Céu e mar azuis na sexta-feira, 13 de abril. A deixa: o cinza da memória dos 281 anos de fundação de Fortaleza. A pauta: Estação João Felipe. Era chegar e conversar e ouvir testemunhos, saber dos números em rápido diálogo com a administração, fotografar e, em seguida, voltar para casa satisfeito, sentimento de dever cumprido. Embora enfadonho. Um jornalismo feito às pressas, às vésperas do grande acontecimento que é a publicação. Não que o aniversário da metrópole pedisse mais. É que, ali, havia mais. Havia um jogo de dominó e outro de carteado. Um bom papo feito à sombra da castanholeira ou dos coqueiros. E um café ou chá pelando naquela manhã ainda mais quente. Havia, esquecida a um canto, a Associação dos Ferroviários Aposentados do Ceará (AFAC). Lá dentro, numa saleta apertada onde quatro mesas e algumas cadeiras brigavam por espaço, as memórias de Luís guardadas em gavetas.
A chegada
A praça da Estação é ampla e habitada sobretudo por ônibus, que chegam e saem e tornam a chegar, vazios. Vista de cima, um grande bolo meticulosamente fatiado em pedaços retangulares em cujas extremidades dormem, sob as poucas árvores, mendigos. As ruas de que se serve a praça são de paralelepípedos. Uma cabine policial aqui, uma banca de revistas ali. Num cruzamento próximo, enxame de mototaxistas se concentra num ponto colorido que atravessa a praça. Dois ou três palmos acima dos joelhos, uma saia vermelha acompanhada de dois peitos que se sacodem ritmicamente. Os olhos crescem. Adiante, o Passeio Público, ponto de encontro das “meninas”.
Entre uma sombra e outra, dez metros de sol na cara. Além, a “velha” de 134 anos recebia – boca desdentada, mas ainda viçosa – homens e mulheres cujo destino, a bem dizer, desconhecia. Um entra-e-sai movimentado, distante da imagem de decrepitude afixada em tudo que já passou dos quarenta. Ela, a estação João Felipe – fundada em 1873 sob o nome de Estrada de Ferro de Baturité – tinha quase quatro vezes mais que isso. E se mantinha, àquela altura, digna de amores velados ou paixões desvairadas. Como a de Luís.
O prédio da AFAC, anexo ao da estação, fica numa esquina sombreada em frente ao Centro de Turismo do Estado (Emcetur), em cuja sede funcionou também a antiga cadeia pública. Filtrada, a música dos tempos idos chega mansa aos associados que pelejam do lado de fora debruçados nos tabuleiros ou travam partidas de sinuca do lado de dentro. Ela vem da sala da administração. De lá, era como se Luís Ribeiro, atual secretário da entidade, conseguisse enxergar a esquina. “Trabalhava aqui na estação como agente comercial. Era 1966. Bebia muito. Um dia, depois de uma noitada ali no Curral (antigo cabaré no Centro da cidade), amanheci deitado lá. Um amigo viu. Fui demitido da estação pouco tempo depois”.
Luís é calvo e simpático. Vaidoso, fala aos borbotões, revelando com satisfação cada lance, dramático ou cômico, da sua vida. Fato curioso: perseguindo o filho homem, teve quatro meninas. “Como não nascia o menino, a gente ia tentando. Quando vi, tava com quatro filhos”, conta. A quarta menina e quinta cria pela ordem de nascimento veio mais por força de vontade ou falha dos métodos anticoncepcionais que pelo gosto do casal. “Ela veio sem querer. O nome dela é A última”. Ante o espanto, acrescenta ligeiro: “Só que em francês”. Na mesma lógica, o único filho do casal. Na certidão de nascimento, A aguiazinha. “Em homenagem ao filho de Napoleão Bonaparte, de quem sou muito fã. Também em francês, claro”.
O tropeço
Rápida tomada de nota – ele corre à frente da locomotiva. Nesses 65 anos de vida, 57 dos quais dedicados aos trens de carga ou de transporte de passageiros, Luís passou por quase todos os setores e desempenhou as mais diversas ocupações dentro e fora das estações. Foi “limpador”. No que consistia o ofício de limpador? “Limpava o trem”. Foi “soltador”. Desse, Luís fala com orgulho: “Pra sair da estação, só com a minha assinatura. Eu soltava o trem”, diz sorrindo.
No meio do caminho de Luís, porém, a pedra do alcoolismo. “Começou na hora de ir pra escola, o Rui Barbosa, e, no lugar de tá na aula, ia beber”. Sua vida, antes aprumada sobre o ferruginoso dos trilhos, descarrilou. Ele, porém, não engasga, não gagueja ou faz torneios ao falar do assunto. No lento e prazeroso rememorar, esses anos de embriaguez diária vêm natural, porque, ao menos em parte, superados. “Nunca digo que deixei de ser alcoólatra, porque disso a gente não se livra. É como um bicho que fica pra sempre dentro da gente. É por essa razão que nunca deixo de ir às reuniões do grupo que eu freqüento. Se deixar, ele toma conta de mim. Basta um primeiro gole pra desfazer o trabalho desse tempo todo”.
Como no livro, Luís fez da “queda um passo de dança, do medo uma escada”, e foi subindo e subindo até retornar à estação. Desta vez, recontratado e com direito a pedido de desculpas. Ele conta. “Os trens sempre foram a minha vida. Desde os oito anos, quando comecei em Amanaré, que estou metido nisso. Me aposentei muito cedo, em 1984, e até hoje me arrependo. Depois de ter sido demitido daqui, procurei uma saída pra doença. Encontrei ela no Alcoólicos Anônimos (AA), de onde nunca mais saí. Voltei a trabalhar e a estudar. Entrei na faculdade. Fiz vestibular para História na Universidade Estadual do Ceará (UECE) e me formei. Para a formatura convidei muitos amigos, inclusive o homem que me demitiu aqui da estação”. O que segue, porém, Luís diz aos empurrões, voz escassa. “Um amigo comum foi e contou pra ele. Fui contratado novamente. No dia do nosso reencontro, agradeci por ele ter me demitido naquele dia”.
Henrique, seu texto é muito bacana. É muito importante resgatar um pouco da história que ninguem vê. Todos os dias cruzamos com grandes personagens do dia-dia. Muito bom o seu recorte. Abraço.
FILIPE MAMEDE · Natal, RN 23/4/2007 10:02
valeu pela leitura e pelo comentário, filipe.
abraços!
Memória viva e hiostória latente, bravo. Lembrei do documentário de Alexandre Basso "Paralelos" sobre os trilhos desse Matão daqui...
Bia Marques · Campo Grande, MS 23/4/2007 21:33Longa vida ao Trema. è sempre um przaer dividir o seu olhar e sentimento. Parece que tudo é tão familiar que meus olhos vagavam com os trens. parabéns!
Claudiocareca · Cuiabá, MT 23/4/2007 21:59Estava eu aqui, na redação, perdido. Tarefa cumprida, mas esperando a resolução de um problema da diagramação. Resultado: ócio total. Mas, depois de tantos índices econômicos, estava precisando ler algo que elevasse meu pensamento, que despertasse minha imaginação, que me trouxesse algo da aura da poesia, que tanto estimo. E acabei encontrando o refúgio buscado nesse seu texto. O concatenamento de idéias está bastante criativo, e as palavras, essas você usou muito bem, soube aproveitar a força que elas têm. O conjunto da obra me fez mergulhar nessa história, humana, que tanto me identifiquei. Por fim, quero agradecer por fazer de meu ócio algo produtivo!
Sérgio de Sousa · Fortaleza, CE 24/4/2007 22:11
sérgio, que bom que tenha gostado. e comentado. do contrário, eu não teria tido a oportunidade de ler o seu belo texto sobre o São João Batista! parece que temos em comum essa paixão por cemitérios. sendo assim, leia também isto aqui:
http://www.overmundo.com.br/overblog/covas-e-tilapias
abraços!
Muito bem.
O final da estória molhou meu olhos. Mas eu sempre fui piegas mesmo, ahaha.
Li essa matéria no Cidade em Pauta e achei muito bonita. Gosto muito da maneira como você consegue contar a hisyória das pessoas e, através delas, a história dos lugares.
Débora Medeiros · Fortaleza, CE 17/6/2007 13:08Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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