A dança mágica da internet

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Cida Almeida · Goiânia, GO
2/3/2007 · 150 · 12
 

A magia dos dias está nas surpresas da vida. Aquilo que toca e sacode o nosso mortal cotidiano. Gosto da minha vidinha sossegada, mas também sou uma pessoa de viradas bruscas – nunca inconseqüentes -, dessas de dinamitar pontes, virar a casa de pernas para o ar, bater a porta e não olhar para trás. Gosto do remanso do sossego na medida do possível, o que não me impede de mergulhar em rio grande mesmo sem saber nadar. Compro com gosto os meus desafios e pago à vista. A potência crescente dos 40 rascando a planície do espelho, que gosto cada vez mais, me deu o charme que só a independência dá, como daquelas mulheres saídas de um filme de Truffaut, e também a compreensão de que o único comportamento que posso mudar é o meu. Então, eu sou o meu maior desafio, sempre.

E como não acredito em regeneração de personalidade, não tenho a fantasia de mudar as pessoas, apenas tocar e ser tocada. Esse é o encanto. As mudanças são cá comigo, nas batalhas interioranas. E uma das recentes batalhas que travei (ainda travo) comigo para mudar comportamento está nas tecladas pelo mundo virtual.

Resisti à internet até o limite da honra – os detalhes não vêm ao caso. Aquela minha vidinha pacata, com a crença de que o olho no olho é a medida do mundo, foi por água abaixo ou para o ciberespaço mesmo. Mas como não sou uma pessoa emperrada, inflexível às mudanças, corri contra o prejuízo, de mouse em punho. E sigo com a consciência de que não quero ter 300 amigos virtuais se não consigo cuidar bem dos que contaria com folga nos dedos das mãos.

E o método que mais gostei para essa navegação em espaço virtualmente aberto foi o dos esbarrões. Explico: aprumo-me diante do computador com um plano de navegação e, em busca de uma coisa esbarro em outra digna de mais atenção e lá vou mudando de rumo, como uma folha ao vento.

Dizem que internet é viciante. Por enquanto, instigante. Sei também dos riscos que corro. É aquela história: se a gente dança com o diabo, ele é quem modifica a gente. Meu lado Sancho Pança, acredito, há de garantir as desplugadas dos delírios de Dom Quixote em mim.

Até aqui, tudo bem. Creio que posso usufruir das infinitas possibilidades das janelas virtuais. Afinal, não quero ser e nem me sentir excluída do mundo que me chega à tela do computador. Devo ser mesmo um exemplar interessante dos seres que se adaptam com facilidade às mudanças do meio, no sentido darwiniano da palavra adaptação. Em pouco mais de um ano de existência no mundo virtual, um bebezinho, já consegui o meu lugarzinho ao sol na janela do Windows, com várias caixas postais e espaço na grande rede. Transportei da minha gaveta e do escondidinho da alma a minha Caixinha de Alfazema – que nasceu como título de um poema ainda na década de 80 – para o ciberespaço, com cheiros, matizes e palavras. O lugar mágico da intimidade das minhas palavras aberto público.

E como penso que uma esquizofreniazinha bem dosada não faz mal a ninguém, os meus diálogos do absurdo – freudianos, jungianos e quixotescos – encontraram o caminho da esfinge nesse mundo dos bits, em que tudo está por um click. Com todo o experimentalismo da palavra e das imagens, lá estão os meus diálogos da esfinge. Ah, e também as cartas do paraíso.

Olimpo virtual - A internet é mesmo um lugar de deuses e loucos. Uma rede onde se encontra muita bobagem e futilidades, mas também possibilidades, descobertas, desafios e coisas que valem a pena. A pescaria tem de ser paciente e orientada de dentro, com feeling e muito prumo na navegação. E o cuidado com a palavra e a privacidade, redobrado. Afinal, é como atirar garrafas ao mar. Elas voltam. E as nossas pegadas são todas visíveis. A ciranda começa simples (eu lhe encontro/você me encontra/nós nos encontramos) e complica com o trança-trança das redes. Tem gente que vive na rede e pra rede (Deus que me livre!).

A internet é um mundo com chave fácil para a fantasia, falsas dulcinéias, moinhos de vento e quixotes ensandecidos. É um mundaréu perfeito para as perdições de Alice. Portanto, alices, cuidado! Mas a ciranda virtual é interessante. Tenho feito upgrade em matéria de domínio das nossas tecnologias da informação e soltado os meus verbos nas free ways do ciberespaço. Esbarrei em deuses e loucos, com aquele friozinho das surpresas. Algumas surpresas dignas de arquivo e pulos para o mundo real. Outras só mesmo com o exercício de um verbo fresquinho, fresquinho: deletar. Sigo com minha navegação em clicks impulsivos, cheia de curiosidade, vou esbarrando e descobrindo, e tocando e sendo tocada.

No começo, a timidez, o medo da exposição. Depois relaxei. Encarei como um desafio, um brinquedo novo que está me forçando a exercitar prazeres que deliciavam o fundo das gavetas ou se perdiam na confusão dos arquivos do computador, o que apelidei de os perdidinhos de HD (hardware).

Os versos, a prosa, os pensamentos que comeram com gosto as palavras escritas, as fotografias e as minhas sentinelas da memória aos poucos estão se habituando ao livre trânsito da internet. Mandei meus soldadinhos de chumbo para a reserva. Com a costumeira cautela vou clicando, sondando, ousando e trocando palavras, impressões e conhecimentos com gente que provavelmente nunca verei do lado de cá da tela do computador. Mas e daí, se o meu rio grande de hoje é a internet? Que seja. E lá vou, com o charme daquela independência de uma conquista nova, um bicho de sete cabeças que tento domesticar ao meu favor. Sem esquecer dos perigos da dança com o diabo, exercito o verbo "clicar".

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Egeu Laus
 

Cida, o melhor adjetivo que encontrei para o teu texto: magnífico.
Assim em caixa baixa e sem exclamação para não passar da exata medida e virar o fio.
Teu quarto parágrafo é a definição precisa da navegação na rede.
Não muito diferente de um bom papo no mundo real. Alguém consegue bater papo sem ir trocando de assunto pelo caminho?
Grande abraço!

Egeu Laus · Rio de Janeiro, RJ 27/2/2007 12:38
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Andressa Back
 

O fato de você ter publicado esse texto aqui no overmundo é uma vantagem da internet. Sem querer entrar na discussão das vantagens e desvantagens da internet. A gente fica com medo de se expor, de passar muito tempo online, de se isolar demais. Mas veja só! Como eu estaria comentando esse texto, aqui de Fortaleza, não fosse a internet?

Andressa Back · Fortaleza, CE 1/3/2007 17:50
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Ana Beise
 

Sempre acreditei que a internet uni distâncias, o problema é que ela acaba por afastar os homens que cada vez mais estão trancados em seus mundinhos. Mas tudo bem, tudo tem um lado bom e um lado ruim.

Ana Beise · Porto Alegre, RS 2/3/2007 06:20
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Cida Almeida
 

Andressa, sem dúvida, inimaginável o mundo sem o meio instantâneo da internet. Como disse, a magia da vida está nas surpresas. Realmente é uma dança mágica e como tudo que é mágico tem encantos e perigos. Espero ter pelo menos consigo dosar direito o meu pé cá e o outro lá por esse mundo mágico, a estrada de tijolos amarelos. Bom demais mesmo esse retorno do seu comentário, minguando as distâncias e estreitando a comunicação. Beijo grande.

Cida Almeida · Goiânia, GO 2/3/2007 07:05
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Cida Almeida
 

Ana, aí é que entra a história do desafio, plugar e desplugar na dose certa. Beijo grande!

Cida Almeida · Goiânia, GO 2/3/2007 07:06
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Fabiana Mesquita
 

Tenho uma predisosição a ficar dependente de páginas que gosto. Vicio em blogs de um jeito que não consigo passar um dia sem fazer uma visitinha. Fico tão desapontada quando demoram para atualizar... Quando percebi que estava demais passei a dar mais importância ao olho no olho, à "distância zero" (como disse um amigo). Não que o ciberespaço seja ruim, é bom porque pode nos agraciar com textos assim.
Importante é saber que a proximidade é muito valiosa. Todas as vezes que tentei manter um amigo por e-mail, acabei perdendo.

Fabiana Mesquita · Rio Branco, AC 2/3/2007 08:47
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Bia Marques
 

o prazer do abismo no mero passo à frente, acho isso um indício inquestionável de sanidade: vasculhar, mexer, aprender, descobrir, curtir sem escravidão. penso que é pra isso que se criam tantas coisas. o uso que se faz de cada uma é o que conta. gostei muito, vou imprimir pra minha mãe que acha tudo isso muito estranho...

Bia Marques · Campo Grande, MS 2/3/2007 16:46
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Luciano Carôso
 

Duas palavras: para a relação de tempo mundo plugado X mundo desplugado, equilíbrio. Para o texto de Cida, fantaaasssticoooo!!!

[]s,

Luciano Carôso · Salvador, BA 2/3/2007 17:16
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brigitte
 

Participo desse êxtase virtual. Conterrânea, o que mais fascina na internet é o contato com pessoas que talvez nunca se conheceria.Aliás, nunca é uma palavra ausente do dicionário da geração NET.

brigitte · Goiânia, GO 2/3/2007 23:15
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Paulo José
 

Uma egotrip maravilhosa para um texto melhor ainda.

Paulo José · Alto Paraíso de Goiás, GO 3/3/2007 15:50
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Tacilda Aquino
 

Já fui mais fissurada em internet. Atualmente sou mais seletiva. Passeio muito por sites já "fidelizados". Mas a dança é mágica mesmo. E completamente endiabrada.

Tacilda Aquino · Goiânia, GO 9/3/2007 21:35
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Juliaura
 

Por que estás tu atrás da porta,
óh mulher mais linda ainda
que vejo por agora ler
essa tua prosa
que derrama poema como quem goza?
Essa tua vitória, já bem adiante
(é agosto)
revela que nem tão fundo foi o rio
como a princípio pareceu
e mais ainda que René Magritte
fizestes já outras pinturas de muita outra cor.
E belas luas e bichos e plantas e amor.
Falaria também de dor e flor, mas tem gente que não gosta,
então não falo assim aqui, ainda.
Calo.
Cida, aquele teu texto lá,
no comento do postado da Ize
de onde vim pra cá,
diz que tuas gavetas são muitas
mais que as janelas superpostas destas
maravilhosas pecês (porque máquinas são, não?),
são vivos arquivos de uma pessoa viva
de singela inteligência de uma calma mulher
que, modesta, nos enriquece com beleza.
Que não queiras, nem o busques, mas o são:
pelo menos eu elogio o que gosto e me esparramo se adoro.
Por fim, que já me alongo sem talvez dever,
estamos também por um fio ligadas a você.
(seria a ti que eu diria, mas não rimaria).

Beijin,
Agrade_Cida.

Juliaura · Porto Alegre, RS 7/8/2007 21:49
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