A CULTURA CELULAR

foto tirada através de um celular.
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Marcos André Carvalho Lins · Recife, PE
10/12/2006 · 120 · 10
 

A cultura celular


Todos nós conhecemos os aparelhos de telefonia celular. Cada qual possui o seu, independentemente, muitas vezes, de poder aquisitivo, a praticidade fala mais alto e quem não possui um celular parece meio perdido no tempo e no espaço. Assim como já houve com os relógios de pulso.
As pessoas, ao nosso redor, se observarmos com atenção, cada vez mais parece assemelharem-se com aparelhos celulares. Parecem falar a língua dos torpedos, responder e se ater apenas ao necessário, sintetizar diálogos em minutos, muitas vezes escondem-se por detrás de códigos invioláveis e se desligam com muita facilidade , além, é claro, de muitas vezes ser necessário “;carregar suas baterias”; pois não lhes basta o fundamental, as ambições materiais suplantam as carências espirituais, fazendo, muitas vezes, dessas pessoas, seres em busca cada vez mais de poder e status.
Não. Não pretendo generalizar. Há pessoas e pessoas. Mas o individualismo parece ter se apossado da nossa cultura, transformando seres humanos em celulares e estes em seres humanos. A inversão é bem marcante na Era cibernética. Precisa-se de uma caixa postal mais do que de uma presença pessoal. A competição agressiva não permite, ou dificulta, trocas salutares de conhecimento e vivências.
A mediação tornou-se digital. A memória tornou-se menos passional. No lugar de chamadas locais são necessários DDI’;s para falar com pessoas a dois metros de nós. Não há mais indícios daquela fibra e teimosia, crenças em utopias, num socialismo real, num paraíso na terra. Há , no sentido contrário, uma cultura de cada um por si. Uma sujeição a parâmetros e diretrizes que visem apenas o dia de hoje ou, no máximo, o de amanhã. Os filhos, cria-se para o mundo. Contudo, não se forja um mundo que melhor se adeque às necessidades dos nossos filhos.
As pessoas, insistem alguns, estão mais próximas e desfrutam de melhor qualidade de vida do que outrora.Mas será mesmo? A voz, de fato, alcança distâncias infinitas, porém um infinito pra lá de particular. As mensagens perdem-se diante do culto ao sucesso e na ânsia de adquirir.
Pode-se questionar o conceito de sucesso e a resposta nunca nos seria satisfatória. Porque o sucesso faz parte do pequeno universo celular que criamos. Existem torres que direcionam e ampliam os sinais, como nos aparelhinhos de telefonia. São as nossas próprias esperanças, entretanto, estas assomam incompatíveis com a cultura celular.
Como celulares nos preocupamos mais com os acessórios e com o preço das tarifas, do que com a sensibilidade , a solidariedade e os sonhos. Máquinas necessitam de energia, a energia vital é o potencial para sonhar. A vida carece mais do que de seres codificados, a vida precisa de futuros para os quais possa fluir, perene, realizável, como um rio que ruma sem conhecer a imensidão do mar. Com a certeza , todavia, de que à foz não tornará.
Deixemos nossas próprias carências de lado por instantes e pensemos em quem deixou aquele recado na caixa postal ou naquele que deu apenas um toque para que retornemos a ligação. Pensemos sobretudo naqueles que estão no outro lado da linha, no outro lado do mundo, no outro lado da cultura celular. Aqueles que não possuem um “;número”;, aqueles dos quais desconhecemos o nome, mas que guardam muitas vezes uma tarja preta no olhar. Aqueles para os quais estamos sempre ocupados, conversando ao celular.

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Leonardo André
 

Eu acho q ainda estamos meio assustados com essa história de individualismo. Confesso q as vezes acredito nessa desumanização por conta dos avanços tecnológicos. Mas, começo a pensar q td isso pode ser um pouco de preconceito de nossa parte. É claro q o consumo insustentável apresentado principalmente nos países desenvolvidos, é uma crescente ameaça ao meio ambiente, mas não creio q as pessoas estejam se transformando em robôs. Cada indivíduo tem suas razões que, antes de tudo, devem ser devidamente interpretadas e, a partir daí, criticadas. Em tese, a escola é o melhor local para essas dicussões, q deveriam ocorrer, creio eu, desde os primeiros anos de vida social. E nós, q nos acostumemos com o individualismo (mas não com o egoísmo, esteja bem claro!).

Leonardo André · São Paulo, SP 7/12/2006 16:05
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Marcos André Carvalho Lins
 

obrigado, Leonardo André, pela análise crítica. é muito bem-vinda. meu objetivo é justamente causar reflexão e não impor dogmas. concordo que a escola é o melhor local para essas discussões. também não há uma "desumanização", o que ocorre é que em muitos pontos a própria escola deixa à deriva polêmicas como essa, que acabam num momento ou noutro "estourando" em outros meios. querendo ou não, o egoísmo é uma das facetas do individualismo.
abs.

Marcos André Carvalho Lins · Recife, PE 7/12/2006 16:49
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Leonardo André
 

O celular é mesmo um ótimo modelo pra essa era tecnológica em q vivemos. Acho emblemático o fato de pessoas, q eu conheço, mesmo com um orçamento apertadíssimo, trocarem de aparelho a cada novo lançamento. Qdo chega nesse ponto, tb acho bem complicado e é aí eu creio q a coisa deve começar a ser criticada.

Leonardo André · São Paulo, SP 7/12/2006 17:48
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Marcos André Carvalho Lins
 

esse ponto também é importante. muitos não podem ter o básico mas possuem celular. mas quando escrevi esse texto
pensei naquelas pessoas que posssuem todo aparato possível
em termos digitais, porém cada vez mais "criptografam" seus
relacionamentos pessoais. se você olhar em volta com cuidado
vai ver que isso é mais comum do que aparenta. algumas pessoas
têm , por exemplo, o hábito colocar códigos no celular para que
ninguém se aposse de suas informações ou os utilize indevidamente. todavia, você já tentou pedir emprestado a essas pesssoas o celular? elas simplesmente esquecem de acionar
a "chave", o "segredo", sem o qual você não pode utilizá-los.
para mim isso é um sintoma bem interessante, um caso a se pensar!
abs.

Marcos André Carvalho Lins · Recife, PE 7/12/2006 22:40
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apple
 

Bem, o meu celular está desligado faz uns 2 meses... De certo até estragou em alguma gaveta... Ops!

Eu quase não uso, mas as pessoas cobram, esperam que você tenha um celular...colegas de trabalho, amigos, médicos, dentista, ...

A última vez que usei foi quando meu irmão passou mal e tive que acompanhá-lo a um hospital. Levei para facilitar, no caso de alguma eventualidade.

Já me roubaram 2, então abandonei essa idéia de usar celular.

apple · Juiz de Fora, MG 10/12/2006 00:33
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Marcos André Carvalho Lins
 

valeu o comentário, Criss. eu também não tenho celular.
abs.

Marcos André Carvalho Lins · Recife, PE 10/12/2006 00:42
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Andre  Intruso
 

i ahah ..acenda seu celular ! Ta vendo..no que deu a cultura celular...rsrs valeu marcos!

Andre Intruso · Jaboatão dos Guararapes, PE 10/12/2006 14:25
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Marcos André Carvalho Lins
 

valeu o comentário, andré.
abs.

Marcos André Carvalho Lins · Recife, PE 10/12/2006 15:21
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Rangel Castilho
 

Quero lembrar que a visão de mundo de cada um embaça o coletivo.
A comunicação em código é formação de guetos.
As abreviações e frases curtas, preguiça ou falta de cultura.
E sim, a escola de hoje nos deve muito!
Sem um norte, a política educacional se rende a improvisos governamentais. Escolas particulares vendem diplomas a esmo.
Professores são o pára-raio de tudo isso - mal remunerados, maltratados, e mesmo assim, responsáveis pelo futuro de nossos filhos.
E a família? É tudo!!
Não devemos ser números, devemos valorizar os laços afetivos...
Cada indivíduo deve buscar, sim, seu sucesso, mas não à custa dá fúria capitalista, em detrimento da sociedade.
Muito bom seu texto, Marcos André!! Parabéns!!!

Rangel Castilho · Anastácio, MS 11/12/2006 01:00
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Marcos André Carvalho Lins
 

é isso aí , Rangel: educação é tudo.
abs.

Marcos André Carvalho Lins · Recife, PE 11/12/2006 01:26
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