A dança da vida

www.danzemeditative.com
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Zezito de Oliveira · Aracaju, SE
20/2/2008 · 240 · 16
 

Segundo Alcino Ferreira e Clemente Lizana(in memorian), no texto “A questão do corpo nos movimentos popularesâ€, educadores populares da Equipe Habeas Corpus de Recife: “Os nossos corpos são portadores, por assim dizer, de feridas e de cicatrizes imprimidas pela organização do universo político e pela repressão social.â€

Já Frei Betto, em artigo de sua autoria intitulado corpo cósmico, afirma: “Esse corpo que somos dorme e sonha, sofre e goza, sabe-se feliz ou contrai-se em tristeza, esbanja saúde ou fragiliza-se na doença. Sobretudo, é capaz de algo inacessível a todos os outros animais: sorrir . E, no entanto, ainda vivemos num mundo submerso em lágrimas. Porque esse corpo, provido de sentimentos e emoções, guarda rancores, iras e ódios, embora tão capaz de compaixão, ternura e amor.â€

Toda esta reflexão, se colocada durante as décadas de 60 e 70 como ponto de partida, para discussão de um projeto coletivo junto a pessoas e grupos que atuavam junto a movimentos populares, sindicatos, entidades e a maioria dos agrupamentos de esquerda, seria no mínimo estranho, ou acusada de estar querendo desviar o potencial de mobilização e/ou politização das massas. Como a maioria das lideranças daquela época não percebeu a importância de valorização dos aspectos ligados a cultura, ao corpo, a espiritualidade e a subjetividade, algumas reações vieram a tona, como: o cansaço, o isolamento, a perda do sentido do projeto político, o martírio do corpo no exercício da militância que traria, no amanhecer, a revolução.

Já no momento atual, constata-se a partir da contribuição de pensadores engajados , principalmente aqueles ligados aos estudos da filosofia, das tradições religiosas e da psicologia que um dos principais problemas que impedem a construção de homens e mulheres novos e uma efetiva mudança das estruturas sociais é exatamente esta visão fragmentada, dividida e separada das questões que nos dizem respeito, tanto em termos do ser individual, como do ser coletivo.

Urge, parafraseando Proust: buscarmos a unidade perdida, afinal dividimos o mundo em territórios. Quebramos a unidade do conhecimento e do ser. Para os cientistas, damos a natureza; aos filósofos, a mente; para os artistas o belo; aos teólogos, a alma. A própria ciência foi fragmentada de tal forma que, por falta de aproximação e entendimento de profissionais dos ramos diversos, muitos projetos fracassam(ram) com possibilidade inclusive de comprometer a sobrevivência das espécies e do próprio planeta.

Com o objetivo de possibilitar a colagem das partes, diversos filósofos, cientistas, teólogos, psicólogos, artistas e educadores estão buscando no resgate da tradição em diálogo com as descobertas e insights atuais, algumas saídas para a crise individual, social e planetária que aflige a todos nós no inicio deste novo século.

Um destes nomes é o de Bernhard Wosien, bailarino e coreógrafo alemão que, inspirado pelo imenso potencial das danças folclóricas, e após intensa pesquisa baseada principalmente na tradição alemã, criou em 1976 um movimento intitulado “Danças Circulares Sagradasâ€, que nasceu na comunidade espiritualista de Findhorn, no norte da Escócia.

O resgate dessas danças representa uma retomada de antigas formas de expressão de diferentes povos e culturas, acrescidas de novas criações, coreografias, ritmos e significações próprias do homem inserido na realidade atual.

Aqui em nossa região, no ano de 1999, o Cenap (Centro Nordestino de Animação Popular) inicia uma série de oficinas com William Walle, em Recife (após esse momento, outras cidades da região foram incluídas), e através de outros focalizadores, como Ãlvaro Pantoja.

Através das danças circulares, algumas questões tratadas no texto: “A questão do corpo nos movimentos popularesâ€, escrito no final da década de 80, por Clemente Lizana (in memoriam) e Alcino Ferreira podem ser trabalhadas, são problemas de comportamento que freiam o avanço dos processos coletivos decorrentes do:
· Individualismo,
· Da concorrência,
· Da vontade de dominar os outros ou da subserviência,
· Da intolerância perante as colocações alheias,
· Da falta de confiança nas capacidades próprias,
· Da desconfiança nos outros,
· Do acanhamento,
· Da falta de vitalidade e da passividade,
· Da incapacidade de se concentrar.
Como já sabemos, estas condutas são provocadas e incentivadas, de mil maneiras, para garantir a reprodução do atual modelo sócio–político-econômico-cultural injusto e excludente.

P.S,:

1)Em alguns estados existem pessoas, grupos e entidades que se dedicam em promover a disseminação do conhecimento sobre danças circulares. Procurando no google certamente encontrará alguém ou algum local mais próximo. Dentre muitas, destacamos:

Roda dos Povos – Encontro Brasileiro de Danças Circulares... Sagradas www.rodadospovos.com.br
Encontro Nordestino de Danças Circulares (Recife-PE) www.encontro.nordestinodc.nom.br
Mana-maní (Belém-PA) www.manamani.org.br
Rodas da Lua – Grupo Rodas da Lua (Brasília-DF) www.rodasdalua.org.br
UniLuz (Nazaré Paulista-SP) www.nazarevivencias.com.br
Giraflor (Curitiba-PR) www.dancascirculares.org
Roda de Luz (Rio de Janeiro-RJ) www.dancascircularesrj.com.br
Triom – Centro de Estudos, Livraria e Editora (S.Paulo-SP)
www.triom.com.br/paginas/p04-4fr.html

2)Nos dias 08 e 09 de Março (sábado e domingo) estará sendo realizado aqui em Aracaju, mais um encontro de danças circulares, quem quiser saber mais, clique aqui.

3) Dançar quer dizer,
Sobretudo comunicar,
Unir-se,
Encontrar-se,
Falar com o próximo no profundo do seu ser.
A Dança é união,
de pessoa com pessoa,
de pessoa com o universo,
de pessoa com Deus.

(Maurice Bejart)



A canção do bailarino
“Tu que moves o mundo, agora moves também a mim
Tu me tocas profundamente e me elevas a ti
Eu danço uma canção do silêncio,
Seguindo uma música cósmica
e coloco meu pé ao longo das beiras do céu
Eu sinto como teu sorriso
me faz felizâ€.

Bernhard Wosien

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azuirfilho
 

Zezito de Oliveira · Aracaju (SE) ·
Mais um Admirável Trabalho pra gente louvar.
Alegria por ser de um projeto pra elevar a cultura do Brasil.
Igual a Paulo Freire uma Cultuta que emancipe, que liberte.
Maior satisfacáo vir ver e atestar o grande valor destes trabalhos Populares.
Maior orgulho do Preparo e da Inspiracáo de vocés.
Abracos Amigos sempre.

azuirfilho · Campinas, SP 20/2/2008 18:09
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Lígia Saavedra
 

Puxa, Zezito, eu não conhecia o Mana-Mani, vou até entrar em contato com eles para saber mais.
Muito obrigada, viu? Valeu a dica.

Bj

Lígia Saavedra · Ananindeua, PA 20/2/2008 19:19
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Nydia Bonetti
 

Bárbaro, Zezito!
A dança é tudo isto e muito mais... Os povos primitivos já sabiam disto e nós precisamos reaprender.
O link de Nazaré Paulista não abre. Tão pertinho aqui de mim. Me manda o link correto, tá?
bj.

Nydia Bonetti · Piracaia, SP 20/2/2008 19:32
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alcanu
 

Muito bom, Zezito, valeu pela sua cobertura !
Um abraço, Alcanu

alcanu · São Paulo, SP 20/2/2008 19:40
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Cintia Thome
 

Esse corpo que somos dorme e sonha, sofre e goza, sabe-se feliz ou contrai-se em tristeza, esbanja saúde ou fragiliza-se na doença. Sobretudo, é capaz de algo inacessível a todos os outros animais: sorrir (Frei Beto)

Zezito, encantada com um texto deste, vendo o trabalho de comunidades. Interessante texto sobre o que a dança traz ao ser humano às vezes com difícil sociabilidade e convívio. Danças Circulares. Vou aos sites.
Parabens. Fotos interessantes e uma boa colaboração ao Overmundo.

Cintia Thome · São Paulo, SP 20/2/2008 19:41
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carlos magno
 

A dansa é união
de pessoa de pessoa com pesso
de pessoa com o universo
de pessoa com Deus.

Belo trabalho amigo Zezito.Meus sinceros aplausos e abraços.
Carlos Magno.

carlos magno · Rio de Janeiro, RJ 20/2/2008 20:16
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Marcos Paulo Carlito
 

Grande abraço e parabéns meu amigo!!!

Marcos Paulo Carlito · , MS 20/2/2008 23:23
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Higor Assis
 

Muito bacana nobre amigo Zézito. O texto traduz a essência da dança com um enorme aprendizado.

Higor Assis · São Paulo, SP 21/2/2008 08:24
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Balzaquiana
 

oi,parabéns pelo texto. Estou estudando atualmente as religiões afro-brasileiras e a dança é essencialmente a própria manifestação do divino nos cultos. Parabéns mais uma vez bjs

Balzaquiana · Rio de Janeiro, RJ 21/2/2008 08:41
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FILIPE MAMEDE
 

Falar sobre o corpo pressupõe uma certa verborragia. Isso se deflagra devido á impossibilidade de considerações concretas, considerações essas que seriam como a morte do próprio “corpoâ€. Diz-se da complexidade como sendo algo confuso, intrincado, até mesmo emaranhado. Flexiona-se a existência do corpo, não apenas como a substância física de cada homem ou animal, mas também de maneira a ser complexa, uma vez que seu conceito primeiro, feito por uma lei metafísica qualquer, se desfaz, dando lugar a uma gama variada de outras percepções.

Nesse momento, o corpo passa a residir sob a alcunha da pluralidade, sendo quase impossível e ingênuo querer que este seja, mais uma vez, apenas corpo. O corpo é o próprio método do qual a cultura se utiliza para se comunicar, se expressar e influenciar o outro. A cultura se veste de corpo e se propaga através da história, das vivências sociais, cognitivas e até de processos físico-metabólicos propriamente ditos do corpo.

A noção de círculo vicioso acaba quase desenvolvendo uma situação de sinonímia com o entendimento sobre o “corpoâ€. Isso porque o corpo, nessa hora, já é a própria história. Constituindo-a e dela participando. Igualmente à cultura, o corpo acaba servindo de espelho e de vitrine. Finalmente, o corpo é comunicação, quando é influenciado por estas percepções tão distintas e, ainda, transfigura-se como um corpo heterogêneo, participante, causador, vítima e refém da existência a qual se propõe.

FILIPE MAMEDE · Natal, RN 21/2/2008 11:08
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Nilmar Barcelos
 

A questão do corpo (homen X mulher) sempre teve uma representação e um peso social extremo, desde a mulher arrancada do homem até a idéia clássica da mulher como sendo um homem invertido. Acho a proposta de resignificão do mesmo como algo válido e necessário, embora discordo da idéia de "resgatar" elementos culturais nesta "missão", uma vez que dá a entender que esses ficaram inertes e resguardados no tempo quando na verdade sobreviveram ã modernidade justamente pela auto-resignificação. Mas gostei do texto, parabéns. Abraços

Nilmar Barcelos · Belo Horizonte, MG 21/2/2008 13:12
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Andre Pessego
 

Zezito, a mim não basta uma leitura. Achei, porco versado nestas questões de comportamento, filosofia, de importância enorme.
Arquivei, vou reler.
um abraço, andre.

Andre Pessego · São Paulo, SP 21/2/2008 19:19
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Rubenio Marcelo
 

Bela divulgação.
Parabéns sinceros.
Vou voltar a ler...
abrs,

Rubenio Marcelo · Campo Grande, MS 22/2/2008 00:34
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Marcelo Uchoa
 

Que belo texto, Zezito!!!!!!!!!! parabéns................

Marcelo Uchoa · Aracaju, SE 22/2/2008 02:12
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Lili_Beth*
 

Querido Zezito:

Precisei usar o tempo lógico para estar aqui contigo e dançar até... Até... Até... Nem sei qual é o limite!

Com tua licença... Gostaria de entrar nessa roda e poder compartilhar dessa harmonia sintonizada em parceria e encontrar-te no Universo...

PARABÉNS!

Beijos_Meus*
*

Lili_Beth* · Rio de Janeiro, RJ 22/2/2008 12:44
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Renata Silva
 

A danca enfrenta e reparsa as barreiras do imaginario humano, e um poder comunicativo infinitivamente expressival pelo corpo em movimento.
danca a vida...Belo tema
parabens!

Renata Silva · Aracaju, SE 24/2/2008 11:02
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