Envolva o povo, o povo não, os bacanas. A corda do carnaval em Porto Velho está cada vez mais puída, mais distante das manifestações da cultura popular. Tudo bem que há um custo caro para pôr um bloco na rua, entenda-se que nada é de graça, mas banir da convivência os iguais só porque eles não têm alguns reais para estar do lado de dentro da corda é uma atitude covarde. Empurrados contra as paredes, os cidadãos-pipocas são tidos como ameaça, como se o emblemático abadá fosse sinônimo do ordem e retidão cívica.
Eu fui no carnaval de rua este em Porto Velho. Mais de três mil engrossaram o caldo do bloco Pirarucu do Madeira, vi a banda renovada, onde continua indo quem quer, vi o reggae do JK invadir a avenida, vi e até participei do desfile das escolas de samba. Não tinha corda e eu voltei vivo. É a hora de a população ver que a corda no carnaval só serve para enforcar os preconceituosos com a falsa sensação de que estão protegidos dos pobres. Brincar, pular e se divertir não pode ser luxo de quem tem dinheiro, deve ser direito de todos que têm disposição para isso.
As brigas, aliás, foram poucas, segundo garantiu a própria Polícia Militar e constatei eu mesmo nos dias em que estive na avenida. Será que este é um sinal de que os cordões excludentes são um chamariz para que os jovens tentem pedir a atenção da sociedade? Eles, que já sofrem por não terem emprego, educação, estabilidade familiar e acesso às tecnologias da informação e nem chegam perto de qualquer coisa parecida com cidadania plena. Não é defesa de marginal, é resistência contra a marginalização de potenciais cidadãos que precisam de uma intervenção social, e esta pode começar pela cultura.
Começou agora na tv e em todo lugar o anúncio do carnaval fora de época. São R$ 380 para sair no único bloco que sai este ano. Vão armar o circo, e no picadeiro vão colocar a velha história de que há geração de empregos, de que traz turismo e até, pasmem, o dinheiro de abadás sem notas fiscais engordam o erário. Pra cima de mim não. Eu gosto é de ver o povo na rua. A exclusão pode até continuar, mas eu vou resistir e dizer da vontade de um dia ver a corda trocada por uma corrente de todos pela ascensão da cultura popular.
Pois é velho. Por aqui também os carnavais fora de época, aliás, o maior deles. Realmente, os preços são exorbitantes, o que dá margem a uma certa exclusão. Por outra, dentro das cordas, os cidadão, tidos como exemplos de "retidão" como você disse, estão se esbaldando com cocaína, lança-perfume e sabe Deus mais o que... Excelente recorte. Um abraço.
FILIPE MAMEDE · Natal, RN 24/4/2007 14:33Parabéns pelo texto, Adriel. Moro em Salvador, dentro do circuito do Carnaval e de minha casa presencio as maiores atrocidades pelos membros dos blocos de carnaval. Infelizmente o que a minha experiência pôde atestar é que, quanto mais caro o bloco, mais ignóbeis as pessoas se tornam. Quero deixar claro que isso é uma constatação, não um posicionamento. É o que é...
Amanda Maia · Salvador, BA 24/4/2007 15:36
Parabéns! Seu texto é muito importante e original por raramente se vê este absurdo sendo analisado. O carnaval deixou, há muito de ser uma festa popular, tanto no conceito quanto no acesso da população. Trata-se na realidade de usar o que integrava a cultura brasileira para enriquecimento de alguns e, mais grave, usando dinheiro público, na maioria das vezes.
A utilização da corda é apenas a parte mais visível deste absurdo.
beijo
Olhe Adriel, não é só em Porto Velho que isso vem acontecendo. Aliás, há muito tempo que assistir os desfiles na Sapucaí (aqui no Rio) é coisa de gringo, dado o valor altíssimo dos ingressos. Os cariocas mesmo, da gema, vão para os blocos, que são gratuitos, e as festas de rua, que varam a madrugada. Também o povo baiano tem reclamado do alto custo dos Abadás do carnaval de Salvador. Os baianos são minoria nas cordas dos Trios Elétricos. É uma pena.
Maringá · Rio de Janeiro, RJ 25/4/2007 11:20
Vc tem toda a razão.
Carnaval é do povo e o povo, vive o ano todo com a corda no pescoço.
No carnaval, não.
FAYAKA !!!
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