A Dança da Vida – 2º Movimento

Iris Fiorelli
Roda de Dança na Comunidade Bom Pastor-2008
1
Zezito de Oliveira · Aracaju, SE
10/8/2008 · 177 · 14
 

O primeiro contato que tive com as danças circulares se deu em Recife, no ano de 1999, quando participei de um primeiro encontro com William Vale, de Belo Horizonte. A partir de então, continuo tendo essa experiência até os dias de hoje.

Ao receber o convite através do Centro Nordestino de Animação Popular(PE), fiquei em dúvida se a proposta iria muito além de um repertório com base nas divertidas (mas já conhecidas) rodas infantis. E foi muito além mesmo! Pela primeira vez, tive contato com danças de roda de adultos, oriundas de diversos povos e tradições, e de algumas idealizadas por coreógrafos contemporâneos, com exceção das cirandas de Olinda e Recife, a qual já me havia sido apresentada em outras ocasiões, nas minhas andanças por Pernambuco.

As primeiras sensações foram as melhores possíveis; lembro de forma especial do contentamento ao dançar em pares, em razão da semelhança com as danças de roda que tinha visto em filmes com temáticas inspiradas no modo de viver dos povos tradicionais da Europa, dos ciganos, dos israelenses, entre outros, e que mostravam a leveza e a alegria estampada nos rostos das pessoas.

Ao voltar para casa, em uma manhã de segunda-feira, após descer a ladeira que despede a gente do seminário Cristo Rei, em Camaragibe, município que integra a grande Recife, lembrei-me da cena de ter visto, por trás das grades de ferro, um amontoado de mesas e cadeiras em uma casa de shows sem movimento e fiquei a pensar sobre o modo como as pessoas deviam ter celebrado seu encontro com as outras naquele espaço, nos dias anteriores (sábado e domingo). Algumas provavelmente dançando em pares, outras conversando e/ou ouvindo a música, ou fazendo tudo isso em tempos diferentes. Ainda assim, deviam estar desprovidos de um espírito de integração mais amplo.

Outra forma de contato que uma parcela de pessoas tem com a dança se dá através da freqüência a teatros para assistir a espetáculos coreográficos. Neste formato, a maioria ocupa o papel de simples expectadora e assiste um grupo de bailarinos virtuosos.

No meu caso, nos dias em que estive dançando com cerca de vinte e cinco pessoas, me pude sentir mais integrado a elas. Pude ter a sensação de calma através das danças meditativas, através das danças de pares me alegrei. Por estar em contato com as danças de povos e culturas diferentes me senti conectado/transportado e podendo assim entrar em comunhão com gente de tantos lugares e épocas distintas, gente e lugares que eu não conheci.

E como síntese de tudo de bom que pode proporcionar o movimento das danças circulares, entendo como fundamental a possibilidade de resgatarmos um modo de dançar que recupere o caráter de participação coletiva de todos os presentes no momento, abolindo a distinção entre público e artistas ou entre uma minoria que se especializou e a maioria que não teve tempo para isso ou que não leva jeito para a coisa.

Nas danças circulares sagradas fica claro que podemos e devemos recuperar o direito de todos experimentarem o prazer de estar em círculo de mãos dadas com os demais, compartilhando momentos de felicidade que tanto bem fizeram aos nossos antepassados e, de maneira bem natural, utilizando nossos corpos guiados por lindas melodias e pela criatividade humana, que nos legaram uma série de instrumentos de onde tiramos sons e melodias deliciosas.

A despeito disso, defendo que a dança de salão e a dança espetáculo também têm o seu espaço, só não consigo imaginar viver sem as danças circulares.

É por aí que muitos estão descobrindo uma das principais fontes de vitalidade daqueles que nos antecederam, e que foi se perdendo aos poucos retornando agora com toda a força.

Agradeço a Bernhard Wosien por ter percebido o potencial de cura dessas danças, antevendo que muitas delas iriam se perder na memória do tempo, em virtude das mudanças do modo de vida urbano/industrial contemporâneo. Ele iniciou o registro gráfico das coreografias e mobilizou um grupo de pessoas, em particular os membros da comunidade de findhorn, localizada na Escócia, para guardar e repassar o conhecimento ancestral e, desta maneira, tornar possível a permanência de um repertório de danças populares que nos dias de hoje possibilita fazer mais feliz a existência de milhões de “passageiros” que estão viajando através da nave mãe terra.


P.S.: Essa mesma situação podemos perceber em relação a uma série de danças populares nordestinas. Aqui em Sergipe ocorre, todos os anos, uma discussão acadêmica envolvendo a mudança de perspectiva das quadrilhas juninas que aos poucos vão perdendo a simplicidade e a ludicidade dos passos tradicionais para dar lugar a outros mais complexos e que se caracterizam pela inovação e pelo hibridismo. Com isso, a maioria das quadrilhas acaba se transformando em grupos populares de dança ou em balés populares. Da nossa parte, entendo que é um movimento que não tem volta, em função daquilo que alguns intelectuais chamam de “sociedade do espetáculo”, que é uma marca da cultura atual. Entretanto, como considero que a quadrilha tradicional tem o seu lugar, a sua razão para continuar a existir, penso que é incorporando ao movimento das danças circulares sagradas que isso estará garantido.

Já experimentamos os efeitos de integração, socialização, quebra do gelo, “distensionamento”, satisfação e etc. que os movimentos coreográficos da quadrilha tradicional podem nos proporcionar. Em alguns eventos realizados recentemente no Complexo Cultural “O Gonzagão”, como na celebração de 1 ano da atual gestão, na festa junina de confraternização dos funcionários da Secretaria da Cultura e também após a apresentação espetacular de algumas quadrilhas juninas durante o forró mensal, que é realizado naquele local, os presentes foram convidados para adentrar o salão principal e através dos passos da quadrilha tradicional celebrar a alegria de estarem juntos e sentirem a pulsação da vida.

Nos dias 25, 26 e 27 de setembro a Ong Ação Cultural estará promovendo mais um Encontro de Danças Circulares, o qual se somará a iniciativa de pessoas e entidades, de diversas partes do Brasil e do mundo, que celebrarão o centenário do nascimento de Bernhard Wosien. Para saber mais clique aqui.

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azuirfilho
 

Zezito de Oliveira · Aracaju (SE)
A Dança da Vida – 2º Movimento

Um Trabalho Maravilhoso de Formacáo Popular.
A gente fica sonhando em poder ser mais um aproveitando e viver esse projeto que vai ser realizador para qualquer um que participar.
Isso tinha que ser prestigiado para ser aplicado em toos os lugares do nosso Brasil.
Tem um conteudo muito elevado e forma para a realizacáo na vida.
Particip[ar de Projetos deste tipo eleva a auto estuima das pessoas além de uni-las e fortalece-las.
Quem participa destes grupos náo vai ficar nunca mais triste da vida nem desanimada para os embates da vida.
Esse Trabalho desse projeto é um Passaporte para construir a Feliocidade.
Gostei Muito.
Tinha de Fazer parte das escola em todos os Níveis Escolares e até na Universidade, para o formando se tornar um agente a Servico da Comunidade e náo um agente capitalista para usar a sua formacáo como instrumento de enricar em cima dos necessitados da comunidades onde so vai para explorar.
Um Trabalho Cidadáo.
Parabéns
Merece todo louvor

azuirfilho · Campinas, SP 9/8/2008 15:45
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Cintia Thome
 

Trabalho rico em informações , sobre a danças circulares, uma grande tenda onde Deus acolhe seu povo, Shekinah....Parabens Zezito, eu sempre à espreita. ab

Cintia Thome · São Paulo, SP 9/8/2008 18:16
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Saavedra Valentim
 

Meu caro Zezito,
Essas manifestações populares regionais, são de uma importância vital para o povo daquela região. Isso não pode morrer. Deveriam as Secretarias de Turismo de todos os Estados promover encontros, palestras e festas que mantivessem vivas essas tradições para a próxima geração. Porque a influência de rítimos estrangeiros leva a garotada para outros rítimos, que nada tem a haver conosco.
Um trabalho magnífico e que deveria ser divulgado mais vezes.
Um abração.

Saavedra Valentim · Vitória, ES 10/8/2008 00:21
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Zezito de Oliveira
 

Queridos (a),
Azuir, Cintia e Saavedra.
Grato pelas palavras de carinho e estimulo.
Espero ter ajudado com esse texto a trazer outras pessoas para as rodas de dança. Lembro-me da frase de um comercial antigo da CAIXA e que parafraseio da seguinte maneira: Vem para a roda de dança vocês também! Para localizar uma delas é só seguir através dos links.
Um grande abraço!

Zezito de Oliveira · Aracaju, SE 10/8/2008 14:45
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Nydia Bonetti
 

Zezito
As danças circulares constituem uma terapia maravilhosa, que aproxima as pessoas, melhora os relacionamentos, a qualidade de vida, dando uma nova visão da vida. Acho bárbaro. Ótima divulgação, num texto preciso.
abraços

Nydia Bonetti · Piracaia, SP 10/8/2008 15:24
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MarcilioMedeiros
 

Zezito,
que trabalho significativo e, ao mesmo tempo, prazeroso.
parabéns pelo texto.
abs.

MarcilioMedeiros · Aracaju, SE 10/8/2008 18:15
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Lia Amancio
 

Que texto interessante!

Curioso é que mesmo a dança de salão tem momentos 'circulares' - as ruedas de salsa, de swing e de outros ritmos, onde a relação a dois até existe, mas o grande lance é a diversão máxima um monte de adultos em roda se permitem ter (trocando tudo na hora do 'dame tres!' e se esborrachando de rir).

Lia Amancio · Rio de Janeiro, RJ 11/8/2008 00:16
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Andre Pessego
 

É aliás a dança no Brasil Colônia, e muito lá atras foi responsável pela continuidade da familia armoniosamente falando,. Era dos mais significativos motivos para o namoro, ao lado da alcovitice.,
abraço
andre.

Andre Pessego · São Paulo, SP 11/8/2008 07:41
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Zezito de Oliveira
 

Queridos (as),
Nydia, Marcilio, LIa e Andre.
As palavras de vocês, tem suscitado um enriquecimento das perespectivas apontadas no texto e merecerão da minha parte respostas mais consistentes, dentro de algum tempo.
Desde já o meu agradecimento a Lia Amancio e a Andre Pessego pela contribuição.
Também ajudam a ampliar a reflexão proposta por nós, as palavras do Azuir e do Saavedra. A opinião de Nydia Bonetti me chama a atenção por que dá transparecer que já mantém contato mais próximo com danças circulares. Será mesmo? Lembro que quando da publicação do texto anterior, Nydia mostrou-se bem interessada em endereços para se aproximar mais. Cintia e Marcilio são presenças luminosas e sempre estão presentes nos comentários e também publicando textos de grande valia.
Abraços,

Zezito de Oliveira · Aracaju, SE 11/8/2008 15:12
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Zezito de Oliveira
 

Vale a pena conferir também o texto de Lia Amancio sobre dança de salão, aqui.

Zezito de Oliveira · Aracaju, SE 11/8/2008 15:16
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Lia Amancio
 

Obrigada! :)

A verdade é que teu texto deixou quicando uma reflexão interessante sobre a diferença entre as ruedas: apesar de também ter a dinâmica dos pares, presta-se muito menos atenção no corpo do outro - e é muito mais lúdico e divertido. Alguma coisa a dança em roda tem que incentiva esse lado na gente, viu? :)

Lia Amancio · Rio de Janeiro, RJ 11/8/2008 23:54
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clara arruda
 

clara arruda · Rio de Janeiro, RJ 1/9/2008 10:20
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Lili_Beth*
 

Querido Zezito:

Parabéns pela bela divulgação!
...
E vamos dançar a vida vi_vida
...
Beijos_Meus*
*

Lili_Beth* · Rio de Janeiro, RJ 3/9/2008 15:12
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Coluna do Domingos
 

Votado

Coluna do Domingos · Aurora, CE 17/10/2008 12:41
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