Recebi singela notícia de Janete Schneider, uma colega minha de trabalho:
- Vamos dar teu livro de presente a pessoas que lêem braile, falou-me alegre, com muito entusiasmo. Fiquei emocionado.
Fiz com Janete Schneider o curso de monitoria para a formação em informática de pessoas com deficiência visual.
Já formamos, ela como principal orientadora de alunos, por compreender melhor o universo imaginário de pessoas com deficiência visual como ela, com retaguarda minha e de colegas do Cibernarium da Procempa, 21 pessoas em quatro turmas que concluíram o curso de Windows, Word, Excel, Internet e Correio eletrônico, de 120 horas de duração, oferecido gratuitamente a interessados.
Janete lera O dia do descanso de Deus com o auxílio do programa leitor de telas Virtual Vision, o mesmo que a fundação Bradesco, por convênio, disponibilizou cópias gratuitas para a prefeitura de Porto Alegre em 2005.
No mesmo convênio, foi doada uma impressora braile, que reproduz na língua para deficientes visuais cópias em papel de textos produzidos em computador.
Em conseqüência, há também no Cibernarium, que funciona no quarto andar do Espaço Cultural do Trabalho Usina do Gasômetro, um programa de impressão pública e gratuita de textos em braile.
Janete é coordenadora de Inclusão Social da Secretaria de Acessibilidade e Inclusão Social, onde sou técnico em comunicação.
Ela tem sido incansável na difusão dos programas para pessoas com deficiência visual, indo às feiras em que a empresa de informação e dados do município disponibiliza a estrutura informatizada.
Demonstra a possibilidade de acesso a ambos os serviços, de formação em informática e impressão em braile.Foi assim na Globaltech, na Expointer, já por dois anos, e também em 2006 e 2007 na Feira do Livro de Porto Alegre.
Nesses espaços, quando demonstrava o potencial do leitor de telas e da impressora braile em 2007, Janete ia fazendo também a costura paciente da transformação de 104 páginas impressas em tinta nas 430 páginas que resultaram em três volumes impressos em braile.
Nos abraçamos. Eu penso que chorava e ria ao mesmo tempo, feliz e comovido com a surpresa agradável de minha colega.
Decidimos na hora doar a publicação à Biblioteca Pública Municipal Josué Guimarães, que funciona no Centro Municipal de Cultura Lupicínio Rodrigues, na Avenida Erico Verissimo, Esquina Avenida Ipiranga, no Bairro Cidade Baixa.
Estava há algum tempo para contar essa pequena história de um gesto que muito me ensinou e até agora me emociona.
- É que lendo em braile, eu percebi, criam-se as cenas e as imagens se formam de um modo diferente do que escutando a narração pelo programa leitor de telas. E ainda se pode retornar no texto com muito mais facilidade e rapidez. Eu acho que li dois livros muito diferentes, confessou-me Janete bem contente.
Por certo, eu também fiquei muito feliz.
Adroaldo,
vc não faz idéia o quanto este assunto emciona quem tem parente cego. Na minha família foram 5 casos de cegueira. A minha avó, meu pai e tios ficaram cegos.
Certa vez, li em algum lugar, que o correto é chamar a pessoa que não tem visão alguma de cego. E não de deficiente visual.
De qualquer forma, independente do título, essas pessoas irão se deliciar e enxergar um mundo escrito por vc. É um milagre!
P A R A B É N S ! !
Olá Kais,
Agradecido.
As pessoas que não enxergam são cegas. Outras que tenham dificuldades graves de visão são deficientes visuais, pessoas com grau acentuado permanente de dificuldade de enxergar em pelo menos um dos olhos, é o que vem dizendo a legislação.
Eu, que enxergo pouco, mais por distração que por dificuldade física, sou apelidado aqui no trabalho pela Janete de "ceguinho fingido".
Professor,
Já falei de meu pai aqui. Meu velho ficou cego aos quase 65 anos. Tive a mais fote emoção de que me lembro, quando levei minha filha mais velha, então com 7 anos, à casa de meu pai. Ele a pegava, passava as pontas do dedos no seu rosto (dela), num esforço par ler-lhe os traços. .... imagina....
E, ainda assim, aprendeu a fazer muita coisa; acostumou a ir a muitos dos lugares do dia a dia.....
um abraço, andre.
Querido Adroaldo:
Por certo eu também fico muito feliz!
Seremos pessoas mais felizes uns com os outros e com nós próprios. Propriamente dito ... rsrsrs ...
PARABÉNS!
Beijos_Meus*
*
Aproveito a oportunidade para deixar um *FELIZ NATAL !* (Com letrinhas azulzinhas, enquanto não providenciam as rosas)
L*L*,
Estou ainda a pensar no que dizes cá e lá, mas grato já sou a ti, menina linda amiga e amada minha.
Mestre André,
Lindo seu depoimento, ainda que triste a perda da visão, não significa a perda do sentido de que viver é muito mais que ver.
E é possível ver com a mão, com o coração.
Abraço, irmão.
Adro,
Emocionante história. A parte do 'ceguinho fingido' me lembrou uma história daqui. Tenho um amigo, radialista emérito da Rádio nacional (não menos emérita) que se chama Rubem 'Confeti'. O Confeti é um grande especialista em Samba, ex-mestre sala, escritor, compositor, o escambáu. Pois bem, Confeti está cego há, pelo menos 20 anos. Quando chega numa roda de amigos, lança a mão estendida no centro para quem quiser pegar, espera as pessoas falarem para descobrir de quem é cada voz, identificadas, conversa com todos, como se os visse. Já vi o confeti na rua, em plena Av Pres.Vargas, atravessando e esperando ônibus no ponto (até hoje não sei como ele faz), sempre sozinho. Leva por isto a fama de 'ceguinho fingido'. Ocorre que o homem é cego mesmo, deve ver apenas algumas sombras difusas e se valer de sua memória musical prodigiosa. No tempo em freqüentava o 'Apóstolo do Samba', clube sambista do qual ele era um dos 12 convivas (eu era só visita) corria a seguinte piada:
Rubem e um outro apóstolo, que era manco, estão para atravessar a rua, o manco grita para Confeti:
_Olha o sinal, pô!
Ao que Confeti responde, na lata:
_Ah é? Então corre!
Abs
Amizade, o que ensina essa gente espirituosa e linda, não dá para acreditar, se não com elas se conviva.
Sabe que eu penso haver uma "redução" ao humano num grau que ainda, os videntes que somos, não conseguimos alcançar. Digo redução por blague, por que de fato é uma ampliação da sensibilidade tamanha que nos inspira.
Feche os olhos.
Sinta a brisa.
O Aroma.
Ouça o mar.
E aquela donzela em saltos a bater os pinos finos no asfalto.
Eita!
Grato Spírito.
"E aquela donzela em saltos a bater os pinos finos no asfalto."
Em 1994 quando produzi alguns shows da Banda Tribo de Jah no RS, tive o imenso prazer de conviver com a equipe por 15 dias.
Lembrando que entre os 7 músicos que compõem a banda, 4 são cegos e um é caolho.
Aquiles, que é casado com uma mulher que não era cega e ficou quando bateu a cabeça no chão ao levar um tombo da rede em que estava deitada, sempre dizia: Mulher gostosa para cego, é o splash splash do chinelo de dedo.
Mas o que mais me surprendeu, foi a capacidade deles de reconhecerem suas bagagens com apenas um toque da ponta do dedo e tempo todo o uso da expressão, "deixa eu ver".
Meu pai é um enxergador fingido. Por ele disfarçar a sua cegueira e manter o hábito de falar olhando nos olhos, demora-se um certo tempo de conversa com ele para perceber a sua cegueira. Ainda mais que seus olhos ainda brilham como se enxergasse.
Niemeyer nos diz do alto dos seu centenário saber que a vida é um sopro. Eu já acho, apenas com 55, um jovenzinho ainda, então, que a vida até pode ser breve, porque longa é a arte, mas é mais que um sopro, sendo possível, muita vez, de vendaval ser, de incendiar as almas, de inflamar as mais puras razões, Kais.
Veja seu pai, veja a Janete.
São quem nos dizem disso e muito mais.
Dê-se valor ao que se tenha e abram-se os corações para a paz, como Lennon cantou, uma chance só e entramos de sola num 2008 pra fazer valer a humanidade, ô rapá!
Adroaldo,
Tenho um amigo que também é deficiente visual e que tem um senso de solidariedade extraordinário. Vou reenviar o seu artigo para ele,
Abraço,
Zezito
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