A Copa do Mundo do pensamento africano na Bahia

by agnes
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andre stangl · Salvador, BA
19/7/2006 · 136 · 14
 

Em uma esquina do bairro do Rio Vermelho, uma baiana de acarajé interrompe suas atividades: “Corre, corre, venha vê”. Um esquadrão de motos fura o trânsito para dar passagem a uma fila de carros oficiais. São presidentes, embaixadores, ministros, conselheiros reais, lideres religiosos e intelectuais. Estão vindo a Salvador para a IIª Ciad (Conferência de Intelectuais da África e da Diáspora), para debater o futuro do continente africano com os herdeiros da cultura afro, filhos e filhas da diáspora, como a curiosa baiana de acarajé.
Segundo Ubiratan Castro, presidente da Fundação Cultural Palmares, a organização da IIª Ciad “foi um pedido formal do Abdoulaye Wade, presidente do Senegal e da União Africana (UA) ao presidente Lula e ao ministro Gil para que o Brasil pudesse sediar a segunda conferência”. Assim, através da parceria entre a UA, o Ministério da Cultura, o Ministério das Relações Exteriores e a Secretaria Especial de Políticas para a Promoção da Igualdade Racial (Seppir) foi possível organizar um encontro de proporções históricas.

Entre os dias 12 e 14 de julho, o evento reuniu mais de 2 mil pessoas, 280 vindas da África. Além do presidente Lula, do ministro Gil e da ministra Matilde Ribeiro, participaram da Conferência, entre outros, os chefes de Estado de Botsuana (Festus Mogae), Cabo Verde (Pedro Pires), Guiné Equatorial (Obiang Nguema), Gana (John Kufuor) e Senegal (Abdoulaye Wade), a primeira-ministra da Jamaica (Portia Simpson-Miller), o vice-presidente da Tanzânia (Ali Mohammed Shein), ministro de Cultura de Cuba (Abel Prieto) e o presidente da Comissão da União Africana (Alpha Oumar Konare). Entre os convidados especiais estavam a ambientalista queniana e prêmio Nobel da Paz de 2004, Wangari Maathai e o cantor Stevie Wonder.

É “emblemático” o fato desse encontro estar acontecendo em Salvador, como disse o poeta e educador Jorge Portugal, “porque o lugar que está sediando a Ciad é a capital máxima da diáspora africana no Brasil, que é a cidade do Salvador. (...) É uma espécie de Copa do Mundo do pensamento africano na Bahia”. Para ele, “o interesse que a cidade inteira tem por este evento é um sinal de que as pessoas estão se plugando nessas questões fundamentais e estão com vontade, na verdade, de tomar as rédeas de sua história”. A cidade foi chamada ao diálogo e respondeu.

Plenária

Entre as diversas mesas redondas e grupos de trabalho, um dos momentos mais concorridos foi a plenária do dia 14, sobre “A necessidade de um pacto político entre a África e a Diáspora pela paz, democracia e desenvolvimento”, onde a Prêmio Nobel da Paz Wangari Maathai falou sobre a “importância de governarmos a nós mesmos, de respeitarmos os direitos humanos, de aprendermos a nos tornar inclusivos, a dar voz aos fracos como damos aos fortes, aos pobres como damos aos ricos, a nível nacional e global. Porque, senão, aqueles que se sentem marginalizados, mais cedo ou mais tarde se organizarão e criarão conflitos. Talvez sob a forma de crime organizado, talvez sob a forma de terrorismo ou sob outras formas. A paz não acontece acidentalmente, assim como a guerra não acontece acidentalmente. Acontece porque uma parte se sente marginalizada e sente necessidade de chamar a atenção do resto do mundo”. O Ministro Gil pronunciou seu discurso conclamando “a implementação de uma rede mundial de comunicação afro-diaspórica, que possa formar uma opinião pública internacional afro-centrada, capaz de intervir junto a cada governo nacional e junto às instituições internacionais como um elemento ativo de pressão em favor de um projeto de renascimento africano”.

Nesse mesmo dia, poucas horas depois, representantes do Movimento Negro Unificado (MNU) demonstraram a força da sua reivindicação por cotas raciais contagiando todos os presentes à plenária com palavras de ordem como “Contra cotas raciais, só racistas!”, “Reparação já!”, “Brasil, África, América Central, a luta do negro é internacional” e “Cotas já!”. Um casal, representando a igualdade de gêneros, subiu no palco da plenária para ler um manifesto em defesa das cotas. (veja um vídeo do protesto).

História da Ciad

Em 2004 foi realizada a primeira Ciad em Dacar, Senegal. Uma conseqüência direta da transformação da Organização da União Africana (OUA) em União Africana (UA), no sentido de envolver a sociedade civil na construção de uma nova era de desenvolvimento econômico e social no continente africano. Segundo o site do Consulado Geral da República da África do Sul, a criação da UA tem o desafio de “distanciar-se do caráter abertamente estado-cêntrico da OUA e a concomitante falta de participação civil. A cooperação das ONGs, das sociedades civis, dos sindicatos, das organizações empresariais africanas, é essencial no processo de cooperação e implementação do Tratado de Abuja, como expressado na Declaração de Uagadugu e conforme estipulado na Declaração de Sirte. Durante a Cúpula de Lusaka, várias referências foram feitas ao fato de que a União Africana estava em certa medida baseada sobre o modelo da União Européia, e a esse respeito foi dito a África 'não deveria reinventar a roda’”.

Na segunda versão do Ciad, a União Africana (UA) com a ajuda do governo brasileiro dá um passo importante na direção de seus herdeiros culturais, os negros brasileiros filhos da diáspora. Para Conceptia Ouinsou, presidente da Suprema Corte do Benin: “A África espera a intervenção dos seus milhares de filhos que vivem fora da África, para que não sejamos sempre os pobres da humanidade. A diáspora pode ser um grupo de pressão muito forte”.

Lula e o G20

A conferência também pode ser entendida como fruto da estratégia política do governo Lula em busca de aliados africanos que possam fortalecer o G20, o grupo dos países emergentes, que é hoje uma importante força na balança econômica do mercado mundial. Lula sabe que sem a coalizão do G20 será difícil convencer os países mais ricos a flexibilizar o protecionismo de sua fronteiras econômicas, seja na área agrícola, na guerra das patentes, nos lobbies técnicos, ou mesmo na circulação de produtos culturais. Por que não toca música africana nas rádios? Por que não vemos clipes de artistas africanos na MTV? A indústria cultural também é uma fronteira muito bem protegida pelas grandes corporações da indústria do entretenimento. Não por acaso, a IIª Ciad teve também um espaço para as artes, no Ciad Cultural.

O sapiente ministro Gil bem sabe das dificuldades, mas proclama suas esperanças de “fazer convergir a saga de refazenda cultural experimentada pelos negros da diáspora com a saga da reconstrução nacional vivida pelos negros do continente africano”. Muitos podem ser os caminhos para essa transformação, “é preciso tecer com carinho a rede das instituições de ensino, pesquisa e divulgação de conhecimentos, de modo a possibilitar um sistema permanente de intercâmbio multilateral, virtual e presencial”.

A Declaração de Salvador

O resultado concreto do encontro foi a elaboração da “Declaração de Salvador”, que em linhas gerais defende: o diálogo entre os intelectuais africanos e da Diáspora, a criação de um Centro Internacional da África e da Diáspora, a fim de adensar e encorajar um pensamento africano mundial.
Vários são os problemas para que o renascimento da África se concretize, como disse Ubiratan: “Espero que a Carta de Salvador contenha indicações muito precisas e diretrizes, princípios e recomendações não somente de uma nova qualidade de intercâmbio e de cooperação, mas acima de tudo pela definição de objetivos comuns em termos de atuação nos organismos internacionais, nos órgãos multilaterais e tudo isso centrado na noção de Renascimento Africano, que é a noção de um novo desenvolvimento de qualidade dos países da África e dos países que têm uma diáspora africana, uma população de origem africana”. O grande mérito da IIª Ciad é convocar a sociedade, herdeiros da diáspora ou não, intelectuais ou não, a pensar sobre o que pode ser feito. Como responder à provocação de Frene Sinwala, ex-presidente do parlamento da África do Sul: “Não (basta) só observar, criticar. É preciso também vir para o debate, propor, contribuir. Não só expor suas idéias em revistas acadêmicas, mas também na mídia pública, distribuir o conhecimento”. Ela convoca cada participante da conferência a perguntar a si mesmo: o que eu vou fazer?
Uma nova página da história da África e da diáspora foi escrita, mas, como disse o embaixador Alberto da Costa e Silva, “a importância histórica dos eventos, só a história é que nos diz. Geralmente a gente só sabe se foi importante ou não 50 anos depois. E às vezes o que a gente pensa que foi muito importante não teve importância nenhuma. Uma coisa que passa quase em segredo, revela-se da maior importância depois. Então a importância será conforme o resultado. Conforme as coisas que se discutiram aqui, o que se disser e o que as pessoas levarem com elas na cabeça e no coração. Isso é que é importante. O que vai dizer se é importante agora, eu não sei. Talvez amanhã, depois de amanhã, eu saiba alguma coisa”.

O show

Angelique Kidjo é um anjo. Na grande festa de encerramento da IIª Ciad, a cantora fez o que não se viu em nenhuma das conferências e plenárias, conclamou o povo a participar, a platéia foi para o palco e fez parte do show. O que no ambiente da conferência poderia causar algum desconforto diplomático, na festa foi apenas alegria. Muitas foram as tensões nos dias da Ciad, mas vendo Angelique dançar e cantar, podemos entender que uma das grandes lições da herança cultural africana é que a música e a dança negra podem ser expressões da esperança, apesar de tudo.

(não deixe de ver as fotos do evento e ler a entrevista de Ubiratan Castro)

Colaborou: Agnes Mariano

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Vânia Medeiros
 

andré, que maravilha de matéria! super completa, abrangente, de longe a melhor que eu li/ vi aqui em Salvador (confesso que só acompanhei pela televisão, e foi péssima, super rasa).

me sinto super orgulhosa de Salvador ter sediado um encontro importante como esse. é preciso discutir África, colocar África na pauta cada vez mais, SEMPRE, e não só em encontros pontuais. Sobretudo na Bahia, que é um dos pedacinhos mais africanos do mundo.

Massa o texto!

Vânia Medeiros · Salvador, BA 17/7/2006 19:59
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Hermano Vianna
 

Bacana mesmo, André. Aqui no Rio fiquei procurando notícias nos jornais e além de uma foto do Stevie Wonder com Lula e Gil, não vi mais nada... E salve Jorge Portugal!

Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 19/7/2006 04:02
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Fabricio Kc
 

Muito bom andre! Sempre que posso participo de eventos sociais e culturais que acontecem em Salvador. Todavia, não pude participar da Ciad - que aborda não só o que se discutiu por lá, mas também alude criticamente ao contexto de sua realização! Muito massa!

Fabricio Kc · Salvador, BA 20/7/2006 15:09
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Fabricio Kc
 

Errata (engoli umas palvaras no comentario acima)...
"não pude participae da CIAD - e seu texto faz-se muito importante, posto que aborda não só o que se discutiu por lá, mas também alude criticamente ao contexto de sua realização! Muito massa!

Fabricio Kc · Salvador, BA 20/7/2006 15:11
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tiagozzz
 

legal esse evento.
mas esse contágio por cotas não acho interessante! Ser racista é ser a favor das cotas, isso sim!
a inclusão não deve começar só na fase adulta, e sim, na infância, com ensino infantil e básico de qualidade!

tiagozzz · Natal, RN 20/7/2006 17:36
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Yusseff Abrahim
 

Gostei da matéria e principalmente dos links selecionados.
Só para aproveitar o diálogo das cotas, há muito tempo, antes mesmo do debate público em torno das cotas para negros, a Universidade Federal do Amazonas, UFAM, já disponibilizava cotas para índígenas. Não consigo entender a polêmica a não ser pelo prisma da concorrência pela concorrência, aliás, isso nunca foi visto como injustiça pelos estudantes amazonenses, nem como assistencialismo pelos indígenas.

Yusseff Abrahim · Manaus, AM 20/7/2006 20:00
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Uirá Escobar
 

Lindo relato.
Me senti presente na luta.
Bela contribuição para o nosso povo.

Uirá Escobar · Cuiabá, MT 21/7/2006 11:57
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solange
 

Adorei.
Matéria muito bem elaborada.
Brilhante estréia.
Parabéns, e que essa seja a primeira de inúmeras.

solange · Salvador, BA 22/7/2006 07:35
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vanessa mariano
 

a matéria foi clara, rica em detalhes e bem escrita. parabéns!

vanessa mariano · Salvador, BA 22/7/2006 19:40
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Rosana Viana
 

André, não só adorei a matéria, como me emocionei com o vídeo. Independente de ser contra ou favor das cotas raciais, me emocionei pela sua rica colaboração ao evento e ao movimento em questão. Parabéns!!
Rosana

Rosana Viana · Salvador, BA 23/7/2006 11:51
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andre stangl
 

Muito obrigado a todos! Axé!

andre stangl · Salvador, BA 24/7/2006 10:44
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Gisela
 

Completa, clara, muito boa!!
Parabéns. Quero ler mais matérias deste porte, muito informativa!
Gisela

Gisela · Salvador, BA 24/7/2006 12:27
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Hans
 

André,
Excelente trabalho. Informativo, rico.
A "grande" mídia deu muito pouco além de fotos de Stevie Wonder, Lula e Gil.
Vá em frente!

Hans · Salvador, BA 24/7/2006 13:27
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Flávia Borges
 

Gostei e muito. Riqueza de detalhes e informação. Os links são muito bons.
Bom, sobre as cotas, eu ainda não tenho uma posição definida, pra mim tanto faz... Mas acredito que essa discursão aumentou por que a classe média/alta foi atiginda com o aumendo do número de vagas reservadas aos cotistas, o que talvez dificulte o acesso dos mesmo a Universidade...
Bom me empolguei com as cotas, rsrs

Parabéns, ótimo texto

Flávia Borges · Salvador, BA 15/10/2006 21:26
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