá centenas de “capitais humanos” aguardando na fila, desesperados pelo seu emprego. Aqui estamos aprendendo bem! Sabemos das regras; “Não conteste, seja bonzinho, que teremos uma boa quantia pra você beber com seus amigos no final de semana”. Aqui respeitamos a hierarquia social. Gostamos passear pelas “calçadas da fama”, e de mostrar nossos carros nos postos da esquina. E que Deus perdoe minha hipocrisia!

Alias a hierarquia social é um episódio à parte. As mulheres “chapinhas” e os “Peitos de pombo”, são os servidores eficientes. Trabalhadores de pedigree, de fato. Vindos de todo canto do Brasil. Os melhores que qualquer empresário ou governante poderia explorar. Não que eles custem pouco, isso não. Apenas possuem um “capital intelectual” baixo. Mas nada que a formatação de nossa Publicidade Obsessiva, aliada a Educação Técnica, não resolva. Tão logo só valerá a pena pensar no mercado de trabalho. “Ter pensamento crítico é pra quem é do contra”, diria um deles. Nesse cenário, quem faz a cidade funcionar são os Proletariados, como chamaria um barbudinho, chamado Marx. Aqui chamamos de Caboclos, mesmo. Estes são o motor da nossa sociedade. Os que são “honrados” com a visita do outro barbudinho, chamado Lula. No entanto eles são mais visitados, na verdade, pelos homens de farda azul. Nosso motor nasce daqui mesmo, descendente em sua maioria de nordestinos e indígenas. Talvez, não por preconceito, é lógico, mas nossa TV faz questão de que não esqueçamos seus rostos, ridicularizando-os e humilhando-os nos programas policiais. Me pergunto quando nossos deputados serão entrevistados, lá, também?. Me pergunto, ainda, quando seremos apenas porto-velhenses, sem classes, nem cor? Por hora já seria interessante admitir nossas diferenças e aprendermos a coexistir. Ta bom, ta bom. Sou mesmo um romântico. Já que é assim que chamam aqueles que desejam uma utopia.

Mas, como eu estava dizendo, esta é uma cidade de aparência, e que, como num grande Supermercado, está em constante dia de “queima de estoque” (literalmente)! Aqui somos todos vendedores e clientes! E nossa meta é ficar rico explorando uns aos outros e nossas riquezas naturais. Aqui tudo tem um preço e quem tem dinheiro é quem manda. Caso não tenhamos sacolas para embalarem seus produtos, desculpe-nos. Somos um povo primitivo. Pedimos apenas um favor; Quando nos explorarem, respeitem o mínimo dos “direitos humanos”. Não que seja por nós, mas é que não gostamos do nome de nossa cidade nos Jornais Nacionais da vida. Afinal só aparecem “notícias boas” a seu respeito. Que injustiça! Achamos muito indelicado para com nossos “ratinhos de terno”, que alimentamos a cada quatro anos, no espetáculo da democracia!

E por falar em Democracia. Que Democracia, heim?! Me torno um entusiasta ao falar sobre ela. Disso podemos nos orgulhar, pois aqui, até os índios participam do nosso teatrinho. Por aqui não há curral eleitoral, nem compra de votos! Passamos quatro anos esperando ansiosamente para entramos numa salinha, digitarmos um numerosinho qualquer, para temos a impressão de que mandamos em alguma coisa. Não é maravilhoso?! Ou senão, negociamos essa coisa, a que chamam de “voto”, por um beneficiozinho qualquer, e já nos damos por satisfeitos. Por que iríamos querer mais?! Somos livres! Apesar de sermos “obrigados” a fazer isso, ainda somos livres! Podemos escolher que parasita alimentar após os anos que se passam. E mesmo que nada mude, tudo está lindo! Tudo está belo! Umas das melhores e mais sofisticadas legislações do mundo. Um sistema partidarista que funciona! Outro sistema eletivo que dá um show! E uma democracia que não é uma ilusão! Agradeçam as “diretas já” por isso. Agora nossa prisão é INVISÍVEL. Vivemos em uma República Democrática! Uma forma bonitinha de falar sobre uma Ditadura Corporativista, Oligárquica e Globalitarista.

Há quem diga que “é tudo culpa do Lula!” Já que foi ele quem chamou de “marolinha” o cocô feito pelos gringos que nós tivemos que limpar. Mas será que ninguém se interessa em saber? Será que vender carros, devastar a Amazônia e plantar gado não faz parte do mesmo processo? Que nada! Dos nossos problemas que cuidem os políticos. Do nosso preconceito que o isufilm cuide. E do consumismo que se façam mais pobres. Assim não teremos que dividir nossas liquidações. Pois aqui, nessa cidade que é um supermercado, qualquer semelhança com outras cidades do mundo será uma mera coincidência.

Mas saibam ainda que, aqui, não há quem Lute! Que não possuímos Resistência. Aqui não há quem não acredite nesse modelo de “desenvolvimento” mundial fracassado. Não há quem perceba que as mudanças são grandes e os impactos enormes. Não há quem combata a omissão e a corrupção, e quem trabalhe por amor! Principalmente por aqui, neste “fim de mundo” retrocesso! Sim, nessas latitudes não existem agentes críticos, pensadores e ativistas. Não há um povo que corta os rios na tentativa de acordar a nação! Não há quem eduque de forma libertária e libertadora. Não há quem mostre a cara, orgulhoso, pra se dizer “Beradeiro”! Não há quem faça a verdadeira arte sobrepujando o sofrimento da exploração. Quem soe os tambores alicerçando manifestos. Quem se reúna nos undergrounds da mente, tramando planos de revolta contra o inimigo. Não Há quem construa poemas e piche muros no intuito de nos acordar do automatismo. Ou quem, sobretudo, além de criticar, pense em SOLUÇÕES. Mas, admito. Se eles existem, são poucos. Poucos pretos, brancos e amarelos, de todos os nomes e de todos os lugares, que não sabem qual é o rosto do inimigo, e não permanecem vigiando seus atos e marcando seus passos. Sempre e sempre, esperando a Revoluêira! Esperando a Evolução Beradeira.

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Doroni Hilgenberg
 

Nossa,
seu texto contém tanta verdades que não há como comentar
um paragrafo só. E não difere de outras cidades, inclusive Manaus que esta se deteriorando a olhos vistos. E tome projetos e mais projetos superfaturados, inuteis e mal feitos , mas valeu, deu emprego e visibilidade enquanto durou... e já vem outro...
Mas como vc disse, somos um povo acomodado, vivemos de aparencia e favores, e estamos perdendo nossa identidade Esquecemos o quanto de imposto pagamos e que temos direitos garantidos pela constituição, que deveria suprir as necessidades imediatas como educação, trabalho e saude, mas não é isso que acontece e assim caminha a humanidade.
De tanta submissão já fomos subjugados.
Em tempo... não sou amazonense mas faz tempo que me encontro aqui e já criei raizes nesta terra, e talvez por isso a minha indignação seja maior ainda, pois quando venho de fora, noto a disparidade e a frota de onibus que circulam caindo aos pedaços.
Parece que tudo o que vem para cá é de segunda ou
terceira mão.
bjs

Doroni Hilgenberg · Manaus, AM 4/7/2009 19:43
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Higor Assis
 

Existe um livro que se chama 'O silêncio dos Intelectuais' neste livro há importantes pensadores do nosso país que compactuam com um comodismo silêncioso, não por não acreditarem em uma mudança, mas por não serem mais ouvidos por uma sociedade acomodada.

Como você tenta elevar ao final do texto, existe ainda poucos que pensam em mudar e até tentam mudar, com ações afirmativas, pequenas comunidades em uma luta desigual, mas estes poucos ainda não conseguem em suas respectivas lutas englobar mais pessoas.

Bom artigo, boa reflexão e que seja lido este texto por muita gente.

Higor Assis · São Paulo, SP 6/7/2009 13:39
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MakacoKósmico
 

Enquanto pessoas como vcs puderem ter acesso a esses pensamentos críticos e, por sua vez, possam construir os seus, haverá uma resistência! Pois é nos "undergrounds da mente" que habita a verdadeira revolução, a revolução interior.

Obrigado pela leitura!

MakacoKósmico · Porto Velho, RO 7/7/2009 12:32
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